Visibilidade fora do armário!


Desafios urbanos. Escultura-escada “Rewriting”, de Olafur Eliassonz (Munique). Créditos: Christian Beirle González (aka yushimoto_02)

Observando os prédios da instituição em que estudo, notei que muitos deles são totalmente inapropriados para o acesso de cadeirantes, por exemplo. Pensei: foram construídos há algumas décadas. É um fato interessante que utilizo como ponto de partida para uma curta discussão (tempo é sono, rsrs) e um convite.

Como é que, paulatinamente, os prédios de nossas cidades foram recebendo rampas de acesso, elevadores, corrimões específicos para cadeirantes e pessoas com outras deficiências (*)? Certamente por imposição, também gradual, do Poder Público. Mas de onde surgiu esta necessidade (para além da constatação evidente no cotidiano)? Ela veio da visibilidade. Visibilidade produz ação e reflexão políticas.

O exército britânico hoje incentiva a presença de e divulga com relativo orgulho seus integrantes homossexuais. Essa é uma conquista e uma modificação que não vieram sem algum esforço. Tome-se como exemplo a luta histórica do movimento LGBT norte-americano pelo fim da política da invisibilidade de seus soldados gays, sob a insígnia Don’t Ask Don’t Tell. Um panorama sobre a questão pode ser encontrado neste texto da estudante de jornalismo da UFSM Nathália Costa.

Soldados em Israel: presença na Parada Gay de Jerusalém (25 de junho de 2009) Créditos: AP Photos/Tara Todras-Whitehill

Mais um último exemplo: publicou o G1 que, em nove estados brasileiros, travestis e transexuais poderão utilizar o nome social nos documentos escolares, inclusive na chamada. Não vou tratar desse tema, no momento, da forma que seria adequada, mas o simples fato de ser chamado (experiência coletiva) por um nome masculino, por exemplo, enquanto seu corpo apresenta caracteres majoritariamente femininos, é fonte de enorme sofrimento para transgêneros. Além disso, há as práticas de bullying, violência e hostilidade decorrentes desta “incompatibilidade” entre nome de registro (civil) e nome social. O quadro histórico, na maioria das vezes, é a exclusão crônica e massiva das populações transgêneras do ensino brasileiro.

É justamente o tema escolar que motivou esta minha postagem: nesta semana, ocorrem duas atividades sobre “diversidade sexual” na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), instituição em que estudo. Se a discussão sobre temas ligados à diversidade sexual, movimento gay, teoria queer, diversidade sexual (etc.) já alcançou relativo costume em algumas universidades de países como Estados Unidos e Inglaterra, no Brasil os passos são um pouco mais lentos. Especificamente no caso da UFSM, mais lentos ainda.

Mesa no dia 08 e filme no dia 09: discutindo diversidade sexual na UFSM.

Diversas iniciativas para tratar do tema e colocá-lo na agenda pública das universidades brasileiras têm sido realizadas, há algum tempo, em algumas instituições. Impossível citá-las todas no momento. Além disso, o surgimento de coletivos específicos como o KIU! (UFBA e UCSAL, Bahia) e o GUDDS (UFMG, Minas Gerais) são exemplos da gradual consolidação da visibilidade LGBT dentro do espaço universitário. Importante destaque de cunho nacional é o Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (ENUDS), que terá sua 8ª edição, em Campinas,  no segundo semestre deste ano.

Abri este texto falando de visibilidade justamente porque ela é o motor das modificações sociais, não só de ordem prática, mas também conceituais e simbólicas: a partir do momento em que os estudantes gays fizerem-se visíveis, a orientação sexual que os “compõe” também passará a ser parte da vivência acadêmica (coletiva).

Universidade de Yale (EUA): pregador com mensagem de ódio no cartaz. Resposta: beijo. Dezembro de 2009.

Quando ingressei na UFSM, em 2007, logo nas primeiras semanas soube de uma atividade chamada Universidade Fora do Armário. Tenho o material promocional guardado até hoje. Na mesa, alguns militantes de Porto Alegre e alguns (poucos) de Santa Maria, estudantes ou não. Ao todo, não éramos mais do que 10 naquele auditório discutindo alguns apontamentos sobre diversidade sexual nas universidades.

Hoje, três anos depois, a mesma atividade ocorrerá na UFSM novamente. Desta vez, estarei junto aos demais convidados da mesa tentando colaborar para ampliarmos um pouco do que já temos/sabemos sobre a diversidade sexual em nossa instituição. Fica o convite feito a todos que puderem e quiserem comparecer – para colaborar, polemizar, acrescentar. É um prazer (e uma deferência) poder fazer parte de uma discussão que alimento (internamente, muitas vezes) desde aquela primeira atividade sobre o tema na UFSM: por que somos tão invisíveis dentro da Universidade e como agir para mudar isso?

Diz a máxima que a universidade é um espaço para o nascimento e a produção de proposições para mudanças sociais. Estaremos na maré contrária da história caso não comecemos a viabilizar esta discussão. Visibilidade: quem não é visto, não existe.

* Utilizo a expressão “pessoas com deficiência” de acordo com o que apreendi de uma das pesquisadoras do Curso de Educação Especial da UFSM. Já a referência às questões educacionais pode ser feita pela expressão “necessidades educacionais especiais”. Reconhecendo, entretanto, a controvérsia das expressões, já antecipo desculpas caso alguém discorde desses usos.

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Nota: o último texto sobre a vitória de Marcelo Dourado no BBB produziu mais repercussão do que esperava. Ótimo. Ficaram alguns pontos para trás que voltarei a tratar em breve. Obrigado aos que leram e discutiram.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 5 de abril de 2010, em política, reflexões e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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