A “balança simbólica”: o que perdemos?


Nota introdutória: minha (ausência de) assiduidade no blog é bastante problemática, tendo em vista que as fartas ideias e temáticas a abordar não encontram equivalente fartura em disposição. Ou seja, sigo com drops de pensamentos (no twitter) e postergo as mais longas. A que faço a seguir é por total necessidade de exteriorizar sobre o que, parece-me, a todo instante, voltaremos pelos próximos meses.

Olhos de uma libélula: percepção de quase 360º

A quantidade de reflexões feitas sobre a participação do membro (e vencedor) Marcelo Dourado na 10ª edição do Big Brother Brasil é tão vasta quanto rica (e pobre): dos blogs especializados na cobertura do reality show aos blogs de jornalistas, militantes e demais interessados em tratar do tema, que se tornou, afinal, do campo das ideias. Deixou, portanto, de ser apenas faits divers ou produto para as colunas de TV e entretenimento.

Essa quantidade de reflexões, tão díspares quanto numerosas, dá conta de vários aspectos, e penso que minha capacidade não seja, evidentemente, de dar conta de todos eles – mais que isso, não é de meu interesse. Quero focalizar aqui o comportamento do vencedor desta edição dentro do programa como amostra daquilo que, efetivamente ou não, ele  é no mundo real. Contudo, a partir disso, e nisto reside o que mais me interessa, discutir como este arquétipo de comportamento do jogador obteve respaldo em diversos espaços sociais. Ressalvo, contudo, que não vou, nem tenho capacidade, de adentrar em questões sociológicas ou psicanalíticas sobre o comportamento das massas ou na figura de tirano que estaria prefigurada em Marcelo Dourado.

Campanha da Directions, que ajuda jovens expulsos de casa em Vancouver (Canadá). No parede, lê-se faggot (gíria ofensiva para gays)

Parto da clara afirmação de que, sim, Marcelo Dourado é homofóbico. Tal asserção não é condenação jurídica. Nem religiosa. Muito menos científica. É uma valoração moral baseada no que entendo (vou arriscar um plural acadêmico: entendemos nós, LGBT ou não, que estudamos de alguma forma este interessante conceito) como homofobia. A esta primeiro ponto, então: que é a homofobia? Vou discorrer sobre o tema diferentemente do que se costuma – recorrendo ao próprio entendimento médio (que é adequado) do que seja a homofobia. Do ponto de vista etimológico, homofobia vem da junção de homossexual com fobia (medo, aversão). Teríamos, neste sentido estrito, homo + fobia como medo irracional ou aversão aos homossexuais e à homossexualidade; ainda, como uma aversão intensa, anormal ou ilógica a homossexuais e à homossexualidade. Estas definições são as mais comumente dicionarizadas, inclusive em dicionários etimológicos.

Para efeito comparativo, a xenofobia não se manifesta, sempre e em todas as culturas, como uma aversão irracional ao estranho/estrangeiro; como uma repulsa ilógica e intensa ao estranho/estrangeiro. É preciso lembrar que cada sociedade (enquanto cultura em sentido amplo) tem um conjunto diverso de elementos simbólicos que atuam sobre como as formas odiosas se manifestam nelas (exemplo é o racismo, de um modo nos Estados Unidos, de outro aqui no Brasil, ainda de outro na África do Sul).

Tendo isto claro, é perceptível que as formas pelas quais a homofobia manifesta-se aqui no Brasil são diversas (por vezes, totalmente) das que são “aceitas socialmente” em Uganda, por exemplo, em que vemos políticos de altos escalões falar aberta e grosseiramente sobre pena de morte aos homossexuais daquele país. Portanto, considerar que uma manifestação de preconceito dê-se estritamente na conformação etimológica do termo é, para além de tudo, uma impossibilidade do curso da língua: pensando discursivamente (oratória, expressão oral), os sentidos só se dão em uso, no discurso. Assim, precisamos ir a outros campos para compreender o que é a homofobia hoje, sob pena de considerarmos, atrelados à definição excessivamente “patologizante” (fobia), que  no Brasil não há homofobia – nem racismo, machismo ou xenofobias internas.

Sísifo, da mitologia grega: mortal astuto, foi condenado a rolar uma pedra que nunca chega ao cume, por causa de uma força irresistível que a devolve ao chão.

Farei uso de um raciocínio do antropólogo Kabengele Munanga, professor-titular da FFLCH da Universidade de São Paulo. Em agosto de 2009, Kabengele concedeu entrevista à revista Fórum e colocou algumas ideias que me parecem fundamentais para perceber que a homofobia não se encerra, como conceito, somente nas práticas específicas de violência física, ao gosto da definição dicionarizada. O professor Munanga trata do preconceito étnico-racial em sua entrevista, mas o trecho que destaco abaixo nos é útil pelo conteúdo ideológico em si, absolutamente aplicável a nossa questão. Disse o professor Munanga (grifos nossos):

O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam-na, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la. […] Mas para você lutar contra essa ideia [da inferioridade] não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. […]

O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda. […] Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, diria: “Não vou alugar minha casa para um negro”. No Brasil, vai dizer: “Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar”. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita. Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: “Você já discriminou alguém?”. A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar… Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: “você que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Ele rejeita a culpa e a coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Dominação. Campanha holandesa contra o preconceito: você deve esconder quem você é para ser aceito?

As ideias centrais que quero extrair do excerto acima são: o preconceito enquanto ideologia que depende de aceitação do arbítrio por parte dos dominados (Bourdieu); a recusa da existência do preconceito no tecido social; e a dificuldade de identificar o preconceito dissociado de condutas típicas (agressão, injúria). O primeiro ponto é muitíssimo interesse porque nos coloca questões tanto de enfrentamento de um status quo heteronormativo quanto de autocrítica diante de nossa (LGBT) aceitação da dominação ideológica. Escreveu Pierre Bourdieu, em O Poder Simbólico, que

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbítrio. (1998, p.14)

A homofobia, portanto, assim como o racismo no que nos diz o antropólogo Kabengele Munanga, é prática social que obtém uma dimensão ideológica porque é reconhecida, legitimada por dominados. Nisso, quadro clássico é o de homossexuais com homofobia internalizada (egodistonia, ver F66.1 na Classificação Internacional de Doenças) ou de LGBT que aceitam certas restrições sociais (e institucionais) acerca de suas homossexualidades como legítimas (desprovidas de arbítrio, portanto). Estou, claramente, desconsiderando que há, sim, uma tensão e dificuldades imensas em se contrapor à heteronormatividade, à norma de um modo geral. Sei disso muito bem, mas o foco da abordagem aqui é outro.

O segundo ponto diz respeito, justamente, ao que é o cerne desta minha reflexão: o não reconhecimento de práticas diversas como sendo homofóbicas. Assim como o professor Munanga visualiza o racismo brasileiro como velado, no sentido de que não reconhecemos, social e politicamente, que somos racistas, processo similar ocorre com a homofobia. Similar porque, sim, há muitas distinções – a começar pela facilidade e aceitação sociais que o declarar-se homofóbico encontra, em oposição à vergonha que se declarar racista produz atualmente. Entretanto, quando associamos homofobia exclusivamente com comportamentos odiosos extremados, ou com a violência física e verbal objetivas (“matei porque era gay”; “chamei de viado porque não gosto de viado”), aceitamos também que nossa sociedade não é, no todo cultural, homofóbica. Um fato notadamente falso.

O terceiro ponto está imbricado neste segundo, por isso trato de ambos de modo coeso a partir daqui (ou seja, a recusa da existência da homofobia no tecido social associada à dificuldade de identificar a homofobia quando dissociada de condutas típicas como a violência explícita).

Desumanização como "nova reificação": deixar de reconhecer no Outro um ser humano idêntico como tal. Imagem: Grito (scream), criação de Aspius (nome real, Grzegorz Kmin), neurofisiologista e artista polonês.

O professor co-diretor do Centro de Investigação e Estudos sobre Direitos Fundamentais (CREDOF), ligado à Universidade de Paris X-Nanterre, Daniel Borrillo escreveu, em 2000, o livro Homofobia. Na obra (veja resenha em português) encontramos a homofobia conceituada como:

A hostilidade geral, psicológica e social àqueles e àquelas de que se supõe desejarem a indivíduos do mesmo sexo ou terem práticas sexuais com eles. Forma específica de sexismo, a homofobia rechaça também a todos os que não se conformam com o papel predeterminado pelo seu sexo biológico. Construção ideológica constituída para a promoção de uma forma de sexualidade (hétero) em detrimento de outra (homo), a homofobia organiza uma hierarquização das sexualidades e extrai dela [da hierarquia] consequências políticas.” (2001, p.36, tradução espanhola, versão e grifos nossos)

O original do excerto acima, em espanhol, pode ser consultado ao final do texto. O conceito formulado pelo pesquisador Borrillo é bastante mais amplo do que a simples noção etimológica. Reconhece aquilo que, com olhos atentos, conseguimos reconhecer em nosso cotidiano. Ainda fazendo uso de Borrillo, temos o que escreveu a antropóloga Zulmira Newlands Borges, coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Antropologia do Corpo e da Saúde (GEPACS)  da Universidade Federal de Santa Maria:

[a homofobia] de acordo com Borrillo (2001, p. 13), é a atitude hostil que tem como foco homossexuais, homens ou mulheres, e consiste em designar o outro como inferior, contrário ou anormal, de modo que sua diferença o coloca fora do universo comum dos humanos. (Limites e possibilidade… ver referências ao final)

Conclui a professora Zulmira, então, que “nesse sentido, comportamentos homofóbicos variam desde a violência física da agressão e do assassinato até a violência simbólica, em que alguém considera lícito afirmar que não gostaria de ter um colega ou um aluno homossexual.”

Este segundo aspecto mencionado pela professora Zulmira Borges diz respeito à noção de homofobia no espaço escolar. No livro Juventudes e Sexualidade, da UNESCO no Brasil, a pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Juventudes, Identidades e Cidadania (NPEJI/UCSAL) Miriam Abramovay, uma das organizadoras do livro, registra que as violências em torno da sexualidade são múltiplas e que estas estão associadas a diversos preconceitos. Esses preconceitos, diz o texto,

São legitimados por padrões culturais que cultivam simbólica e explicitamente hierarquias e moralismos em nome da virilidade, da masculinidade e da rigidez que codifica uma determinada vivência da sexualidade como a normal, a consentida. Muitas expressões de preconceitos e discriminações em torno do sexual tendem a ser naturalizadas, até prestigiadas e não entendidas necessariamente como violências.

Ironia: a agenda homossexual no campo político desde 1788? Cartoon do norte-americano Ben Sargent.

É visível, nas abordagens dos cinco autores já citados, a dimensão simbólica do preconceito. Seu alojamento em todos os níveis de relações sociais, no processo formativo e educacional, no trato cotidiano, na dimensão linguística (o discurso é também muito rico para este tema), mesmo nos meandros institucionais é perceptível e mensurável. Sobre o aspecto institucional, veja-se a realidade legislativa que concerne às demandas da população LGBT brasileira: nula ou quase nula. Este “vazio político” sobre a homofobia reflete o segundo aspecto central do excerto que selecionei do professor Kabengele Munanga: a recusa em identificar homofobia no tecido social. A homofobia, materialmente, estaria apenas em práticas específicas, isoladas, desprovidas de conexão (e retroalimentação) com o plano cultural, com os valores simbólicos da sociedade brasileira. Assim, o assassinato de um homossexual já estaria amparado pelo Código Penal; a agressão verbal, pelos procedimentos de reparação de danos morais.

Realidade estranha a essa praxis política brasileira é a aprovação, bastante numerosa, de leis, projetos e políticas de diversas ordens: em boa parte dos países da União Europeia nas duas últimas décadas (veja no mapa); em alguns países sul-americanos nos recentes anos; nas discussões e paulatinas aprovações de leis sobre casamento gay e sobre coerção à violência motivada por ódio (hate crimes) nos Estados Unidos. Assim, nossa pretensão de criminalizar (última versão do PLC 122/06) a discriminação baseada em orientação sexual e identidade de gênero (vulgo homofobia) seria apenas delírio de uma parcela que vê “pêlo em ovo de casca”, afinal, não somos homofóbicos. Todo este ponto diz respeito, mais diretamente, ao terceiro aspecto central discorrido pelo professor Kabengele Munanga, centralmente conectado com o segundo.

Registra ainda o livro da UNESCO no Brasil sobre juventudes e sexualidade que:

[…] no imaginário popular, se diferencia preconceitos de discriminações, uma vez que estas se materializam em atos explícitos ou implícitos contra terceiros. Não se leva em conta a tênue barreira entre tais formações psicossocioculturais e, muito menos, o que causam ao outro.

O homossexual não é homem: o poder de nomear? Na foto, obra de René Magritte: Ceci n'est pas une pipe (Isto não é um cachimbo).

Essa tênue barreira revela, em boa medida, o que estamos vivendo no momento pós-BBB. Penso que é apenas em boa medida, e não exatamente, porque as declarações e as condutas permanentes do vencedor desta edição, durante o programa, levam-me a enquadrá-lo na definição típica de homofobia: não é preciso recorrer ao simbólico, ao sutil, à análise das entrelinhas. Marcelo Dourado explicita claramente sua homofobia, sua dificuldade em conviver com e respeitar a homossexualidade. E, reitero o que disse na abertura deste texto: não estou abordando a homofobia como consequência jurídica. Se Marcelo Dourado não agride, nem impede o livre exercício da cidadania dos LGBT, não está, a rigor, cometendo crime algum. Tal constatação, entretanto, não significa que ele não seja homofóbico. Desse ponto, inclusive, decorre meu entendimento de que nossa sociedade é claramente homofóbica: porque em todo o restante dos espaços sociais está impregnada de uma cultura heteronormativa.

“[…] Costa (1994) considera que a organização cultural das práticas eróticas, ou seja, a aprovação do que é ou não normal tem a ver com a nomeação de identidades, o que se dá de forma coletiva, não sendo ao azar que um dos receios básicos quanto ao lidar com uma identidade não aprovada seria os outros, ou seja, como se será considerado pelo grupo de referencia no seu trato com o “estranho”. A ênfase de Costa (1994) está na linguagem e na comunicação como construtos de preconceitos.” (Juventudes e sexualidade, supracitado)

A informação maximizada pelo meio de comunicação massivo mais expressivo do Brasil de que o vírus HIV não é transmitido por homens heterossexuais é discurso homofóbico, pois polariza homos e héteros na hierarquia (Borrillo) cognitiva da homofobia: gays transmitem HIV, heterossexuais não transmitem HIV. Ainda, associa o vírus com a prática homossexual, ao considerar que heterossexuais podem transmiti-lo no caso de “andarem fora da linha”. Prova da “realidade não ficcional” deste episódio foi a própria decisão (liminar) da Justiça Federal de São Paulo de que a Rede Globo exibisse, durante a corrente edição do programa, um esclarecimento à população sobre as formas de contração do vírus HIV definidas pelo Ministério da Saúde (íntegra da decisão).

O recrudescimento da homofobia: reforço de valores conservadores versus livre expressão da diversidade.

Por fim, mencionei no terceiro parágrafo que meu propósito central residia em discutir como este arquétipo de comportamento do jogador obteve respaldo em diversos espaços sociais. Disso, o resultado do paredão foi boa prova. Mas mais que isso, foi preocupante constatar que o arquétipo de ação/conduta de Marcelo Dourado não “respeitou” o recorte sociológico que se poderia  (será?) esperar da ignorância: homofobia pode ser combatida com informação de qualidade, com discussão, com acesso à boa informação; logo, é mais comum que pessoas com baixa escolaridade ou poucas condições materiais sejam homofóbicas.

Tal “previsão” tem sido totalmente falha ao pensarmos o preconceito. A disseminação das ideias de máfia dourada, de Marcelo Dourado como mestre, como jogador humilde, como guardião de um tão anacrônico “macho in natura” – diária e continuamente atacado por uma flexibilização de gênero, de modos, de condutas da “homossexualização do social” -, como enérgico nas ideias e gestos, mas não agressivo e violento, todo este modelo foi também assimilado por universitários, artistas, alguns intelectuais e jornalistas que comentam o reality show.

A vitória de Marcelo Dourado deu mais força a uma “axiologia do retrocesso”: os valores mais machistas, conservadores, homofóbicos e agressivos tiveram nova injeção de ânimo. Contou-me uma amiga lésbica, ao dar carona a dois colegas seus da renomada área de Engenharia no ensino superior brasileiro: Marcelo Dourado era ídolo para ambos; a reação dele diante do clima gay-afeminado da casa foi a reserva moral (esperada?) da masculinidade heterossexual; Richarlyson é um ótimo jogador, mas não o aceitaria no meu time (omito o nome), teria dito um deles. Percebo, e espero que percebam comigo, que não existem atos isolados, nem repercussões isoladas (o comentário sobre o jogador do São Paulo não se junta à situação gratuitamente). A vitória de Marcelo Dourado é uma vitória de um arquétipo, que reluto em acreditar ser o preferido do brasileiro: um modelo de valores que exacerbam a agressividade, a masculinidade a partir do machismo, a descortesia e a intolerância.

Humor para pensar: coisas de homens e coisas de mulher. De que era é?

Mais do que rechaço por parte dos homossexuais, espero que o modelo de pessoa que Marcelo Dourado “personifica” não seja do desejo das mulheres heterossexuais. Nem do de homens heterossexuais. A persistência desses ideais reforça nossa heteronormatividade social – transversal, pois está em todos os lugares –  e atinge a todos, heterossexuais e homossexuais. (para uma definição curta do termo, clique aqui). A heteronormatividade reitera e reforça o binarismo associativo de condutas e permissões para condutas de meninos (azuis, valentes, contidos) e de meninas (rosas, delicadas, chorosas) desde a fase escolar. Conforme a fundadora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE) Guacira Lopes Louro

A homofobia, o medo voltado contra os (as) homossexuais, pode-se expressar ainda numa espécie de “terror em relação à perda do gênero”, ou seja, no terror de não ser mais considerado como um homem ou uma mulher “reais” ou “autênticos (as)”. (1997, p.29)

Diante deste quadro, de uma retomada (talvez não tenha havido parada, apenas redução da exposição) de valores fortemente calcados nas dicotomias clássicas (macho-fêmea / viril-feminino), temos o fortalecimento do padrão heteronormativo. Penso que a verdade seja que perdemos todos. Só ganhou, em moeda, Marcelo Dourado.

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Do livro de Daniel Borrillo, trecho original: “la hostilidad general, psicológica y social, respecto a aquellos y aquellas de quienes se supone que desean a individuos de su propio sexo o tienen practicas sexuales con ellos. Forma específica del sexismo, la homofobia rechaza también a todos los que no se conforman con el papel predeterminado por su sexo biológico. Construcción ideológica consistente en la promoción de una forma de sexualidad (hetero) en detrimento de otra (homo), la homofobia organiza una jerarquización de las sexualidades y extrae de ella consecuencias políticas” (p.36)

Textos citados e consultados:

ABRAMOVAY, Miriam. Juventude e sexualidade / Miriam Abramovay, Mary Garcia Castro e Lorena Bernadete da Silva. Brasília: UNESCO Brasil, 2004.

BORGES, Zulmira Newlands.; MEYER, Dagmar Estermann. Limites e possibilidades de uma ação educativa na redução da vulnerabilidade à violência e à homofobia. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 16, n. 58, p. 59-76, jan./mar. 2008.

BORRILLO, Daniel. Homofobia. Espanha: Bellaterra, 2001.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Pierre Bourdieu: tradução Fernando Tomaz (português de Portugal). 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

LOURO, G. L. . Gênero, sexualidade e educação. Uma perspectiva pós-estruturalista. 03. ed. Petrópolis: Vozes, 1997.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 3 de abril de 2010, em reflexões, sociedade, violência e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 7 Comentários.

  1. Alguém Ignorante ou Mau Pois Você É o Certo/Bom

    Não deixei o nome não por você que vai saber quem eu sou, mas por eventuais procuras em google e tal 🙂

    Vamos esclarecer o que Dourado disse, ou melhor, estava comentando com outros “brothers” da casa.

    Comentou que os receptáculos de esperma (minhas palavras, estou sendo direto para ver se você entende) recebem o vírus diretamente dentro de seu corpo e, não obstante, o esperma com o vírus fica ali vivo por um tempo que eu não sei qual, mas grande o bastante para aumentar as chances de se infectar a cada segundo. Já o depositante largou, tirou e teve muito menos contato com a área contaminada.

    Qual a conclusão dessa lógica falha: Lésbicas não pegam AIDS, nem homens ativos (héteros geralmente são, certo?). Acontece que este pensamento está bastante equivocado, mas as chances destes grupos pegarem AIDS são sim menores pelos motivos de ficarem menos expostos a fluidos do parceiro (mas depende tanto do q eles inventam… :P).

    Existe uma lógica no que o Dourado acredita(va?) e esta lógica é a acima e não a “gays pegam AIDS por serem… gays”. Tanto que mulheres estavam inclusas e lésbicas não. A lógica era toda do esperma. Dizer que isso é homofobia é como dizer (erroneamente) que é racismo achar que as chances de negros pegarem câncer de pele ser zero (não é zero). A lógica está sim na pele, numa enzima da pele, mas para racismo está longe.

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    Existem outros pontos da argumentação que eu gostaria de criticar.

    Pergunto: existe japonês no Brasil? Você é um deles? PRONTO. Espero que você tenha entendido o que quis dizer. Olha, o carinha que você citou acho q primeiramente tá praticamente dizendo que todos nós somos racistas até que se prove o contrário, hilário. E agora estende-se o sentido para todos são homofóbicos até que se prove o contrário?! O pior é que é sabiamente impossível provar o contrário. Geralmente então temos os racistas/homofóbicos do BEM (aqueles que querem cotas e outras liberdades positivas) e os do MAL (aqueles q querem isonomia jurídica).

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    Acabei de pensar numa metáfora melhor ainda para a problemática do “homens héteros não pegam AIDS”>

    Dourado tem várias tatuagens e lá na casa (vou te informar já que você não assistia ao BBB) e pelo menos duas pessoas que eu vi (Elenita e Dimmy) reclamaram de tatuagens do rapaz. Ora, eles tem preconceito contra quem tem tatuagens? Eles mesmo tem tatuagens, preconceito enrustido? Temos que analisar a origem da lógica do conflito para saber, julgamento superficial trará mais equívocos. No caso Elenita não gostou do símbolo Budista (preconceito contra religião) e o Jimmy do “SEM FÉ” que ele tem escrito no braço (novamente preconceito contra religião). E olha que preconceito religioso já está previsto como inadequado pela constituição.
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    E por último!

    É fato que todos se acham melhores que todos. Ora, se eu não achasse certo o que eu defendo, eu não iria defender, eu iria mudar de lado, para o lado certo! Daí eu voltaria a achar que eu sou o certo hehe. Todos se acham, todos querem aquele emprego que paga bem, que é de chefia ou seja lá o q vc gosta. Quando um negro, gay, branco, quem quer que seja não consegue algo que dependia de julgamentos mais ou menos subjetivos, eles TODOS pensam que foi injusto. Um negro poderá ter certeza que foi racismo, um gay poderá ter certeza da homofobia, um branco poderá ter certeza q algum outro tinha QI, mas não ser a verdade. Para saber a verdade, como dito na texto, nem indo lá perguntar (ninguém vai confessar um eventual crime). Teria que se abrir o cérebro da pessoa e pesquisar.

    Esta impossibilidade de averiguar tais fatos podem estar a favor dos racistas, mas também está a favor, hoje, dos racialistas que brigam contra o que não se pode provar, exigindo cotas, por exemplo, como se o vestibular discriminasse pela cor.

    Ora, o pensamento deles é muito humano: eu sou o certo, quem não é como eu é ignorante ou mau. Temos que levar a verdade para os ignorantes e prender os mau de coração. Tudo bem, eu também penso assim! haha Aceitar as diferenças fica difícil quando os lados se acham os donos da verdade e querem a mudança aconteça só do outro lado. Mas auto-crítica é essencial para que o outro lado veja valor em suas palavras. Não basta fazer campanhas e achar que irá vencer quem grita mais.

    Não subestime os seres humanos. Por exemplo, noutro dia um site gay foi atacado e colocaram fotos do Dourado por todo o site. Acho interessante enumerar todas as hipóteses:

    1) Alguém homofóbico hackeou o site porq faria eventualmente e colocou fotos do Dourado lá porq “vocês” não gostam dele.

    2) Alguém homofóbico e fã do Dourado fez isso porq ele é homofóbico e fã do Dourado. (tautologia rlz)

    3) Alguém fã do Dourado fez isso porq “vocês” atacaram o Dourado de algo que ele não é (na opinião do Hacker)

    Veja, têm 3 hipóteses bem realistas, se você ignora uma delas é escolha sua, mas a verdade pode estar um numa delas e vc provavelmente nunca saberá qual. Acontece que às vezes brigas geram outras brigas, que geram oportunistas, acho interessante estar sempre atento a tudo isso.

    Acho engraçado alguém que não vê e não gosta de BBB reclamar tanto do programa (vale para você, para o Juremir Machado e tantos outros). Por um lado é como uma partida de futebol, as pessoas torcem por motivos subjetivos e tentar compreender isso é tentar compreender o homem. Mas não vejo tentativa de compreensão, vejo tentativa de julgamento moral muito simplista e totalmente inútil. Quando vc parte do pressuposto que quem torce para o Dourado é ou homofóbico ou ignorante ou outra coisa negativa, suas conclusões dificilmente vão poder chegar perto da realidade. Muitos (espero q a grande maioria) q gosta do Dourado não acha ele homofóbico, nem são homofóbicos. Porém, não duvido que muitos começaram a torcer pelo Dourado quando vocês o pegaram para Cristo. Seja por terem certeza q vcs tavam errados e quererem dar uma de justiceiros ou por serem homofóbicos mesmo e se aproveitarem do inimigo que vcs elegeram.

    Estes meus comentários são no mínimos sinceros e tem por objetivos levar não à verdade, mas às possibilidades de verdade para vc e seus leitores levarem em consideração também. A sua verdade parece já construída mas está tão longe de me convencer que eu não consigo acreditar que seja EU tão ignorante assim.

    Abraços.

  2. ótima análise, luiz! já encaminhei para os amigos 🙂
    beijos

  3. Luiz Claudio Lins

    Luiz querido, como sempre muito bem escrito, sensível e agudo nas observações. Penso apenas que, para um material de blog, a extensão do texto leva o leitor comum a um certo cansaço (preguiça?) o que impede a fruição maior do texto.

    Mas para quem lhe acompanha e admira é um deleite lê-lo tão panorâmico e já distanciado desta tolice televisiva a ponto de conseguir extrair algum sentido e , melhor, revelar o lado panóptico e mais perigoso que está contido nesse folhetim burlesco da vida real.

    Um versão enxuta deste artigo cairia como uma luva no Blog da Homofobia pois seria um bom chamariz para quem quisesse ler a íntegra aqui publicada. (até porquê o pageview de lá está bem alto = muitos leitores)

    pense nisso e parabéns mais uma vez

    seu xará e admirador de Campinas

  4. Perfeitas as colocações do texto. Demonstrou cabalmente as bases acadêmico-científicas que comprovam a conduta homofóbica do Sr. Marcelo ‘Dourado’. Realmente, discurso muito comum daqueles que se recusam a reconhecer que são homofóbicos é aquele explicitado pelo texto, de que homofobia teria relação necessária com a fobia psicológica, ou seja, um pavor irracional que impediria qualquer contato. Nada disso. A língua admite ressignificações das palavras pelo seu “mero” uso social pelas pessoas em geral. Atualmente, homofobia significa preconceito e/ou discriminação contra não-heterossexuais (cf. Roger Raupp Rios, que fala em preconceito e/ou discriminação contra homossexuais). Toda e qualquer discriminação social arbitrária, ou seja, negativa de direitos sem motivação lógico-racional que lhe sustente, configura homofobia e não apenas violência física e ofensas de qualquer espécie. Não aceitar que casais homoafetivos expressem sua afetividade da mesma forma admitida a casais heteroafetivos configura homofobia.

    O texto aqui comentado traz as bases sociológicas e mesmo antropológicas que comprovam o que acabou de se expor, de forma sucinta e didática. Parabéns!

  5. Parabéns Luizinho…tu é muito competente para tratar dos assuntos.
    De fato sempre pensei isso dos brasileiros. Há um preconceito mascarado porque nos achamos modernos ou pós-modernos demais e super liberais para admitirmos as nossas restrições às pessoas que escolhem caminhos ou que são diferentes de nós.
    Enfim, acho que temos que fazer o exercício de nos colocarmos no lugar das pessoas (qualquer pessoa de qualquer sexo, religião, posicionamento, escolha…)e também o exercício de obsevação de até onde vai a nossa tolerância e o nosso respeito pelas pessoas. Eu costumo questionar-me sobre isso e graças a Deus estou bem feliz pelo respeito e amor que tenho pelo ser humano. Mas continuo a me “policiar” para qualquer situação inédita que possa me fazer agir diferente. O importante é evoluirmos e apreendermos cada vez mais.
    Beijos querido

  6. Caro ânimo (que não sei bem quem é, embora suspeite), agradeço muito suas contestações. Assim que for possível, vou retomar o tema, e então respondo a elas, mencionando o que concordo e do que discordo.

    Aos amigos que comentaram mais acima, obrigado.
    Paulo, ainda não li seu texto, pois deves imaginar o cansaço que eu estava hoje de madrugada/manhã, hehe. Logo o farei, e então comento.

    Luiz, você tem toda razão. Eu sempre me recrimino pela extensão dos meus posts, mas não consigo deixar de falar “tudo” que preciso falar. Vou tentar sim reduzir as ideias e condensá-las para um post mais adequado à blogosfera. (pior é eu estudar isso, saber disso, e ignorar né? hahaha)

    Tati, grande prazer vê-la por aqui. Muito obrigado pelas considerações.

    Camila, obrigado também. Nem imaginava que o texto teria tanta repercussão, mas já que teve, fico feliz.

    Abraços a todos. =)

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