Você é hétero mesmo?


Caros amigos leitores: primeiramente, peço desculpas pela longa ausência de mais de uma semana. Final de semestre na faculdade tem dessas coisas, todos sabemos, então não vou me alongar nas desculpas. Espero ter mais tempo livre nos próximos meses para me dedicar mais assiduamente ao blog e aos assuntos que procuro desenvolver por aqui. Antes de serem reflexões diversas, são temas que fazem parte da minha vida de algum modo.

Ontem havia começado uma nova postagem, mas o cansaço era muito grande. Além disso, a temática me exigiria uma postagem mais longa. Por isso, resolvi salvar e deixar para hoje. Mas já ontem surgiu o interesse em colocar outro assunto por aqui, mais ameno e cômico pelo recorte que faria. Por coincidência, conversando como amiga de tempos (ela lê o blog, então vai entender!), o relato dela relembrou-me esse assunto. Então vamos a ele.

Um famoso cientista norte-americano, Alfred Kinsey, cunhou uma famosa escala (a Escala Kinsey) acerca da sexualidade humana. Kinsey era entomólogo e zoologista, passando a estudar a sexualidade humana (dos norte-americanos em específico) a partir da década de 40, com base em seu entedimento acerca da diversidade sexual das vespas, tema de seu doutorado pela Universidade de Harvard em 1919.

(Imagem: The Kinsey Institute) Alfred Kinsey realizando uma entrevista para suas pesquisas

Evidentemente que os estudos de Alfred Kinsey, de mais de meio século atrás, possuem uma enormidade de erros metodológicos e mesmo estatísticos. O que quero citar aqui, apenas a título de ilustração, é a sua famosa escala, que foi construída a partir das milhares de entrevistas que Kinsey e sua equipe fizeram com homens e mulheres estadunidenses. Essa escala, que vai de 0 a 6, abrange os diversos entendimentos acerca da orientação sexual das pessoas. Eis ela:

• 0 – heterossexual exclusivo;
• 1 – predominantemente heterossexual, ocasionalmente homossexual;
• 2 – predominantemente heterossexual, mas mais do que ocasionalmente homossexual;
• 3 – igualmente heterossexual e homossexual (modernamente: bissexual);
• 4 – predominantemente homossexual, mas mais do que ocasionalmente heterossexual;
• 5 – predominantemente homossexual, ocasionalmente heterossexual;
• 6 – homossexual exclusivo;

Costumo brincar, já que não adoto um entendimento literal dessa escala, que sou nível 6 nela. E assim se acreditam boa parte, senão a maioria, dos homens heterossexuais do planeta (ou seja, que sejam exclusivamente heterossexuais).

Bem, essa escala cria um problema conceitual para nossa sociedade que adora dicotomias. O próprio Kinsey escrevera sobre isso em sua obra Comportamento Sexual nos Homens, de 1948. A tradução é minha: homens não representam duas populações discretas, heterossexual e homossexual. O mundo não é para ser dividido em ovelhas e cabras. O mundo vivo é um processo contínuo em cada um e em todos os seus aspectos. ¹

(Imagem: reprodução) Ilustração interessante: duas mulheres prestes a chuparem seus “rabos”, que aqui se assemelham a pênis

Esse pensamento de Kinsey é fundamental para questionarmos esse entendimento coletivo (portanto social) de que ou você curte homens ou você curte mulheres. Há quem curta ambos (são os mais afortunados em minha opinião!). Há quem curta mais um sexo do que outro (e nisso entram mais variações: curto homem para trepar, mas mulher para namoro; só curto mulher para beijar na balada, mas homem pra trepar; etc.) e quem curta nenhum dos sexos.

Do ponto de vista prático, minha premissa é elementar: cada um tem o direito (em certa medida, o dever!) de atrair-se, sexual e afetivamente, por quem quiser, não sendo essa atração criminosa do ponto de vista jurídico. E pronto. Teorizar a praxis sexual e afetiva é importante para a esfera teórica, mas não para criar ditames sociais. Afinal, o amor é sempre inocente não?

Antes de ir ao momento cômico, deixo a reflexão: você já se pegou tendo atração pelo sexo que você supõe não se atrair? Tenho relatos de heterossexuais, por exemplo, que se apaixonaram por uma pessoa específica do mesmo sexo. Não curto homens, mas me apaixonei por aquele cara. Também já vi muitos gays, na balada, ficando com mulheres. Antes eu fazia alguma espécie de censura interna, ao estilo: mas ele é viado ou não é? Que coisa é essa?.

(Imagem: site e-jovem/reprodução) Dilema bissexual na cama

Com o tempo, percebi que as possibilidades de práticas sexuais são múltiplas e circunstanciais. E que boa parte dos gays consegue lidar bem com isso porque já está no pólo transgressor da sexualidade. Já viu um gay agredindo mulher que pediu pra ficar com ele? Eu não. E homens heterossexuais que recebem cantada de gay, como reagem?

Se você ainda não pensou nisso, vou dar uma ajuda. O vídeo abaixo é um comercial argentino que eu considero hilário. Ele brinca com estereótipos bem comuns (o braço no ombro do outro, a meia, a posição corporal…) para fazer a propaganda da cerveja (eu acho que é cerveja, corrijam-me se estiver errado) Cinzano.

Já o vídeo abaixo é uma peça fabulosa para brincar com as “quedinhas” que as pessoas possam ter pelo mesmo sexo (se forem heterossexuais) ou pelo oposto (se forem homossexuais). É um quadro de humor da MADtv (programa de auditório humorístico dos EUA) em que dois homens supostamente heterossexuais estão assistindo a uma partida de futebol americano (a analogia com o futebol-hétero-macho-brasileiro é bastante oportuna) e acabam fazendo algumas coisas “estranhas”. Infelizmente, só conheço essa versão em inglês, então ficará difícil de compreender tudo para quem não entende a língua.

Não é ótimo quando ele diz: it’s a football thing, it happens all the time? ² Ou então: I’ve got gay.. oh, go? ³

Bom, ficam aí os vídeos como dica para você pensar. Até por que, existe uma outra famosa teoria que afirma serem todos os seres humanos potencialmente bissexuais, e que as vivências e práticas é que nos direcionam para a hetero ou homossexualidade. Não sou partícipe dessa teoria, mas ela existe. Aproveitando para ser sincero: não tenho qualquer interesse sexual no sexo feminino. Mas… quem sabe um jogo de futebol opere milagres não?

Abraços e até a próxima.

¹ “Males do not represent two discrete populations, heterosexual and homosexual. The world is not to be divided into sheep and goats…The living world is a continuum in each and every one of its aspects.” (KINSEY, Alfred. Sexual Behavior in the Human Male. 1948)

² Tradução (livre): “é uma coisa do futebol, acontece a toda hora”.

³ Tradução (livre): “eu tenho que ‘gay’, quer dizer, ir” (o efeito sonoro é engraçado na língua inglesa).

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 13 de dezembro de 2008, em Sem categoria e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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