Arquivo mensal: agosto 2007

Tributo à Insignificância


Reapareci. Foram exatos três meses de ausência, de nenhum texto novo. Por isto, resolvi falar da insignificância. Afinal, eu crio um blog e deixo de postar nele por mais de noventas dias – ele não deve ter significância alguma mesmo.

Na verdade, a motivação para falar sobre a arte (!) de não significar nada foi uma velha comunidade que a Luana e eu criamos há mais de nove meses (claro que ela também está sem receber nenhuma postagem). A Luana é uma grande amiga (neste ponto preciso contrastar com o tema, pois ela é muito significativa para mim) que se aventura junto comigo pelas mais variadas bobagens filosóficas. Foi assim que criamos a comunidade Insignificantes – Santa Maria, em referência a nossa cidade.

O perfil da comunidade é um tributo aos seres humanos reles e insignificantes:

Se você não faz nada da vida…
Não tem utilidade alguma
Não se presta pra ser alguém
Não toma um rumo definido
Não avança (nem retrocede)
Não tem futuro certo
Sente-se um vagabundo
Um completo inútil para a sociedade
Um pedaço de gente superpopulando o planeta

Então…
Você é um ser insignificante!!!
Junte-se aos seus semelhantes e venha festejar conosco sua insignificância existencial.

Não sei precisar por qual motivo, exatamente, nós criamos a comunidade. Estou pleno de certeza que não nos consideramos tão insignificantes assim. Mas a reflexão vale a pena: qual a significância de nossas atitudes? Os mais filosóficos certamente já pensariam que esta premissa não é o ponto inicial – seria, na verdade, questionar se precisamos ter significância. Concordo, mas vou admitir que sim e partir deste ponto em diante.

Há dias nos quais se acorda e as formiguinhas trabalhando na calçada são mais relevantes do que nós. Claro que as formigas têm sua incomensurável (quero dizer que não há como medir mesmo) validade para aquilo que elas representam e fazem. Mas como somos educados a sermos os entes mais importantes do planeta, é mais trash ainda quando nos sentimentos mais inúteis que elas. Já em outros dias, nos sentimos meio Luther King, meio Einstein. Tudo que fazemos tem um inestimável significado – pessoal e social.

São estes dois fatos que desnudam quão complexos são os processos que regem o ser humano. Há um conjunto de fatores que nos faz um dia fezes, outro ouro. O trabalho na faculdade sai perfeito, você está ajudando a comunidade em alguma atividade, alguém esta interessado em você, o dia foi cheio de resultados positivos. A inutilidade não teve vez. Na manhã seguinte, o ônibus não esperou você terminar o cooper forçado e partiu, desenhando na fumaça da combustão do diesel que você é irrelevante; o professor da faculdade disse que o trabalho estava “bom até” – enquanto enviava uma mensagem pelo celular e tirava cera do ouvido. Você encolhe, fica menor do que as 15 letras de i-n-s-i-g-n-i-f-i-c-â-n-c-i-a; chega na sua casa e só notam sua presença meia hora depois, quando o almoço está na mesa e sua presença é obrigatoriamente notada. Foi o seu dia de criatura reles, inútil, sem relevância alguma.

E no outro dia, tudo muda. Como? Não faço a mínima idéia. Porém, toda essa questão de notável relevância – !!! – não prescinde de um ponto interessante: o referencial. As formigas e suas atividades matutinas são significativas sob que ponto de vista? Neste bojo é que a significância de nossas atitudes (a pergunta do começo do texto) toma forma, mas fica menos tangível: a quem o que fazemos é útil e significativo? Sob quais parâmetros somos significativos? Talvez seja tudo uma questão de se cobrar menos (ou mais). Ou de olhar as coisas de um modo diferente; olhar e ultrapassar o aparente, e enxergar algo nada reles no que parece ser inútil. Quer uma ajuda? Está aqui:

“Lembre-se de alguma coisa inútil e provavelmente será isso que estarei fazendo. Ouça Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas. A música – acrescentou detendo-se ao ouvir os sons de um piano num exercício ingênuo. Este céu que nem promete chuva – prosseguiu atirando a cabeça para trás. Aquela estrelinha que está nascendo ali… está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os Reis Magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos… Não faz nada. Apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a Beleza. No inútil também está Deus.”

Este é um trecho de Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles. Vi-o um pouco diferente no perfil do Orkut da querida Elenita, dona da comunidade Homofobia – Já Era, e procurei esta versão mais completa.

Então, depois de noventa dias sem escrever nada, vim e falei sobre a insignificância e a inutilidade, mas fui contradito e arrematado pelo maravilho excerto do livro de Lygia F. Telles. Até porque hoje é meu aniversário, não posso sentir-me tão inútil (hoje)…

Abraços.

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