Arquivo mensal: junho 2009

Os lutos desta quarta


Uma quarta-feira cinza. De cinzas. Esse 17 de junho traz duplo luto para mim. Mais desabafo do que reflexão, posto brevemente para dar eco a dois fatos que fizeram desta quarta-feira um dia triste, cinzento.

(Imagem: reprodução) Principais jornais do Brasil: contra ou a favor do diploma?
Final da tarde: os ministros da Corte Suprema do nosso país decidem pelo fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercício da profissão. Se não é a avaliação da maioria, é a de boa parte dos analistas de mídia do país: nosso jornalismo é muito ruim. Concordo. O que virá depois dessa decisão indica um jornalismo muito pior. Em tese, um graduado em Comunicação Social – Jornalismo pode ser colega de redação de um médico. E este escreverá na coluna de Ciência? O chefe da empresa que decide. Em tese também, o concluinte do Ensino Médio pode ser colega de redação do jornalista graduado. Imiscuir os diversos espaços para expressão da liberdade de pensamento que existem dentro de um jornal com àqueles que são característicos da prática jornalística (como reportagens factuais,interpretativas e notícias) é duplo ataque: à ciência e à categoria profissional.
Os trinta anos da Intercom, comemorados em 2007, apontam para a incipiência dos estudos em comunicação no país – e no mundo, se consideramos a década de 20 como marco inicial desse campo científico nos Estados Unidos. Quando os estudos em jornalismo são descaracterizados em sua aplicação prática (o jornalismo como exercício técnico e profissional), por exemplo, temos claro demérito a sua relevância científica. Importância esta que a área sofreu para conquisar dentro da Ciências Sociais e Humanas – que, por sua vez, ainda é “menos científica” do que as seculares Ciências Naturais e Exatas.

Entre o lucro e o jornalista, a consciência que se evoca é a financeira. De um jornalismo ruim que hoje temos, a livre contratação de “quaisquer profissionais” pode tornar a imprensa ainda mais mal servida. Isso o tempo dirá com suas manchetes…

Começo da noite: um homem de 35 anos, espancado durante a Parada Gay de São Paulo (ocorrida no domingo passado, dia 14), morre no hospital. A barbárie retratada pelo vídeo abaixo deixou o homem internado na UTI em estado grave. O óbito, após cirurgia, foi por falência múltipla dos órgãos.

À agressão que resultou na morte deste homem, somam-se mais de 50 feridos durante a Parada. Fato gritante é a explosão de uma bomba caseira jogada de um prédio. Se não podemos deduzir que o homem espancado o foi por pura homofobia num evento que celebra o orgulho de ser gay – enquanto cobra direitos negados aos GLBT do país -, terá sido essa bomba jogada por uma velhinha irritada com o barulho? Por uma família que queria dormir? Parece mais óbvio que os fatos explicam-se pelos seus contextos.

(Imagem: Caio Guatelli/Folha S. Paulo) Avenida Paulista lotada durante a Parada Gay

Uma festa que reuniu 3 milhões de pessoas (mais para a organização, menos para os “opositores”) e reforçou a Parada Gay de São Paulo como a maior do mundo fica marcada também pela violência – homofóbica ou não. Reitera a permanente luta pela criminalização da homofobia no país, colocando-a no rol dos crimes de ódio punidos com legislação específica. Uma pena que o Senado Federal esteja sensibilizado mais com suas irregularidades visceralmente expostas ao país do que com os cidadãos negligenciados pelo Estado.

Nesta quarta sombria é preciso bradar a exemplo do bordão inglês: we’re queer, we’re here, get used to it! (somos gays, estamos aqui, acostume-se com isso!). É preciso defender: jornalismo é escrita, é prática intelectual sim; mas o é com apuro técnico, com formação e legislação específicas; jornalismo não é mera digressão ou exercício fortuito de reflexão – marcas essas, sim, da livre expressão do pensamento.

Sigamos pelo jornalismo.
Sigamos pelo direito de ser gay.

Até a próxima.

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