Aids: várias epidemias…


Amanhã é dia 1º de dezembro de 2008. Há exatos 21 anos essa data foi oficializada pela Assembélia Mundial da Saúde, com apoio da ONU, como o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS (World AIDS Day). No Brasil, há 20 anos um decreto do Ministério da Saúde também instituiu a data em âmbito nacional. Nestas últimas duas décadas a AIDS se tornou mais ‘famosa’ do que qualquer personagem histórico ou mitológico da nossa civilização – ao menos a Ocidental.

A história do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana – no original: Human Immunodeficiency Virus) guarda muitas controvérias. Alguns pesquisadores afirmam que ele surge ainda no século XIX. De um modo geral, acredita-se que ele tenha sido transmitido de alguns primatas para os humanos entre 1930 e 1960. Sua origem espacial também é controversa, sendo mais aceita a hipótese de que tenha surgido em Camarões (o primeiro caso oficialmente registrado teria sido na República Democrática do Congo), eclodido depois no Haiti (eventos migratórios seriam a explicação) e então, finalmente, nos Estados Unidos, país em que são considerados internacionalmente os primeiros registros do vírus.

Em 1981, a doença é identificada na Califórnia e em Nova Iorque. Os primeiros casos registrados são entre homens homossexuais e, em seguida, usuários de drogas. A epidemia começa a crescer, principalmente entre a população gay (do ponto de vista científico, o sexo anal facilitaria o contágio por propiciar o contato da mucosa anal com o pênis, sendo a lubrificação muito pouca e os riscos de sangramento maiores), o que contribui de forma derradeira para a estigmatização da população gay como “aidética”. Pode-se dizer que até hoje, em certos círculos sociais e regiões do Brasil (e do mundo), muitos compreendam a AIDS como uma doença de gays. Esse entendimento equivocado contribui para que o vírus se alastre enormemente através da desinformação.

Autoria desconhecida

O HIV é identificado em hemofílicos em 1982, ano em que a sigla AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrom) ou SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) é criada. No ano seguinte, mulheres e crianças são reportados como portadores do vírus. Os EUA registram 3.000 casos de contaminação, sendo que 1.000 pessoas já haviam falecido. Já em 1986, mais de 38 mil casos são diagnosticados em 85 países do mundo.

No Brasil, o primeiro caso é identificado em 1980, na cidade de São Paulo. Começam a surgir casos de mulheres, usuários de drogas, hemofílicos e crianças contaminadas. O entendimento de que o vírus seja transmitido através do contato sexual ou do contato com sangue contaminado cresce na comunidade científica (além da transmissão vertical, de mãe para filho). Em 1985, surge no Brasil o GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS), primeira ONG do país e da América Latina na luta contra a AIDS.

No início da década de 90, já existem reportados mais de 8 milhões de HIV positivos no mundo. Em 1995, o UNAIDS (United Nations Programme on AIDS) é criado. Dois anos após, o número de portadores da síndrome sobe para 22 milhões. No ano passado (2007), os índices revisados indicavam que 33,2 milhões de pessoas no mundo viviam com HIV (boletim completo da UNAIDS aqui). No âmbito nacional, o Programa Nacional de DST e AIDS é criado em 1986. Nesse mesmo ano, o número de notificações de HIV no país é de 2775.

No ano de 1987, morre o cartunista Henfil, vítima de AIDS por transfusão sangüínea (Henfil era hemofílico). Nesse ano, são feitas 4535 notificações de HIV no país. Em 1989, o ator da Rede Globo Lauro Corona falece de complicações decorrentes da AIDS. Já o número de notificações no país é de 6295 no mesmo ano.

Graúna, personagem de Henfil

O ano de 1990 traz a morte de Agenor de Miranda Araújo Neto, o cantor e compositor Cazuza. Sua luta contra a doença foi estampada pela imprensa nacional durante vários meses, o que também contribui para que o jovem cantor se tornasse um ídolo da sua geração – e das seguintes. No ano de 1991, o número de notificações é de 11805. Mas o ano de 1996 é que traz um dado importante: a rede pública de saúde passa a oferecer a medicação para tratamento de AIDS de forma gratuita. Nesse mesmo ano, constata-se que “a infecção aumenta entre as mulheres (feminização), dirige-se para os municípios do interior dos estados brasileiros (interiorização) e aumenta significativamente na população de baixa escolaridade e baixa renda (pauperização)”, segundo o Ministério da Saúde.

Cantor e compositor Cazuza


Até a metade de 2008, as notificações de AIDS no país (1980-2008) chegaram a
506.499 casos. Durante esse período, 205.409 pessoas morreram em decorrência da síndrome. Dentre os milhões de mortos pela AIDS no mundo, estão grandes personalidades de todas as áreas – eminentemente a artística. Os cantores Cazuza, Freddie Mercury (postagem sobre ele) e Renato Russo foram vitimados pela doença. Já um dos maiores jogadores de basquete do mundo, Magic Johnson, é portador do vírus HIV (detectado em 1991) até hoje, sem que tenha se manifestada a síndrome (AIDS), graças ao tratamento que faz.

Magic Johnson jogando pelo Lakers

Há alguns anos, descobri uma personalidade brasileira que também foi vítima da AIDS. Não foi artista, mas sim um jornalista, sociólogo, escritor e militante político. Herbert Daniel nasceu em 1946, em Belo Horizonte (MG) e morreu em 29 de março de 1992 no Rio de Janeiro (RJ). Infelizmente, existe pouco material sobre ele na web, estando a maior parte de seus livros e biografia num sítio do geocites.

Herbert Daniel militou contra a ditadura. Seqüestrou embaixador, assaltou banco e se exilou na França em 1974. Lá começou a refletir politicamente sobre a vivência da sua homossexualidade. Quando retorna ao Brasil, em 1981, tenta inserir esse assunto na agenda da esquerda brasileira que se articulava no momento pós-ditadura. Participou da formação do Partido Verde junto a alguns políticos, dentre os quais Fernando Gabeira.

Herbert Daniel

Quando a AIDS eclode nas manchetes de jornais como uma epidemia gay (“peste gay”), Herbert já prenuncia aquilo que chamaria de epidemia do pânico e dos preconceitos. Antes mesmo de ser diagnosticado HIV positivo (em 1989), já discutia as dimensões políticas, sociais e antropológicas das várias “epidemias” que surgiriam com a AIDS.

Por diversas vezes, utilizei um texto de Herbert Daniel em meu perfil do Orkut por considerá-lo um dos mais fortes e belos textos que já li. Encerro o post com trechos (longos, mas valem à pena serem lidos) do livro Vida antes da Morte (você pode baixar ele aqui!), de 1989, escrito pelo autor. Se você chegou até aqui, dedique mais algum tempo e realmente leia os trechos abaixo. Tenho absoluta certeza de que saberá ter lido uma das melhores narrativas (sobre a vida) brasileiras.

Quando adoeci, com uma infecção
típica da Aids, percebi que a primeira
pergunta a ser respondida é se hà vida,
e qual, antes da morte.

[…]
De um momento para outro, o simples fato de dizer “eu estou vivo” tornou-se um ato político. Afirmar minha qualidade de cidadão perfeitamente vivo é uma ação de desobediência civil. Por isto, repito constantemente, desde que soube que estava com Aids, que sou vivo e cidadão. Não tenho nenhuma deficiência que me imunize contra os direitos civis. Apesar da farta propaganda em contrário.

Doente, a gente fica. Morrer, toda a gente vai. No entanto, quando se tem Aids, dizem más e poderosas línguas que a gente é “aidético” e, para fins práticos, carrega um óbito provisório, até o definitivo passamento que logo virá. Eu, por mim, descobri que não sou “aidético”. Continuo sendo eu mesmo. Estou com Aids. Uma doença como outras doenças, coberta de tabus e preconceitos. Quanto a morrer, não morri: sei que Aids pode matar, mas sei melhor que os preconceitos e a discriminação são muito mais mortíferos. Quando morrer, que a morte me seja leve, mas não me vou deixar matar pelos preconceitos. Estes matam em vida, de morte civil, a pior morte. Querem matar os doentes de Aids, condenando-os à morte civil. Por isto, desobedientemente, procuro reafirmar que estou vivíssimo. Meu problema, como o de milhares de outros doentes, não é reclamar mais fáceis condições de morte, mas reivindicar melhor qualidade de vida. Problema, aliás, que é comum à quase totalidade dos brasileiros.
[…]
Recebi a notícia de que estava com Aids de forma mais traumatizante do que a provocada pelo simples fato de me saber doente com tal gravidade. O médico que procurei, numa urgência, me comunicou que eu estava doente, me deu uma receita, me cobrou quarenta mil cruzados e me dispensou do seu gabinete. Tudo isto em quarenta segundos. Foi este o tempo de que dispôs e me deu, para absorver o choque. Enquanto isso, me encarava com uma olímpica indiferença de técnico de laboratório. Eu era apenas uma doença. E, o que é pior, uma doença de homossexual. Estou convencido de que é o preconceito que provoca tamanha desumanidade, associado a uma ignorância completa sobre a epidemia. Há uma sutil violência, gerada pelos preconceitos, que faz crer que um homossexual está sendo castigado por uma culpa que carrega. Não é um doente; é um relapso.

[…]
De fato, há uma Aids que se tem definido, a partir de uma visão estreita e antiquada de medicina, como contagiosa, incurável e mortal. Isto é, pelo menos, o que reafirma monotonamente, nesta última década, toda a propaganda oficial ou oficiosa sobre a doença. Não é uma grande mentira, é simplesmente um conjunto de meias verdades. Como tal, essas características atribuídas à Aids criaram uma vasta mitologia e são fonte dos piores estigmas que a doença carrega e das piores discriminações contra o doente.

Campanha da Aid Agency, da Dinamarca


[…]
O VÍRUS É INOCENTE

Com quatro letras pode-se escrever amor, sexo ou Aids. A economia libidinal de hoje tem preferido escrever a sigla, pois parece uma coisa mais técnica e sem desvios. A Aids, afinal, deveria ser apenas uma epidemia: uma infecção virótica que se espalha no mundo certamente em conseqüência de um desequilíbrio ecológico produzido pela civilização industrial. Isto é uma generalidade que não apavora ninguém, apenas preocupa, e permitiria até discutir com serenidade as medidas eficazes de controle da epidemia. Entretanto, uma atitude tão equilibrada não interessa, pois não dá lucros – nem financeiros, nem políticos, nem ideológicos. E lucrar é preciso, já que viver é inútil nos nossos dias (dias, aliás, é anagrama de Aids). Por causa disso, uma coisa é a Aids, outra coisa é a doença de mesmo nome provocada por um vírus.

[…]
Nem é verdade que o vírus seja um cafajeste a serviço das classes dominantes; ele não fez nenhuma opção política. Também não se deve acreditar que seja homossexual. O caso dele é glóbulo branco, e tendo linfócito ele se locupleta, pouco se importando com as atividades sexuais do cliente. É infâmia dizer que tem preferência por pecadores e pega alguns desprevenidos para desmoraliza-los. O HIV não fez opção preferencial pela culpa, não tem nenhuma moral, é apenas um vírus sem más intenções.

Imagem da estrutura do HIV


[…]

Pois bem, em exatamente quarenta segundos o “médico” me deu esta notícia, me deu uma receita e me cobrou quarenta mil cruzados, dispensando-me do seu consultório. Assinar o cheque foi uma dura tarefa, principalmente para controlar o tremor da mão. (Alguns dias depois, em circunstâncias bastante diferentes, confirmou-se que eu tinha Aids, mas a razão de minha crise era uma tuberculose ganglionar. Muito provavelmente nunca tive a pneumonia que ele diagnosticou. Muito provavelmente ele “viu” a P. carinii através dos óculos da minha homossexualidade, como tantos “médicos” vêm fazendo.)

Quarenta segundos. Foi o tempo que ele me deu para absorver a notícia. Foi suficiente para me dar sobretudo o horror de ver diante de mim, naquela clínica indiferença, talvez uma certa maldade: não estaria ele se “vingando” de mim por ser eu homossexual e merecer receber um castigo? Pode ser. A gente nunca sabe a quantas andam a sexualidade – e o enrustimento – desse tipo de “médico”.
[…]
Saí daquele consultório transtornado. Quarenta segundos de Aids! Escapei. Cláudio, meu companheiro, me esperava aqui fora. Meus amigos me esperavam. A vida me esperava. E livrei-me daquela pavorosa doença que me matou por quarenta segundos. Escapei. Com a convicção de que é preciso libertar desse jugo outros doentes. A Aids real é um caso muito sério para ser tratada por “médicos”, por essa medicina que a Aids veio provar que faliu. De resto, é a vida. A cada quarenta segundos. Intensamente.

ANTES, A VIDA

[…]

É curioso pensar que, nos momentos iniciais do seu descobrimento, a doença foi designada por Grid – Gay Related immunodeficiency. E notável que o jargão doutoral tenha fundado assim o conceito de “peste gay” ou “câncer gay” que tanto se difundiu. No entanto, mais notável é o fato da utilização da palavra gay ao invés da erudita “homossexual”, o que indica profundas alterações na visão médica sobre as homossexualidades, decorrentes certamente da importância política do movimento gay, sobretudo nos Estados Unidos. São os ares dos novos tempos. Assim, a homossexualidade deixou de ser vista, pela medicina, como doença, mas passou a ser considerada sutilmente como fonte de doenças: de patologia passou a ser considerada condição patogênica. Mudança indicativa de uma feroz batalha ideológica, onde a medicalização da sexualidade é parte de uma sombria estratégia.

Campanha francesa censurada em 2008


[…]

Vivi clandestino durante anos, no Brasil, enquanto lutava contra a ditadura. Naquela época, também vivia clandestinamente minha sexualidade. Foram duros tempos. Por lutar pela liberdade, eu era perseguido pelas forças policialescas. Nesta luta eu achava que havia uma incompatibilidade entre ser guerrilheiro e homossexual. Foi depois disto que aprendi que não se luta por meia liberdade. Que não há liberdade sem liberdade sexual. Há muitos anos entendi que viver transparentemente minha sexualidade significava exigir cidadania para todos, não apenas para aqueles que são ou não ditos homossexuais.

Até hoje, mesmo nas cidades maiores, nos círculos mais liberais, a homossexualidade é vivida se não em completa clandestinidade, pelo menos semi-clandestinamente. Com a Aids revelou-se o aspecto mais trágico dessa situação de vida na sombra. Para muitos, o pior não é a doença; é a necessidade de se revelar homossexual. De um modo patético, o doente de Aids é obrigado a revelar a forma de sua contaminação. E a transformação do diagnóstico numa denúncia. Mesmo o doente que não se contamina por via sexual vê-se constrangido a se “diferenciar”, a insistir permanentemente para que não o confundam com aqueles que têm… a mesma doença que os atinge!

Desenho de Moa


[…]
Nada mudou na impermanência. Sic transit. A experiência da finitude povoa os recalques de todos os mortais. Saber-se finito não é exatamente uma novidade. Acreditar na mortalidade do corpo é que é mais difícil. Este é um aprendizado que a doença traz e, parece-me, nenhuma crença na imortalidade da alma traz alivio para o barro que descobre seu destino de pó.

Certamente, a doença faz a gente descobrir-se alguma coisa fragilmente outra. Com uma certeza ancorada no mar mais ínfimo: a vida continua. Quer dizer, a vida continua agora. Não há morte antes da morte. Por mais que façam para preparar nosso enterro, por mais condenações que nos repitam nas propagandas oficiais.

Há muito o que falar dessa morte antes da morte chamada “Aids”, segundo as definições mais preconceituosas e discriminatórias. Exatamente para dar um grito de viva a vida. Viva a vida! Tenho falado em vida, sem parar. Com um infundado otimismo. Afinal, diz meu bem fundado pessimismo, a vida não presta, não tem prestado. E difícil imaginar que valha a pena um dia, sem terror atômico, sem exploração de classe, sem assassinato de florestas, rios e homens, sem medo, sem culpa, sem vergonha, sem-vergonhamente apenas vida. Mas não há outra maneira de gozar; então, é preciso não apenas suportar, é preciso sustentar a vida. E fazer dela um hino, um tino, um sino de chamada.
Más metáforas. Mas a vida é uma péssima metáfora, também. A péssima metáfora da sobrevivência apesar de tudo. No entanto, sempre acreditei, mesmo quando vacilava, que a vida é a invenção da vida. Pura criação do mundo dos humanos: viver é não só transformar o mundo; é criá-lo mais belo. Não temos acertado muito nessa invenção. Acho, porém, que um dia se acertará, quem sabe?

Um dia, um dia… Quer dizer: outro dia. Um novo.

A gente passa e fica um pouco. Deixa cinzas, pegadas. Nem sempre memoráveis. Seria melhor deixar apenas o que gostariá mos de ter feito conosco.
[…]

Longo post hoje, mas acho que valeu à pena (a mim valeu!)
Abraços a todos.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 30 de novembro de 2008, em Sem categoria. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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