Filho macho, por favor.


Como anunciado ontem (na verdade, já era hoje), trago para discussão a polêmica do momento que envolve a cantora Claudia Leitte. Antes, já aviso que o post sobre o Irã fica para amanhã, já que só esse sobre a cantora baiana vai render bastante.

Para quem, como eu, mal sabe quem é Claudia Leitte, algumas informações breves: ela comandou por seis anos a banda Babado Novo, lançando-se em carreria solo depois. O gênero que ela canta é o popular axé music, passando pelo pop – também com incursões pelo pop-reggae-rock em shows diversos. Uma constante no site dela e em suas falas é a palavra fé, o que denota sua creça em Deus e na religião que professa (não apurei, mas me parece que ela é evangélica). Fato importante: ela está grávida. Pronto, dados gerais sobre a cantora.

Reprodução
E a polêmica? Foi no dia 12 de novembro, quarta-feira passada. A cantora foi entrevistada para o TV Fama (da RedeTV!), assim como seu marido, Márcio Pedreira. A repórter é a drag queen/performer Léo Aquilla. Em certo momento, a cantora foi questionada caso seu filho fosse homossexual (afinal, o primogênito dela nasce em 2009). E a resposta da Claudia Leitte foi, segundo noticiou-se: “Eu adoro os gays, mas prefiro que meu filho seja macho”. Voltaremos à frase e sua veracidade mais adiante, mas agora nos deteremos às repercussões gerais do fato na web.

No site do Terra, saiu a manchete Gays querem boicotar Claudia Leitte por declaração polêmica. O texto é bem simples, citando as falas da cantora e do marido (comento adiante), as opiniões de dois ativistas do movimento GLBT brasileiro e a resposta da cantora à polêmica. Já no site do Ig, na seção Babado, a notícia é Cláudia Leitte diz que prefere que filho seja ‘macho’ e irrita fãs gays. O texto é quase idêntico ao do site do Terra. E assim acontece com diversas outras notícias sobre o caso e sua repercussão, como no site de OFuxico e Ego, da globo.com.

Na blogosfera, destaquei três epaços para colocar aqui. Num deles, o texto é tão longo, verborrágico e confuso que eu não tenho condições de emitir opinião. Achei uma viagem o texto do blog do Manno (do Jammil e Uma Noites), chamado Minoriafobia, principalmente, por ele misturar negros, fumantes, maconha, gays e gosto musical sem qualquer foco. Em síntese, ele diz que a minoria anda muito chata e preconceituosa. Isso renderia uma bela discussão, mas daí o post ficaria maior do que já ficará.

Já o blog No Ghetto (entenda-se: não ao gueto) dá uma detonada básica na cantora e na sua declaração. O texto é interessante porque é um dos poucos que se prestou a analisar profundamente o que o discurso transmite como um todo, e não só a idéia isolada. Por outro lado, no site BahiaNoticias o texto que está na seção Holofote defende a cantora e minimiza a polêmica. O texto Claudia Leitte: muito brarulho por quase nada! é assinado por Rafael Albuquerque e tem tantas incorreções conceituais que não vale a pena comentar totalmente. Destaco um trecho que comentarei adiante:

Mesmo porque uma decisão dessa não depende de fatores biológicos e nem da decisão de fulano ou beltrano, mas de uma série de fatores psicossociais que influenciam a pessoa durante seu desenvolvimento, e que com algum tempo pode fazer com que a decisão de ter uma orientação sexual masculina ou feminina seja aflorada definitivamente”.

Por fim, a cantora não teve como fugir da raia e fez um texto ‘próprio’ no blog dela. Coloquei entre aspas a palavra próprio porque, sinceramente, não acredito que tenha sido escrito exclusivamente por ela. Sinto dedo de assesor ali, afora o título que, de cara, nos lembra a obra de José Saramago (Ensaio sobre a cegueira). Assim, o texto Ensaio sobre o oportunismo mistura ironia com uma espécie de autenticidade pretendia pelo texto. Como eu não estou do lado dela, o texto não me convenceu.

Luiz Henrique

Esclarecidas as questões gerais, vamos a minha opinião. Antes disso, é preciso saber o que de fato aconteceu. Um fã da cantora colocou no Youtube o vídeo da entrevista que Léo Aquilla fez à Claudia Leitte e seu marido. O vídeo está logo abaixo (assista antes de continuar a ler se preferir) e quem primeiro é entrevistado pela drag é o marido da cantora, Márcio Pedreira. O diálogo transcrito:

– “E aí, a expectativa pro bebê?” (Léo Aquilla)
– “Tá grande.” (Márcio Pedreira)
– “É o Davi?” (L.A.)
– “Davi, vem aí com muita força e muito axé, [risos]” (M.P.)
“É… se for gay?” (L.A.)
– “De jeito nenhum.” (M.P.)
– “Ué, mas tudo pode acontecer gente!” (L.A.)
– “Não há a possibilidade de ser gay…” (M.P.)
– “Não há né… Você vai cuidar bem?” (L.A.)
“Só tem homem na família.” (M.P)
[continua]

De imediato, minhas impressões genéricas são: o ambiente era descontraído, bem como a entrevista. As respostas do marido da cantora não são, diretamente, um ataque homofóbico. Mas são, sim, a perpetuação senso comum de certos entendimentos acerca da sexualidade humana. No caso específico, ele afirma que só tem homem na família. E daí? Bom, ele quis, evidentemente, dizer que só há (não acredito, mas enfim…) heterossexuais na família. Entretanto, a palavra correspondente, no imaginário popular, para heterossexualidade é homem. Para gay ou homossexual deve ser outra, mesmo que seja do sexo masculino.

Rain (1995), de Steve Walker

Isso, de maneira geral, desperta discussão nos círculos que estão habituados a lidar com essa temática e os diversos conceitos que a cercam. Não é o caso do marido da cantora, nem do comentarista daquele site baiano. No comentários que saiu no site BahiaNoticias, que selecionei acima, temos a idéia de que a orientação sexual é uma decisão (quando ela não é), e, muito pior, de que existiria uma orientação sexual masculina ou feminina (!!!). Existe homossexualidade, bissexualidade e heterossexualidade, para ficarmos no consensual. O resto não é orientação sexual, são conceitos de outra esfera. Como comentar sem qualquer conhecimento do tema?

Bom, agora a conversa da Léo Aquilla com a cantora no camarim. Transcrição, novamente:

– “Você tem muito público gay?” (L.A.)
– “Eu tenho público de todos os tipos, assim, todas as idades. E pra mim, o que vier, feliz, é lucro.” (Claudia Leitte)
“E se seu filho for gay, tudo bem?” (L.A.)
“Se meu filho for gay tudo bem? Oh, na verdade, eu tenho o maior respeito pelo público gay que eu tenho, e pelos homossexuais, de um modo geral, mas eu gostaria que meu filho fosse macho.” (C.L.)
– “Por que razão?” (L.A.)
– “Por que, por exemplo, se Ivete tiver uma filha, eu quero que ele pegue ela.”
[continua]

Novamente, cabe ressaltar que o clima da entrevista era descontraído. A resposta da cantora, idem. Observo, também, que ela não deu uma resposta, objetivamente, homofóbica. Contudo, segue o mesmo tipo de análise que empreendi ao comentário de seu marido: a dicotomia entre as idéias de homossexualidade e macheza. Ela perpetua a noção de que “macho” é oposto a homossexual. Noção socialmente consolidada e, infelizmente, disceminada pelos mais diversos setores da sociedade brasileira, incluso alguns artistas.

O vídeo da entrevista:

Com a polêmica instaurada, a resposta que Claudia Leitte pôs em seu blog só piorou a questão dentro desse prisma de análise do discurso considerando que eu (a exemplo de boa parte dos que estudam seriamente sexualidade) não estou preocupado somente com a intenção ou o ambiente, mas com os sentidos manifestos pelas idéias. Um exemplo disso está no ensaio da cantora no blog: “Além disso, se muitos homossexuais ainda se dividem quanto a homossexualidade ser uma alteração genética ou de fato uma opção sexual, por que eu deveria afirmar no meio de uma brincadeira que gostaria que meu filho fosse gay?”.

Desconhecido

Ora, alteração genética ou opção? Se isso fosse argumento, estaríamos perdidos. Com bom humor, a imagem acima, de uma passeata nos EUA, responde sobre a “opção” pela homossexualidade. Infelizmente, é prática recorrente pouquíssimas pessoas saberem sobre o assunto e quererem comentá-lo. Outro dia, descobri um universo imenso sobre as deficiências e as necessidades educacionais especiais. É outro exemplo interessante do que estudar antes de opinar. Quando isso é posto no contexto midiático de que cantores são pessoas públicas, é tudo muito mais amplificado. Portanto, exige muito mais cuidado.

Enfim, considerando ainda mais um outro argumento dela sobre o preconceito que a criança irá sofrer (essa é uma verdade límpida), resolvi fazer uma enquete (no blog e na vida real). Afinal, você gostaria de ter um filho gay? Depois dos resultados, eu vou escrever sobre essa temática interessante que são os desejos e o preconceito.

O vídeo abaixo (sobre adoção homoparental) é uma boa sátira sobre assumir a heterossexualidade (ãhn? isso mesmo, veja aí). Ele está em inglês, mas acredito que facilmente compreensível.

Aproveite e não fuja (vote na enquete ao lado):

Você gostaria de ter um filho gay?

Ah, e se você discorda da minha breve análise (o texto está longo, mas a análise em si é pequena), comente aí.
Até amanhã.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 16 de novembro de 2008, em Sem categoria e marcado como . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. acho que tu abordou muito bem a questão. Este tipo de declaração representa mais senso comum e desinformação do que uma posição convicta e, possivelmente, homofóbica sobre a questão. Por essas e outras que acho que celebridades deveriam opinar apenas sobre o seu campo de atuação.Parabéns pelo blog e pela aplicação no estudo para escrever os posts!AbraçosWillian Araújohttp://www.opiniaoposta.blogspot.com

  2. Discordo do William alí, que diz que celebridades devem opinar somente sobre seu campo de atuação, mesmo porque eles foram perguntados, não saíram declarando isso por aí. Além do mais, sendo assim, apenas gays deveriam opinar sobre homossexualidade? Acho que não, hein… Alguém no cerne do assunto certamente tem mais conhecimento de causa. No entanto, se as pessoas não se expressarem nunca poderemos apontar seus erros e fazê-las mudar de idéia. O preconceito enrustido é a pior forma de preconceito. De nada adianta alguém que ‘não tem nada contra os gays’, mas que na verdade diz isso para ser politicamente correto e continua fazendo comentários preconceituosos por debaixo dos panos. São esses comentários na mesa do jantar que propagam a homofobia e outras formas de preconceito, não as ações mais radicais e violentas.A piadinha da Cláudia Leite foi bem infame, no entanto. Espero que ambas tenham filhos do mesmo sexo, ela e Ivete, e que eles se peguem do mesmo jeito. XD Seria deveras irônico. Qual a diferença, afinal?Não sei porque, mas achei o comentário do marido dela muito mais terrível que o dela. A impossibilidade de eles terem um filho gay por só ter ‘homem’ na família… eu acho que eles não teriam filhos se só houvessem homens na família! XDRealmente concordo que muitas vezes essas declarações são mais senso comum que qualquer outra coisa, mas ainda assim não têm nada de aceitáveis.E se o texto do blog dela tem dedo do assessor… bem, que péssimo assessor! Escrever bobagens daquele jeito, só piorou a situação dela frente os homossexuais.Tá, já falei demais. Se agora que tens vida, ó Deus, pretendes continuar atualizando o bloguinho, penso numa parceira entre o Queer and Politics e a Gangue… tenho que confirmar com o Thomás, mas acredito que todos concordarão.Beijos ao divino.

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