Arquivo mensal: setembro 2007

Eu queria decretar o fim da mágoa…


Revirar a vida é provar de momentos diversos. Bons e ruins. É reviver alguns tão bons e intensos, mas também saudosos e nostálgicos. É reexperimentar também momentos ruins, tão densos e entristecedores.

Há alguns dias revirei não cartas, pensamentos ou fotos amarelecidas, mas e-mails. Os sentimentos também estão (são…) digitais. Foi revendo e relendo alguns e-mails do passado, não muito distante, que provei de momentos tristes da minha vida. O sentimento agora estava atrelado a uma reflexão mais madura; e talvez eu o sentisse de forma mais madura também. Ao certo não sei, mas foi diferente, porém não menos triste.

Quando sofro, eu me permito. Eu me suporto. Eu deixo a dor vir, fazer seu estrago e começo a reconstruir sensações, convicções, vontades. Mas causar o sofrimento é sempre muito pior. Sempre muito mais dilacerante para mim. A mágoa causada é tão danosa ao bem estar, à consciência, até mesmo a certa idéia de fibra moral e ética. Não importa se houve equívocos, erros de comunicação, múltiplas interpretações – intenções, resultados… Os delicados fios que criam as boas sensações, o apreço, o bem querer, a paixão, o desejo… eles rompem facilmente.

Foi nos meses finais de 2005 que vivi este momento tão rico e díspar. O sentimento digitalizado consegue transpor a fibra ótica, os fios de cobre, as toneladas de material quente, mas insensível, os bilhões de centímetros de distância. Perpassa tudo e se materializa, ainda que abstrato, como sentimento real – vívido, pulsante, motivado. O relato – este – sem detalhes mais precisos, sem nomes ou rostos, sem RG ou localidade, dá conta (porque é este seu fim) somente do contar; e de passar estas sensações a quem lê.

O contato foi longo, diário e intensivo. Foi enriquecedor e detalhista. Mas materialmente distante. A comunicação [(communicare) – o destino prega suas peças e estamos na mesma área] era próxima, íntima, quase que real. Mas os corpos, os olhares, os dizeres e seus sons, todos muito distantes.

The Dreamer, 1996 – Steve Walker

Da proximidade digital, da intimidade virtual, fui (fomos) para a mágoa. Não caberiam aqui elucubrações defensivas ou justificações. Eu errei – por mais que não quisesse, por mais que não tivesse visto (eu estava sentindo, não analisando) os muitos rumos possíveis e não desejáveis; daí as múltiplas interpretações e intenções que disse antes. Erro, erros, silêncio, fim, finais. Assim, entrei para o rol dos algozes. Opróbrio merecido ou não (exagero semântico-real e léxico?), “a mágoa causada é tão danosa ao bem estar, à consciência, até mesmo a certa idéia de fibra moral e ética”. E já estava feito, causado, machucado.

A tal maturidade é apenas reflexiva, analítica, neurológica. Nunca (nunca?) do impalpável do coração. Das lágrimas e da constrição física. O registro que faço – julguei importante fazê-lo – encerra a vontade de escrever com a vontade-necessidade de externar estas bi-temporais sensações (do passado e do agora). Alguns poucos anos se passaram e revivendo estes sentimentos e esta culpa, esta dor e esta mágoa unilateral, eu sinto que só me restam (e me devo) as desculpas. Pelo que não quis, mas pelo que “certamente” fiz. Pelas boas intenções (do inferno?), mas pelo triste resultado. Pelas vontades sinceras, de muitas vísceras e poucos neurônios, mas pelo retrato final mal pincelado.

Na impossibilidade de mudar a água que passou, peço que as mágoas que causei sejam menos dolorosas (não ao coração, mas à mente, que constrói monstros a partir da tristeza) e que sejam, quiçá, perdoadas.

Eu queria, no fundo, o decreto do Leminsk…

Bem no Fundo

No fundo, no fundo,

bem lá no fundo,

a gente gostaria

de ver nossos problemas

resolvidos por decreto

a partir desta data,

aquela mágoa sem remédio

é considerada nula

e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,

maldito seja que olhas pra trás,

lá pra trás não há nada,

e nada mais

mas problemas não se resolvem,

problemas têm família grande,

e aos domingos saem todos a passear

o problema, sua senhora

e outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminsk

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