Arquivo mensal: maio 2007

"A vida é mocinho e vilão…"


Estou (ainda agora) pensando como começar esta postagem. Não por uma dúvida crucial, ou por ausência de idéias. Justamente pela abundância delas, mas entrelaçadas sob um eixo comum que brotou(-se) nestes dois últimos dias: a vida. Não como ela é bela ou triste, cansativa ou deslumbrante – nada de maniqueísmos ou valorações extremas. Mas sim como ela é singular a nós humanos.
Certo dia meu professor de Sociologia perguntava o que nos diferencia das outras espécies. Houve muitos comentários, sobre os mais diversos aspectos possíveis. Disse ele então que era sabermos de nossa morte. Não aquele saber que antecede o fim biológico de todos nós, mas aquele consciencioso saber, desde-breve-sempre, de que estamos vivendo os dias para nos aproximarmos da morte. Mas e aí? Bom, esse parece ser o grande incômodo do ser humano: saber, sentir, entender, ser cônscio e pragmático sobre a vida e seu término. Sabemos que estamos aqui para depois (quando?) não estarmos mais. E por sermos uma vastidão de pensamentos-sensações é que reagimos de modos tão diversos à morte. Ela pode ser lenta, sofrida, aliviação àquele que padece; pode ser imprevisível e inaceitável. Mas se impõe, mesmo que brutal a nossos sentimentos.
Nesta quinta-feira, dia vinte e quatro, uma amiga perdeu o pai. E eu, como escrevo agora, fiquei indagando-me sobre como lidamos com isso. Quem perde, quem sofre junto, quem consola, quem sabe que consolo algum surte efeito. Se a dor existe, soberana por si, ela (assim como o falecer) impõe-se: então é para ser sofrida. Ela precisa ser sentida, precisa sair e mesmo machucar, pois só desta exasperação podem (talvez) brotar novos sentimentos. Podem tomar seus lugares novamente o querer viver e o ser feliz. É a singularidade da vida dentro da humanidade que a faz tão sofrida quando encontra seu fim (justo, injusto, errôneo, precipitado…).
Antes que me torne (mais) verborrágico, findo dizendo o que posso, ou me permito dizer, a esta minha amiga: deixe esta mesma soberana, que decide o crepúsculo e o poente da vida, guiar este promíscuo momento. É de tristeza, de angústia, de choro, de indignação. De ausência de norte, de ajuda mútua, de erguer-se, de fraquejar e de reerguer-se. É de tudo isto. E àqueles que consolam (estou eu a fazer o que aqui?) cabe o persistente consolar. Não adianta: não. Mas vai-se tentando, até que outro soberano – o tempo – atua, paulatino, e engana a ambos: quem sofre e quem consola. E assim devem ser os amigos: persistentes e figurantes, enquanto vida e tempo atuam, protagonistas do começo ao fim. Do começo… E do fim!
Pode contar comigo.
Seja mesmo para não dizer nada e
dar o tempo que ele mesmo pede para os sentimentos.

Beijos, Alana.
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