A Igreja e a defesa da morte.


Caros leitores, preciso desculpar-me pela ausência. Esta semana realmente foi muito cansativa, sem considerar que estava no meio de um processo eleitoral que me tomou boa parte do tempo. Sendo assim, fiquei todos os últimos dias sem tempo para postar. E nesse ínterim, alguns fatos aconteceram. Mais especificamente, declarações.

A temática aqui em tela já me consumiu muitos debates em fóruns do Orkut em tempos passados. Em geral, lembro com felicidade que isso é passado, pois amadureci ao ponto de não nivelar, atualmente, pretensos argumentos (ou argumentos de ordem não-racional) com bons argumentos. Todo modo, vou tocar nessa eterna relação conflitante que são as religiões e a sexualidade (aqui, mais especificamente, as não-heterossexualidades) de um modo bem rápido, já que o tema não se esgota em uma única reflexão. Além disso, aqui teremos um recorte bem específico.

(Imagem: reprodução) Manifestação de integrantes da Westboro Baptiste Church (EUA), em cujos cartazes pode-se ler “Deus odeia viados” e “Deus odeia a América”.

A França, que hoje ocupa a presidência rotativa da União Européia, está prestes a propor um projeto para descriminalizar a homossexualidade no mundo. Entendeu? Não né. E que bom que não entendeu, sinal de que a civilidade povoa sua mente. Simplificando, enquanto alguns países nunca chegaram a criminalizar a homossexualidade (ou seja, tornar crime ser homossexual!), a maioria dos países civilizados, desenvolvidos e, em geral, ocidentais, a descriminalizou há um bom tempo.

O projeto francês pretende algo muito simples para pessoas civilizadas: não permitir que seja crime ser homossexual. Aqui poder-se-ia analisar semanticamente o que é ser homossexual: praticar sexo homossexual ou ter orientação sexual homossexual. A distinção se dá nos níveis de entendimento de um conceito e outro. O primeiro é prática, enquanto o segundo é estado, ser, “ontologia”. Exemplo banal que traduz tudo: uma pessoa virgem aos 25 anos não deixa de ser heterossexual ou homossexual porque ainda não teve práticas sexuais.

(Imagem: reprodução) Cartaz do filme “O virgem de 40 anos” (EUA).

A França tem o apoio dos demais 26 países que compõem a União Européia para levar o projeto adiante na Organização das Nações Unidas (ONU). Ele foi produzido ainda na metade do ano pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos da França, na figura do secretário Rama Yade.

Tudo muito tranqüilo, até que surge a onipotente presença de uma das entidades que mais me enojam (lembrete: esse blog é de opiniões pessoais!) nesse planeta: o Vaticano (representante geográfico da Igreja Católica Apostólica Romana, a ICAR), léxico com uma semântica sombria. Como ateu declarado, já não guardo simpatia por quaisquer religiões. A despeito disso, tenho particular ojeriza ao catolicismo e seu travestimento intelectual (certas seitas neo-pentecostais já deixaram claro, desde cedo, a que vieram, por exemplo, ao contrário do Vaticano). A sua capacidade de simular, dissimular e permanecer importante a tantas pessoas nesse planeta é invejável, porém nefasta. Em que pese tudo isso, respeito escolhas e crenças, mas não me eximo de críticas claras a uma cultura religiosa declaradamente homofóbica, como é o caso do atual Papa Bento XVI.

(Imagem: Jose cordeiro/visitadopapa.org.br) Bento XVI em visita ao Brasil em maio de 2007

Na segunda-feira, dia 1º de dezembro, o representante do Vaticano na ONU, Celestino Migliore, fez a seguinte declaração, segundo a Revista Época: “novas e implacáveis discriminações” [seriam criadas com a aprovação da resolução]. Ainda: que “os Estados que não reconhecem a união entre pessoas do mesmo sexo como ‘casamento’ serão submetidos a pressões internacionais”.

Antes mesmo de suportar o nível estratosférico de cretinice do representante papal, é preciso identificar o deboche: impedir que homossexuais sejam mortos* (ou presos, torturados, enforcados…) é criar novas e implacáveis discriminações contra a homofobia católica? De tão abjeto, é rizível. Depois, é preciso identificar o joguete político: a mera descriminalização da homossexualidade resultaria na aprovação do casamento homoafetivo nesses países? Ora, se nem nos EUA e no Brasil, dois países em que a homossexualidade não é crime, o casamento gay foi aprovado em âmbito nacional (ainda se discute união civil, que é “juridicamente mais pobre” do que casamento), como delirar que seria aprovado em países como Irã, Arábia Saudita, Sudão, Nigéria, Emirados Árabes ou Egito? Uma piada de mau gosto, como é costumaz a essa torpe e milenar instituição.

(Imagem: bobster1985) Protesto nos EUA. No cartaz pode-se ler “Igualdade para casar“.

Felizmente, a França não pretende dar ouvidos às verborragias do Vaticano. Na terça-feira, reafirmou seu posicionamento de levar adiante o projeto. Atitude diferente tomou a Itália (previsível não?) ao se posicionar ao lado da Igreja Católica.

Afora os aspectos mencionados acima, ainda poderíamos discorrer sobre o poder político** da Igreja nos órgãos decisórios internacionais, sobre a laicidade da maioria dos Estados ocidentais modernos e sobre a história criminosa da ICAR. Como tudo isso nos exigiria muito tempo e muitos caracteres, ficam como questões secundárias a serem pensadas pelo leitor.

Importante, em particular, destacar uma cadeia de raciocínios que dissipa dúvidas e entendimentos contaminados pela passionalidade religiosa: como ateu e grande devoto (!!!) da democracia moderna e seus pesos e contra-pesos, combato a homofobia nas suas mais diversas roupagens (pseudo-ciência, religiões, mitos, violência, desinformação, ignorância…); defendo o princípio da isonomia de direitos à população GLBT brasileira; ainda, o respeito às liberdades individuais – o que inclui cultuar quem quiser e trepar com quem quiser, excetuando-se os crimes! – de cada pessoa, em conformidade com seu livre-arbítrio; por fim, a completa laicidade do Estado, que deve acolher todas as manifestações religiosas, sem cultuar nenhuma, pois disso depende a convivência e sobrevivência de todas elas.

(Imagem: desconhecido) Sátira acerca da influência religiosa na política

Não quero Igreja, nem religião, nem dogma. Que disso desfrutem aqueles que se aprazem com tais elementos. Quero igualdade formal, sem ingerências dogmáticas sobre o direito de um cidadão – seja ela ateu ou não.

Não é assim que deveria ser? Para engrandecer a polêmica, vote na enquete ao lado: como você considera o posicionamento da Igreja Católica diante da homossexualidade? Se as opções lhe parecerem demasiado limitadas, comente aqui na postagem que eu dou eco depois (desde que não sejam impropérios né!).

Por hoje é isso.
Discorde aí =)
Abraços.

* Famoso caso de assassinato de um jovem homossexual nos EUA.

** As declarações com intenções ocultas do Pontífice.

P.S.: a enquete “você gostaria de ter um filho gay?” já foi encerrada. Agradeço a todos que votaram e, em breve, comentarei sobre esse tema novamente.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 5 de dezembro de 2008, em Sem categoria e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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