O ânimo do espírito


Se existe algo de subjetivo e de objetivo ao mesmo, este algo é o espírito. Para um ateu, nada mais estranho do que começar (ou terminar!) uma reflexão deste modo. Explico: a possibilidade de ver reanimadas e renovadas nossas ideias, num espaço coletivo, repleto de gente experiente e gente neófita ao mesmo tempo, todo esse quadro injeta ânimo em nosso espírito. Espírito como tradução de energia, vontade, pró-atividade. Portanto, algo subjetivo, que se sente mas não se sabe muito bem definir. Objetivo, portanto, porque se sente e, logo, sabe-se real. Enfim, sensação muito próxima do que dissera Cecília Meireles sobre a liberdade.

Liberdade, essa palavra

que o sonho humano alimenta

que não há ninguém que explique

e ninguém que não entenda…

Coming Out: sair do armário

Nesta quinta, dia 08 de abril, uma mesa sobre diversidade sexual, parte da programação do Universidade Fora do Armário na UFSM, teve este papel de renovação para mim. Primeiro, pela quantidade de pessoas ali reunidas. Àqueles que já participaram das mais diversas Assembleias, nos mais diversos níveis, desde as dos Diretórios Acadêmicos até às de Encontros Regionais e Nacionais de estudantes, sabem bem da realidade que o esvaziamento “político” tem imposto às mobilizações político-sociais. O movimento estudantil, então, é um dos mais claros reflexos dessa situação.

Ver um auditório muito próximo de sua lotação, numa quinta-feira já fria e com a noite caída, foi muito gratificante. Ainda mais para tratar de um tema, vá lá que estamos em 2010, mas um tema deveras obscuro, relegado a poucos iluminados (jogos de sentido, que lindo!) dentro da própria Academia – contradições são humanas, demasiada humanas. Um auditório repleto de pessoas que, salvas as exceções, eu ainda não tinha visto nestes espaços – mesmo porque o que mais vemos é espaço – amplo; e pessoas – poucas. Foi, portanto uma satisfação ver tanta gente nova (mas isso não é sobre idade, certo?), ali, para falar, dentre outras questões maiores e menores, do amor que não ousa dizer o nome, como dito por Oscar Wilde há mais de um século.

Em segundo lugar, a renovação também foi pela mesa presente. Uma miscelânea, um sincretismo, um calidoscópio: gente da academia e da pesquisa da sexualidade enquanto objeto teórico – e empírico; gente dos movimentos sociais tradicionais com a bagagem da experiência do cotidiano; gente da articulação (a interface) do movimento estudantil “tradicional” com a temática da opressão sexual. Enfim, pessoas com relatos, dados e opiniões de muitas fontes e matizes: das pesquisas em educação, da história da sexualidade, do movimento LGBT nacional, do movimento gay aqui em Santa Maria, das questões teóricas às efetividades pretendidas no cotidiano.

Princípio da visibilidade gay Ocidental: Stonewall Inn, 1969

No fim, e não porque tenha eu cantado a pedra, chegamos em torno da palavra-mãe: visibilidade. Dela debatemos mais animados, já ao final, pensando no presente-amanhã: (ouviu-se) é preciso fazer um coletivo! Temos que organizar um seminário. Vamos pautar mais esta discussão. É hora de aproveitar esta mobilização. Todas estas sensações e racionalizações são fruto, justamente, do despertar de ânimo do espírito. Tantos anos falando sobre homofobia, aqui e acolá, de repente tudo parece uma grande verborragia. Porém, ao reunir várias pessoas, com suas diferenças (políticas e ideológicas, sim!), mas com traços em comum importantes, sentimos que a retórica pode agir sobre a polis – ou melhor, sobre a Universidade. É aí que começamos, e é dali que podemos partir.

Lembro que, há alguns meses, o que me fez reanimar o espírito foi a belíssima articulação de uma política norte-americana. Numa votação para aprovar o casamento civil LGBT no estado de Nova Iorque (não foi aprovado), em dezembro de 2009, a senadora Diane Savino fez um belíssimo discurso. Uma fala comprometida, clara, democrática, laica. De uma verdadeira política, que atua no espaço público, pelo interesse público. Felizmente, há uma versão legendada, cuja tradução foi bem feita, portanto é confiável. Com este discurso, fecho minha reflexão.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 10 de abril de 2010, em política, reflexões e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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