A história de um soldado (gay)

Autor: Wayne Drash

FonteCNN U.S.

Tradução e IntroduçãoLuiz Henrique Coletto

Também publicado em Bule Voador.

Andrew Wilfahrt. Fonte: Courage Campaign.

A reportagem abaixo segue a mais forte tradição do jornalismo americano: telling a story – não gratuitamente, reportagem é equivalente à story em língua inglesa. O texto de Wayne Drash, da CNN, conta uma longa história sobre Andrew Wilfahrt, um jovem dos EUA que aos 29 anos decide entrar para o Exército. Com uma narrativa que tem a cronologia histórica quebrada, ancorando-se numa cronologia psicológica e dramática (de enredo), a história revela a vida de um jovem homossexual que tinha tudo para ser brilhante naquilo que quisesse – e que surpreendeu dentro e fora do Exército por ter escolhido ir para lá. Também revela os bastidores de um estado, Minnesota, em que as figuras políticas mais proeminentes do Partido Republicano fazem uma guerra de longa data contra os direitos civis da população LGBT.

Há quase um ano, foi postada aqui no Bule a história de Chimamanda Adichie, uma escritora nigeriana que alertara sobre os perigos das histórias únicas. Penso que a história do Andrew – e não só a dele, mas as de todos os personagens e cenários que se cruzam nesta reportagem – vá num mesmo sentido. Creio que para além das verdades e das formulações conceituais que tantos debates nos propiciam como processo formativo e axiológico diante do mundo, é importante não esquecer de que há muito mais nuança do que imaginamos em quaisquer categorizações, sobretudo quando dizem respeito às pessoas. Uma destas ideias formadas que me parece muito nociva é a do antiamericanismo que confunde pessoas com ideias. Criticar as políticas internacionais, a visão de Estado do EUA em relação a outros países, seus métodos, seu ímpeto imperialista pouco refreado… é absolutamente diferente de homogeneizar uma população tão diversa quando a brasileira ou qualquer outra.

A história de Andrew é cheia de detalhes bastante biográficos e que dão um tom idiossincrático à pessoa que ele foi. E ajuda a reforçar que há espaço para grandes trajetórias e vivências em todos os lugares do mundo.

 Soldado deixa legado muito maior do que “ele era gay”

Rosemount, Minnesota (CNN) – Andrew Wilfahrt mudou o passo nas semanas anteriores à ida para o treinamento básico. Ele caminhou de forma mais ereta. Ele ganhou massa muscular. Ele falou com uma voz grave à la Robocop. Ele agiu de modo “viril”.

Aos olhos de seus pais, Jeff e Lori, foi tudo um pouco estranho.

Este era o rapaz que disse a eles ser gay aos 16 anos depois de ser confrontado com as contas altíssimas de salas de chat da Internet. Que lutou pelo direitos gays no Ensino Médio e escapou dos punhos dos jogadores de futebol americano quando os jogadores de hockey vieram em seu socorro. Que teve a coragem de vestir rosa e verde mesmo depois que seu carro foi pichado com “Vá para casa viado!

Tudo que seus pais queriam era que Andrew fosse ele mesmo. Aos 29 anos, ele sentou com os pais na mesa da cozinha e disse-lhes que estava sentindo falta de companheirismo e fraternidade em sua vida. “Vou entrar para o Exército”, disse.

As novidades os surpreenderam. Por que Andrew entraria para a vida militar na qual ele seria forçado a negar uma parte de quem ele é? Ele era um amente de música clássica, compositor, ativista pela paz, um gênio na matemática. Ele estudava palíndromos, mapas, padrões, a Constituição dos EUA, física quântica.

Um soldado? Isso nunca passou pela cabeça dos pais “esquerdistas” de Andrew. No entanto, assim como haviam feito com todos os seus três filhos, eles o apoiaram. Não foi fácil. Tornou-se terrivelmente doloroso. Quando o filho deles acabou sendo enviado para o Afeganistão, em julho de 2010, Jeff acordava cedo todos os dias para procurar pela cidade de Kandahar no Google. Ele rastreava cada soldado que havia morrido naquela terra distante.

Então, em 27 de fevereiro de 2011, na mesma mesa de carvalho em que Andrew disse que estava se juntando ao Exército, os Wilfahrts souberam que seu filho mais velho havia morrido. “Eu quero falar diretamente com alguém do pelotão dele!”, Jeff disse ao oficial e ao capelão sentados à frente dele. Ele queria saber com certeza que aquela não havia sido uma morte “por trás dos panos” de um rapaz gay.

O Cabo Andrew Charles Wilfahrt, 31 anos, parece ser o primeiro soldado gay norte-americano a morrer em combate desde que o Presidente Obama assinou a anulação da política “Não pergunte, não fale“, que forçava os gays no serviço militar a esconder esta parte de suas vidas sob pena de serem expulsos. Ele também estava entre os mais inteligentes dentre a força composta por meio milhão de homens, atingindo uma pontuação perfeita em seu teste de aptidão, uma façanha que o Exército afirma ser rara.

Andrew era tão bem quisto que seus companheiros nomearam um posto avançado de combate (COP) com o nome do colega de sorriso contagiante. COP Wilfahrt fica a seis quilômetros de Kandahar. Para seus colegas, o nome do posto não é de um soldado gay, mas sim de um que lutou com bravura.

“Mãe, todos sabem. Ninguém dá bola”, ele disse à sua mãe na última conversa que tiveram, num telefonema do Afeganistão no Dia de Ação de Graças. Numa biografia que deixou no laptop, Andrew descreve-se como alguém que “envolveu-se com o solipsismo casual”, a ideia de que, em última instância, uma pessoa só pode conhecer a si própria e nada mais. “Embora próximo a meus pais pais e irmãos, eu geralmente prefiro a solidão e a introspecção, e tenho poucos amigos íntimos”, escreveu.

Andrew nunca negou sua homossexualidade. Mas como tantos, ele teve que lutar com a realidade de ser gay nos EUA. Ainda que fosse apenas uma parte dele. Ele era muito mais. Nos apontamentos em seu laptop, ele nunca usou as palavras gay ou homossexual para se autodefinir. Sua irmã mais nova, Martha, diz que isso era a questão menos interessante sobre ele. Mas com sua morte, seus pais tomaram parte na causa dos direitos gays. Andrew lutou por seu país num território estrangeiro. A luta de seus pais está sendo travada em sua terra natal, no estado de Minnesota. Para eles, diz respeito à defesa da Constituição – protegendo os direitos de todos os cidadãos.

Gay na terra de Pawlenty e Bachmann

O carro Toyota Corolla desliza pelas ruas do centro de Minneapolis. Os Wilfahrts estão entrando numa parte da vida do filho que era distante deles. Eles estão indo de seu lar na suburbana Rosemount para a Parada do Orgulho das “Cidades Gêmeas” [Minneapolis e Saint Paul], um evento anual que o filho adorava. “É algo novo para nós”, Lori afirma.

Eles viajam num silêncio solene. Harry Nilsson ecoa pelos alto-falantes:

Lembre-se, a vida é apenas uma memória

Lembre-se, feche seus olhos e você poderá ver

Lembre-se, pense sobre tudo que a vida pode ser

Lembre-se, sonhe

O amor é só um sonho…

Sua mãe põe as mãos na face e chora. O sonho do filho era se apaixonar e encontrar um emprego que lhe permitisse ter tempo para compor canções. “Você está bem, querida?”, Jeff pergunta à esposa. Os dois estão casados há 33 anos. Lori trabalha como gerente de projeto na multinacional 3M. Jeff  também fez carreira lá, mas ficou desempregado desde o começo do ano. Os Wilfahrts têm a aparência “pacata” das pessoas de meia-idade do Meio Oeste: cabelos grisalhos, óculos de aros, enfim, comuns. Entretanto, não se engane: esses “minnesotanos” de longa data podem ser a força mais poderosa a se juntar ao movimento pelo casamento entre homossexuais.

Num estado que produziu os aspirantes à candidatura presidencial pelo Partido Republicano Michele Bachmann e Tim Pawlenty  – os quais fizeram carreira lutando contra o casamento gay -, estes pais de um herói dos EUA apresentam um grande desafio ao establishment. Eles levarão a batalha à Suprema Corte se assim for preciso. Para os Wilfahrts, negar aos gays o direito de casar é discriminação contra um grupo ao qual o filho deles pertenceu.

Jeff pediu que Lady Gaga fosse a Minnesota para dançar uma polca pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ele ignorou recentemente um chá na Casa Branca com a Primeira Dama organizado para as famílias daqueles que serviram no Exército. Ele quis enviar uma mensagem à administração Obama: meu filho deu a vida pelo seu país, ainda que não tenha plenos direitos em sua terra natal.

Num dia recente da primavera, o casal ficou do lado de fora do Capitólio de Minnesota [local que reúne a Câmara, o Senado e o Executivo daquele estado] enquanto os parlamentares preparavam-se para debater o casamento. Os legisladores votaram, em grande parte seguindo as diretrizes dos partidos, para colocar uma emenda constitucional na cédula de votação em Novembro de 2012 para definir o casamento como somente entre um homem e uma mulher.

Jeff nunca havia falado muito publicamente antes de elogiar seu filho. Ele começou dizendo à multidão, “se eu levantar meu dedo, é porque estarei chorando. Quando vocês virem este sinal, eu precisarei parar.” Poucos minutos depois, seu dedo balançava na brisa. Sua voz falhou. “Eu desafio os defensores do homem-padrão, da mulher-padrão a definirem masculinidade ou feminilidade. Você irão, como seres humanos, como americanos, como cidadãos de Minnesota, ser solicitados a abrir suas calças ou ter suas saias levantadas quando estiverem requerendo uma licença para casar?”

“… Eu espero que meu filho não tenha morrido por seres humanos, por americanos, por cidadãos de Minnesota que lhe negariam direitos civis.”

Naquele dia, nas arquibancadas da Parada do Orgulho, os Wilfahrts celebraram a identidade de seu filho tanto como gay quanto como soldado. É o tipo de evento que chocaria Bachmann e Pawlenty: mais de 100 mil gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e heterossexuais reunidos em seu estado natal, celebrando a vida e obedecendo a lei. Um carro da polícia de Minneapolis liderou a parada, dois oficiais acenando para a multidão eufórica.

Na noite anterior, Jeff, 58 anos, e Lori, 56, perguntavam-se se haviam feito a coisa certa ao ter ido para a Parada. O filho deles era tão reservado, ele gostaria que seu pai e sua mãe se manifestassem? Dentro de poucos minutos no dia de hoje, eles tiveram a resposta que queriam. “Obrigado por você e pela dedicação do seu filho”, um homem disse, oferecendo um abraço a Lori. Lágrimas brotaram nos olhos do casal.

Outra pessoa desconhecida, Laurie Kermes, segurou a mão de Lori. “Seu filho fez muito. Ele não terá ido em vão”. Em instantes, um carro alegórico surge carregando dois pôsteres fotográficos gigantes de Andrew com uniforme militar. “É o nosso garoto!”, Jeff afirma. Ele e Lori se abraçam. Suas cabeças inclinam-se para o chão; dois pais exaustos sentindo a perda do filho.

‘Estou aqui para servir’

Andrew encontrou-se com um ex-fuzileiro naval gay em bares e cafés de Minneapolis nos meses anteriores ao ingresso nas Forças Armadas. Ele queria saber os prós e contras de ser gay no exército. Ele vinha sendo voluntário em abrigos para necessitados, refúgios de animais, uma casa para pacientes com AIDS, seções de recenseamento eleitoral e em outras iniciativas não governamentais. Aos 29 anos, morava com os pais e procurava por mais vida.

O ex-marinheiro disse que Andrew havia lhe contado que queria servir porque, assim, um soldado com esposa e filhos não precisaria ir para o Exército.

“Ele não estava fazendo proselitismo” sobre ser gay. “A escolha que ele fez foi por todos”, afirma Dan, que pediu para que seu sobrenome não fosse revelado. “Ele sempre será um herói para mim porque ele entrou nas Forças Armadas pelas razões certas. Ele era uma parte silenciosa da comunidade LGBT, mas é simplesmente inexprimível o enorme impacto que ele está tendo agora.”

Seu nome e rosto têm estado no front e no centro do debate estadual sobre casamento gay. O deputado republicano John Kriesel, que perdeu as pernas enquanto servia no Iraque, trouxe a foto de Andrew para o plenário durante o debate na Assembleia de Minnesota. Há alguns anos atrás, afirmou, ele teria definido o casamento somente como entre heterossexuais. Mas sua passagem pelo Exército mudou isso. “Essa emenda não representa aquilo pelo que luto”, ele disse aos congressistas.

“Não posso olhar para esta família e para esta fotografia e dizer, ‘Você sabe, Cabo, você foi bom o bastante para lutar por seu país e dar a sua vida por ele, mas você não é bom o suficiente para se casar com a pessoa que ama’. Eu não posso dizer isso”. Andrew não tinha um companheiro. Se tivesse, seu parceiro não teria sido autorizado a escoltar seu corpo para casa vindo da Base Aérea Dover [no estado de Delaware], nem teria recebido a pensão de 100 mil dólares pela morte de Andrew.

Andrew chegou à Floresta Fort Leonard, no Missouri, em fevereiro de 2009. O homem com peitoral definido e “seis gominhos” no abdômen chamou logo a atenção quando questionado pelos sargentos instrutores. Ele falava com uma voz estilo Robocop. Respondia pergunta após pergunta.

Observando o jovem, Kevin Gill questionou: quem é esse cara?

“Depois que nos tornamos bem próximos, ele me disse que aquela era sua ‘voz de homem forte’ e que ele a usava para mostrar sua verdadeira ‘masculinidade'”, Sargento Gill contou a CNN numa série de e-mails direto do Afeganistão.

Andrew ganhou a alcunha de Slovak por sua “voz de macho” e seu jeito exagerado de durão. Andrew era assim, um “estranho no ninho” que achou uma forma de se encaixar ali. Quando ele ria, jogava a cabeça para trás, fechava os olhos e soltava um som que fazia todos ao redor gargalhar. Em combate, ele andava com dois outros soldados. Um era afro-americano, o outro do Haiti. Eles eram conhecidos como “Equipe das Minorias”.

Inteligente não chega nem perto de descrevê-lo. Todos se sentiam espertos só de estar perto dele. Logo depois que Andrew chegou no pelotão no Havaí, um comandante viu sua pontuação perfeita no teste de aptidão e o pressionou: o que alguém com tantas aptidões está fazendo como recruta?

“Isso é algum tipo de brincadeira, Wilfahrt?”

“Não, senhor”, ele disse. “Estou aqui para servir!”

O Sargento Gill uma vez perguntou a ele sobre a Primeira Guerra Mundial. Na semana seguinte, durante quatro horas por dia, Andrew recontou a história da Primeira Guerra Mundial e de todos os demais conflitos em que os Estados Unidos estiveram até a Guerra do Vietnã. Andrew tinha uma conexão com a Primeira Guerra: seu bisavô, Charlher Wilfahrt, entrou em batalha na Europa em 26 de setembro de 1918. Noventa e dois anos depois daquele dia, Andrew entrou na Operação “Dragon Strike” no Afeganistão como membro da 552ª Companhia de Polícia Militar.

A sincronia temporal não passou despercebia por ele. Andrew sempre encontrou significado nos números. Os números com importância para ele e o Sgt. Gill eram suas idades. Eles se conheceram no campo de treinamento, onde eram os caras mais velhos. Andrew tinha 29 na época, e Gill 39. Os dois eram como irmãos. A única diferença entre eles antes de irem para a guerra: Gill ia para os bares héteros durante as folgas em Schofield Barracks, no Havaí. Andrew ia para os bares gays. Gill conta que Andrew sempre achava que os investigadores militares estavam o seguindo.

Nenhum de seus colegas importava-se com sua sexualidade. E, já que “homens são homens”, eles faziam piadas sobre gays com Andrew. A resposta dele: rir com eles. Ele disse que era engraçado que ele havia falado mais sobre sua sexualidade com seu grupo de colegas do que ele jamais falou com seus amigos gays.

Gill tomava cuidado para se assegurar que as brincadeiras nunca saíssem do controle. Um de seus irmãos é gay e mudou-se para a Suíça em meados dos anos 90. Os dois não se veem há 16 anos, mesmo que ele aceite seu irmão como ele é. “Esta é a parte mais difícil disso tudo”.

Gill conta que o ajudou poder conversar com Andrew. Nenhum assunto era tabu. Eles falavam sobre tudo: família, vida, a guerra. Andrew disse a ele quão difícil podia ser para um gay viver nos EUA. Um dia no último outono, os dois estavam de guarda numa torre em uma estação policial em Kandahar quando a compreensão de Gill sobre o que Andrew havia dito ficou muito mais clara. Andrew estava lendo uma cópia da revista Time. Dentro havia um artigo sobre adolescentes gays que cometeram suicídio após terem sofrido bullying.

Andrew começou a chorar. “Aquilo foi mais do um choro triste. Era toda a emoção do passado dele vindo à tona de repente, em frente a seu colega de farda”. Os pais de Andrew dizem que ele lutou contra tendências suicidas por volta dos 20 anos. Mas em todas as vezes, o pensamento nas quatro pessoas que ele mais amava – sua mãe e seu pai, sua irmã Martha e seu irmão Peter – o impediam de tentar algo.

No Afeganistão, Andrew confidenciava-se com Gill. “Eu simplesmente confiei nele e tenho orgulho de ter servido ao lado dele ali mesmo, no campo de batalha”.

‘Um soldado bom pra caramba’

Era domingo, 27 de fevereiro.

Membros do 1º Esquadrão – 3º Pelotão estavam numa patrulha a pé numa região a oeste de Kandahar, acompanhados de membros da Polícia Nacional Afegã. Eles estavam em onze, e eram acostumados com a área. Andrew era o nono na linha quando cruzavam uma ponte em direção a um posto de fiscalização policial. Crianças correram. Um morteiro de 122-mm estava escondido ao longo da rota.

Às 11h48min, a bomba maior explodiu embaixo de Andrew. Três outros explosivos, encadeados juntos, falharam em explodir. Gill estava 20 metros à frente de seu companheiro de batalha. Ele teria morrido também se as outras bombas tivessem explodido. Ele correu em direção a Andrew. Um médico aproximou-se. Eles estavam ao lado dele em segundos.

Parecia uma terrível sessão de treinamento. Mas era tudo muito real. As pernas de Andrew haviam sido arrancadas, assim como sua mão esquerda. Ele havia sofrido ferimentos graves na cabeça.

Andrew foi o 66º cidadão de Minnesota a morrer enquanto servia em guerras no Afeganistão ou Iraque. A cerca de 13 mil quilômetros de distância, na casa de Wilfahrt em Rosemount, o mundo ruiu.

O primogênito deles, o bebê que levou 12 horas de trabalho para chegar.

O menino que, aos 6 anos, perguntou ao pai: “Você acha que há um tipo diferente de gravidade nas fronteiras do universo”?

O homem que disse a eles que amava tanto seus irmãos que esperava poder se tornar um militar pelo resto da vida.

Ele se foi.

Quatro meses depois da morte do filho, Jeff e Lori sentam-se naquela mesa da cozinha, o lugar em que Lori diz “muita coisa mudou”. Ambos dizem que o Exército tem sido bom com eles. Eles não sentem raiva, exceto quando Jeff diz “aqueles filhos d–p no Capitólio” que votarão contra o casamento gay.

Jeff coloca o laudo da autópsia de seu filho sobre a mesa. “Não higienize isso”, diz ele. O documento está dentro de um envelope de manilha com as seguintes palavras na parte de fora: “Aviso: as informações contidas no relatório anexo estão graficamente descritas para ter precisão completa acerca dos detalhes físicos dos restos mortais de Andrew C. Wilfahrt. É altamente recomendado que você o leia na presença de pessoas que possam lhe dar apoio emocional durante este período, como seu ministro [religioso], um amigo da família ou um conselheiro”.

Jeff e Lori leem o detalhado relatório de oito páginas sozinhos, ao próprio tempo deles.

Os ativistas antiguerra cujo filho uma vez participou dos protestos ao lado deles jamais imaginaram que se encontrariam nesta situação, vangloriando-se de um filho soldado. Mas eles enchem-se de orgulho, orgulho patriótico e orgulho gay.

Seco e franco, Jeff diz que seu filho não morreu defendendo a liberdade. Não use esta “porcaria” de jargão político perto dele. “Ele morreu pelos soldados que estavam à esquerda e à direta dele”, afirma. “E ele foi um soldado bom pra caramba”.

Pouco depois da morte de Andrew, Jeff escreveu uma carta aos colegas de seu filho. “Um filho gay vai levá-los a lugares de seus corações que vocês nem sabiam que existiam”, ele disse. “Independentemente de orientação sexual, eu imploro a todos vocês que estão se tornando pais agora, ou que o serão no futuro, que deem a seus filhos todo o amor que puderem reunir. Às vezes, parece que você está lutando contra um oceano, mas não parem de amar seus filhos”.

Cinzas sobre a mesa da cozinha

Os soldados da 552ª Cia. estão preparando-se para voltar para casa após um ano em campo. Eles deixarão para trás o Posto de Combate Wilfahrt. “Nós nunca nos esqueceremos dele, estamos honrados de termos servido com uma pessoa tão notável”, disse o chefe do Pelotão 1º Tenente Brandon LaMar numa carta informando à família do nome dado ao posto de combate.

A carta chegou em 7 de maio, dia em que seria o 32º aniversário de Andrew. Inclusos no pacote estavam braceletes em honra a ele. Os Wilfahrts usam-nos todos os dias. A casa deles tornou-se um santuário.

Algumas das cinzas de Andrew estão num vaso marrom perto da mesa da família. Sua fotografia está colada do lado externo. Próximos estão dois teddy bears [ursinhos de pelúcia], um bem maltrapilho da infância dele, outro dado à família em memória de Andrew.

O maior arrependimento de Jeff é não ter abraçado seu filho quando ele lhe disse que era gay. “É assim que é para um velho tolo de um homem. Aquele momento é o fardo que carrego”.

Jeff acorda no meio da noite. Às vezes, ele vagueia pela casa. Ele vai ao Google Earth para procurar pelo exato local onde Andrew morreu. Lori chorar com frequência quando vai dormir. Ela se pergunta se algum dia encontrará a felicidade que uma vez teve. Eles tentam manter o foco. “Andrew tinha coragem. Ele tinha raça”, Lory afirma. “Então eu tenho que ter raça também. E talvez isso dê à morte dele algum significado ou propósito, que ele não morreu por nada”.

Os Wilfahrts falam a grupos de veteranos, grupos LGBT, clubes de leitura. A mensagem: nosso filho foi um herói americano, não alguém que deve ser temido porque era gay.

Num armário do exército na biblioteca da família estão as seis medalhas de Andrew, incluindo a Bronze Star e a Purple Heart. Elas dividem espaço com um relatório escolar de quando ele tinha 10 anos. “Estas pessoas são importantes para mim: cada boa pessoa, amigos, etc.”, o garoto escreveu. “A coisa pela qual sou mais agradecido é pela minha família”.

Um sofá do outro lado da sala está repleto de CDs, jornais e cadernos de música Moleskine que ele carregava consigo no Afeganistão. No interior, estão suas composições musicais rabiscadas. Num caderno encadernado em couro, Andrew anotou suas citações favoritas.

“Fale pela sua mente, mesmo que sua voz falhe”.

“A caverna que você teme entrar guarda o tesouro que você deseja”.

“Muitas vezes não escutamos o surdo e não enxergamos o cego”.

“Nos tornamos aquilo que desejamos”.

Seu amigo, Gill, diz que o homem de que ele sempre vai se lembrar é um grande herói americano. “Andrew tornou-se a pessoa que ele sempre quis ser”. Ele estava a apenas dois dias de retornar da guerra quando morreu. “Com sorte, estarei em casa tão logo seja 6 de março”, ele escreveu na última linha que redigiu a seu pai.

Ao invés de cumprimentar seu filho com abraços no dia 6, a mãe e o pai de Andrew sepultaram seu filho. Seu lugar de descanso final está entre milhares de outros no Cemitério Nacional Fort Snelling, um lugar ao qual Jeff e Lori agora vêm para a solidão.

Um amante da literatura, Jeff sempre carrega consigo uma coleção de William Wordsworth. Ele mexe as páginas até chegar à “Admoestação e Resposta”. Ele senta-se na pedra de mármore em homenagem a seu filho e lê em voz alta. Lori senta-se no chão ao redor dele.

Ele chega à última estrofe e engasga:

Então não pergunte por que razão, aqui, sozinho,

Conversando como eu posso,

Sento-me sobre esta velha pedra cinzenta,

E imagino meu tempo distante…

Jeff levanta-se rapidamente, tocando a pedra com sua mão, como se pudesse alcançar seu filho amado por além do túmulo. Ele treme e chora: “Eu nunca consigo chegar até o fim do último parágrafo”, ele diz. “Que diabos há comigo”?

Lori levanta-se também. Os dois olham fixamente para a lápide. Com lágrimas ainda escorrendo de sua face, Jeff diz, “São apenas esses preconceituosos”. Ele murmura novamente, “apenas estes preconceituosos”.

Eles querem que as pessoas saibam que seu filho não era um “soldado gay”. Ele foi um grande soldado que por acaso era gay. Sobretudo, ele era um cidadão.

Um homem extraordinário, lê-se em seu epitáfio.

  1. emocionantes

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