Volume dois: Claudia Leitte returns


Apenas um update básico: o texto sobre a Claudia Leitte e seu marido, ambos homofóbicos sem convicção pública, despertou mais comentários do que eu esperava. Calma, não riam, não estou falando somente dos dois comentários (que já comento!) no blog, mas de pessoas que me abordaram pessoalmente para falar sobre o post. Fico muito feliz pela repercussão. A bem da verdade, eu esperava alguma discordância, tipo Luiz, ela só deu a opinião dela. Alguém precisa querer ter filho gay? Mas tudo bem, na próxima a discórdia pode acontecer (né?!). Em tempo, campanha do Ministério das Oportunidades da Itália em outubro de 2007 aqui embaixo: gerou uma polêmica que só (noutra oportunidade, veremos sobre publicidade GLBT).

Well, fato é que quero agradecer os comentários do Willian e da Paolla (respectivas divulgações feitas, hein!) por terem, além de simplesmente dito algo sobre mim, comentado realmente sobre a temática expressa. Inclusive, um divergindo do outro. Prefiro, no momento, esperar a polêmica ficar estatisticamente mais densa (a enquete é ali do lado, viu!) para retomar o assunto. Mas, bem en passant: acho que tanto a idéia de que os artistas precisam controlar seu rol de opiniões para que não versem acerca daquilo que não dominam, quanto a de que se questionados, eles devem opinar livremente, são reais e válidas. A segunda, inclusive, permite o desnudar de certos preconceitos não-sabidos (como observou a Paolla). Bom, isso retomaremos mais futuramente, quando a Claudinha descobrir que o filho dela é gay (desculpem, não resisti à brincadeira, é que faltou espaço ontem!). Falando em celebrities and homophoby…

Bom, eu já estava há umas três horas escrevendo sobre o tema de hoje (o Irã e um caso emblemático que ocorrera em 2005). Mas agora há pouco soube de uma carta (através de um conhecido que é jornalista e a recebeu) de um ativista brasileiro encaminhada à cantora Claudia Leitte. Sim, o assunto não terminou. Mas entendam o porquê disso: a carta de Toni Reis é absolutamente imprescindível para todos àqueles que são homossexuais mas, principalmente, têm amigos ou parentes homossexuais. A lição que ele encerra é tão valiosa que acho muito mais profícuo continuar nesse tema do que ir lá para a Ásia falar do Irã.

Confiram:

Carta Aberta à Claudia Leitte

Claudia Leite, sou Toni Reis, 44 anos, paranaense, moro em Curitiba. Sou Gay, sou casado com meu marido David Harrad há 18 anos e sou muito feliz e realizado como profissional e pessoa. Atualmente, sou presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) que é uma entidade nacional que congrega 203 organizações afins, o que reflete parte da minha trajetória, mas neste momento, quero fazer um depoimento pessoal.

Claudia Leitte, gostaria de dizer que amo você pelo talento com que você se expressa. Seu repertório, sua alegria de viver que passa para mim. Sou seu fã de carteirinha. Simplesmente adoro você e ademais você é linda.

Com relação à sua entrevista sobre a nossa questão na qual você disse “Eu adoro os gays, mas prefiro que meu filho seja macho” e seu marido Márcio Pedreira, completou. “Deus me livre (do filho ser gay). Ele será bem criado”.

Quero dizer que fiquei muito decepcionado com a noção errônea de que é a criação que faz com que alguém seja gay, ou não.

Tudo isso me fez lembrar o que aconteceu comigo quando, aos meus 14 anos, falei para minha mãe: “Mãe, sou gay.”

Quando falei para minha mãe e minha família, todos e todas ficaram chocados e tentaram durante seis anos da minha vida (o que foi um inferno na terra) me “curar” de todas as maneiras. Levaram-me para a Policlínica da cidade de Pato Branco e pediram para ser examinado por um médico, achando que eu tinha um problema médico. Mas o médico falou que eu não tinha um problema de saúde, e que homossexualidade não é doença, e me encaminhou para uma psicóloga. Ela também me falou que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão. Na verdade, ela estava bem à frente do seu tempo, visto que só foi em 1999 que o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução que entre outras determinações, estabelece: “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”

Mas, não contente, minha família Católica, que bem me criou, pediu para eu falar com o falecido padre da nossa cidade de Quedas do Iguaçu , e o mesmo pediu para eu me afastar do Encontro Vocacional e da Santa Comunhão, até que eu me curasse do “pecado nefando”.

Pediu que fizesse uma novena para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que eu me curaria, mas se eu tivesse uma recaída, era para voltar ao primeiro dia. Tive várias recaídas, afinal a orientação sexual de um pessoa não é escolha e tampouco opção. Eu simplesmente era gay. Tive que voltar várias vezes ao primeiro dia da novena, que já tinha virado uma quarentena.

Não contentes, minha família e meus amigos me levaram para a igreja da Assembléia de Deus para receber benção. Mas não deu certo. Levaram-me para um centro espírita e o pai de santo me falou que tinha a pomba-gira. Fizemos “os trabalhos”, mas não deu certo. Fizeram de tudo para me “curar”.

Por último, tomei xaropes com amendoim e tudo mais para que fosse “macho”, mas não deu certo. Como meu irmão disse depois, sou macho por ter assumido logo cedo o que era. Aos 20 anos, me deram a derradeira última possibilidade: era tomar leite de colostro de égua para me curar. Felizmente, não deu certo.

Hoje estou aqui, bem criado, como especialista, mestre e doutorando, e feliz e realizado com meu marido. Minha mãe, depois de tudo que aconteceu na minha adolescência, em 1996, se propôs a casar com meu marido (que é estrangeiro) para que ele pudesse ficar no Brasil, comigo.

De total fundamentalista, minha mãe se tornou uma grande competente cultural. Acredito na mudança de pensamento das pessoas. Falei um pouco de mim.

Quero que entendam, Cláudia e Márcio, que a homossexualidade não é tão simples que se possa dizer “eu quero que meu filho seja macho ou fêmea.” Não é uma questão de educação. Não é uma questão de religião, mas sim uma questão de ser. E como dizia Aristóteles, a finalidade da vida é ser feliz.

A partir da minha experiência e algumas leituras, nestes 25 anos de minha militância na comunidade LGBT, sempre quando acontece qualquer depoimento ou ação contrários aos homossexuais, procuro classificar em oito etapas da competência cultural de cada um, que é uma escala, da mais homofóbica à situação ideal que queria.

1) A situação mais homofóbica é a nazista, que mata o outro por ser diferente. No Brasil temos muitos casos. Segundo o Grupo Gay da Bahia, são 2.800 casos de assassinatos. Hoje no mundo, ainda há sete países onde há pena de morte para os homossexuais.

2) Depois, vêm os fanáticos, que morrem por sua causa. Hoje no mundo, há 83 países que criminalizam a homossexualidade.

3) Depois, há o fundamentalista que fala que como está escrito na Bíblia (ou outro livro sagrado) que somos pecadores, mereceremos ser curados. No Brasil, os fundamentalistas são nossos piores adversários para a aprovação das leis que protegeriam nossos direitos. São estes religiosos fundamentalistas, que no nome do deus deles, nos discriminam, incentivam a violência e fazem oposição aos nossos direitos.

4) Depois, os preconceituosos que não entendem nada da homossexualidade ou têm informações distorcidas, se utilizando de estereótipos e falando mal da nossa comunidade e contra nossos direitos.

5) Depois vêm os tolerantes que não nos aceitam, mas convivem, no intuito de nos mudarem, se pudessem.

6) Em seguida, há as pessoas que nos respeitam. Não chegam a nos aceitar, mas respeitam nossos direitos e nossa forma de ser.

7) E depois as pessoas que nos aceitam como seres humanos e como cidadãs e cidadãos.

8) E por final, há as pessoas que são competentes culturais. São as pessoas que não discutem a nossa situação, simplesmente convivem. Afinal, o fundamental é viver.

Cláudia, nessa escala, acho que você está entre uma pessoa tolerante e uma pessoa que nos respeita. O que você acha?

Claudia Leitte, gostaria muito que você se pronunciasse a favor do Projeto de Lei da Câmara nº 122/2006, que criminaliza a Homofobia e a iguala ao racismo.

Claudia e Márcio, quero que seu filho ou sua filha seja muito feliz, que tenha muita saúde, independente da orientação sexual ou identidade de gênero. Se tiver seu talento, será maravilhoso(a). Ou não.

Toni Reis

Não admiro a Claudia Leitte nem seu trabalho como o Toni Reis. Mas acredito que a carta dele, não só por seu depoimento pessoal (que retrata, creiam, boa parte, mas não tudo, pelo que passam milhares de jovens brasileiros), mas pela tônica da abordagem, seja uma boa forma de dialogar com a cantora e produzir um debate adequado sobre a homofobia.

E com tanta coisa pipocando aí, fiquei alucinado: tenho que falar do Irã, do PLC 122/2006 (é um projeto que já discuti tanto por aí, mas ainda rende!), da sopa de letrinhas GLBTxyz, do Conselho Federal de Psicologia e outros aspectos científicos ligados à sexualidade humana… Enfim, temos tanto assunto que eu preciso fazer um caderninho de pautas. Mas, aos poucos, vamos dando conta.

Só para brincar: depois do relato do Toni Reis, a enquete fica até engraçada. Não importa se você gostaria de ter um filho gay: caso simplesmente tenha um filho, o “risco” (de sele ser gay) é iminente (haha!). Para evitar riscos quaisquer, não os tenha. A propósito:

Até amanhã então.
Abraços.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 17 de novembro de 2008, em Sem categoria e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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