Sexo na pauta


Prazer e dor: amantes.

tempos sem postar, sinal dos tempos atuais: final da graduação e intensa participação em outros projetos. Venho hoje reproduzir texto publicado na revista laboratorial do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – a Fora de Pauta (íntegra aqui), número 8, de junho de 2010. Nela há uma reportagem minha e da colega Laura Gheller abordando o tema do sexo a partir de um olhar lançado às práticas sexuais menos aceitas socialmente, mas talvez (penso eu) muito bem aceitas no imaginário humano. Críticas são bem-vindas.

Em tempo: tomei a liberdade de ilustrar o texto, aqui no blog, com outras imagens, já que não me foi possível transpor de forma adequada a diagramação original para cá. Os créditos de fotos e diagramação originais foram suprimidos para não gerar confusão com as imagens aqui postadas (no link do Scrib constam todos os créditos). Abraços.


Muito prazer, sexo.

Por Laura Gheller e Luiz Henrique Coletto

Era uma porta alta de madeira – e estava entreaberta. O corretor já deve estar aí, pensou. Empurrou um pouco a porta e olhou para dentro. A escuridão era total. Decidiu então ligar para o telefone do corretor. Para sua surpresa, a cada toque da chamada no ouvido, um telefone tocava dentro da casa. Não vou entrar aí – pensou – já se virando para voltar ao carro. Foi então que sentiu uma mão puxando-a pela cintura e outra mão cobrindo seu rosto. O cheiro do éter entrou-lhe pelas narinas e não viu mais nada.

As perguntas começavam a se formar na sua mente enquanto ela tentou se mexer uma, duas, três vezes. Sabia que estava deitada de bruços e agora tinha consciência de que estava presa. O grito ecoou no silêncio da casa vazia, e então ouviu passos rápidos em sua direção; sem pensar, gritou novamente, quase na mesma hora em que a bofetada acertou seu rosto. Com o susto, calou-se.

Não sabia se ela tinha notado, mas ele a havia prendido em uma tábua sobre três cavaletes: um acima dos seios, um na barriga e outro acima dos joelhos. Estava presa pelos dois tornozelos, com as pernas ligeiramente abertas; pela cintura, no cavalete do meio; e pelos braços, estendidos pelas laterais do primeiro cavalete. Ela não movia um músculo…

Espartilho de couro… e apertado: peça clássica do BDSM. Foto: reprodução.

Os trechos acima, do conto O Sequestro, foram retirados do sítio Contos BDSM. Ao fim, revela- se que o sequestrador era o próprio marido. A esposa, depois de receber açoites com chicote de couro, de ter cera quente derramada pelo corpo e de ser penetrada com um vibrador, “cede” ao desejo sexual de seu “algoz”. No fim, a “vítima” revela que, desde o princípio, soubera que era o marido a “torturá-la”.

O imaginário da humanidade está repleto de definições de cunho moral sobre o que é certo e errado, normal e anormal a respeito do sexo. Desde uma concepção reprodutora, as práticas sexuais estariam fadadas, por essa visão, ao objetivo de perpetuar a espécie. Entretanto, o sexo e seus meandros passaram por transformações diversas de acordo com as culturas e os tempos históricos.

Somewhere over the… iceberg

Caso quiséssemos fazer uma metáfora sobre as práticas sexuais e a sociedade, poderíamos dizer que tudo aquilo que os seres humanos praticam entre quatro paredes (e noutros lugares) é um grande iceberg; o nível do mar é o espaço limítrofe: aquilo que é socialmente aceito sobre o sexo e a sexualidade está visível; todo o resto, a maior parte do iceberg, está submerso nas profundezas do mar, em algum lugar dos imaginários, dos quartos de motéis e dos nossos lares.

Da antiguidade até o século vinte, profundas mudanças ocorreram de forma paulatina, culminando com a revolução feminista e a de costumes sexuais – que modificaram a percepção das sociedades acerca do sexo e da moral.

São seis e quarenta da noite: encontramos nossa entrevistada pessoalmente após e-mails e telefonemas. O frio acompanha os primeiros dias da Feira do Livro de Santa Maria, e nos faz optar por um café como ambiente para a entrevista. Valentine*, 24 anos, conversou conosco sobre a intimidade dela.

Outra fria noite, agora de sábado, e Bernac*, 46 anos, e Juliette*, de 53, estão em Santa Maria para fotografar com um amigo. Residente em Porto Alegre, o casal está junto há mais de dez anos e é praticante de BDSM (bondage e sadomasoquismo) há alguns. Numa conversa de duas horas, desnudam-nos um universo ora secreto, ora exibido – um jogo entre o íntimo e o voyeur, que depende dos espaços sociais destinados às práticas menos aceitas socialmente.

O risco consensual, a dor prazerosa

Cordas, algemas, cera quente, relho… uma série de acessórios faz parte do universo sadomasoquista – e fetichista em geral. A dor que é infligida por meio desses objetos constitui parte fundamental do prazer a ser obtido. As técnicas de amarração com corda, por exemplo, imobilizam totalmente aquele que se deixa amarrar (comumente denominado submisso); quanto mais movimento, mais justas ficam as cordas; além disso, pode haver suspensão – a pessoa é amarrada, e as cordas são suspensas em ganchos.

A estética, para muitos, é elemento fundamental. Algo como estética produzindo prazer, e prazer produzindo estética. É o exemplo do shibari, palavra de origem japonesa. “Difere do bondage no aspecto estético. Bondage implica restrição, tu podes usar qualquer coisa para amarrar. Já o shibari exige um preparo mais interessante, uma coisa mais estética. Usamos cordas que sejam de textura macia o suficiente para não machucar a pele”, explicam Bernac e Juliette.

O bondage é das práticas que mais exige entrega do submisso ou dominado. Mais que isso, presume total confiança entre os envolvidos. “No bondage, eles têm um lema: para praticar, eles tomam o cuidado de ter sempre uma faca e uma tesoura por perto… Digamos que o lugar pegue fogo, tu vais ter que soltar a pessoa rápido, pois ela pode estar suspensa” afirma Valentine.

Don’t Ask, Don’t Tell, de Michael Breyette.

Um recurso comum entre vários praticantes iniciantes é a palavra de segurança (safeword): quando é dita, significa que o dominado está em seu real limite. “No caso do masoquista, ele vai tentar ir sempre além do limite dele. Mesmo sentindo dor, ele vai querer que tu continues. Por exemplo: está doendo? Sim. Quer que eu pare? Não.” A palavra de segurança, portanto, deve estar fora do contexto, jamais “pare” ou “está doendo”.

“Há práticas que causam lesão física. Por exemplo, quem gosta de ser queimado, isso pode causar lesão. Tu tens que ter absoluta confiança no parceiro, de que tu vais infligir uma lesão, e ele não vai depois te acusar de tê-lo machucado. Pressupõe uma confiança grande”, relata Juliette. Fica claro que o ato consensual é como um contrato feito entre dois adultos que gozam de todas as suas capacidades, em que os limites estabelecem-se pelos parceiros, em parte antes do ato, em parte durante – no teste dos limites. De qualquer maneira, é uma dor prazerosa assumida e desejada por ambos – ou pelos vários parceiros envolvidos numa play (festa), expressão que indica sessão com várias pessoas.

Relações afetivas

– Oi, tc d onde?
– SM, e tu?
– Tmb. Q proc?
– Quero ser fistado.**
– Blz, tmb curto. (…)

O diálogo acima se encaixa muito facilmente em chats nos quais as pessoas procuram por parceiros sexuais e/ou afetivos. Não é exatamente o caso de Bernac e Juliette, nem de Valentine e seu parceiro, juntos há seis anos: “A gente meio que foi descobrindo as coisas juntos, então muitas coisas que acontecem hoje nenhum dos dois fazia antes ou sabia. Foi com o tempo, com a curiosidade e com a intimidade entre os dois”, afirma Valentine.

As práticas sexuais, portanto, são parte da relação, e não o centro dela. A fixação num elemento específico como única forma de obtenção de prazer pode desencadear, em alguns casos, uma situação patológica. De acordo com o site do Projeto Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPqHCFMUSP), os transtornos de preferência sexual são práticas que produzem um comportamento que gera sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo ao funcionamento social ou profissional da pessoa. É preciso cuidado, entretanto, para não “patologizar” o assunto. Muitas práticas serão vistas, de alguma forma, como negativas porque há uma construção cultural nesse sentido. Bom exemplo é que o próprio sexo anal (também conhecido como sodomia) era crime em vários estados norte-americanos ainda na década de 1960.

Obra de Joe Phillips.

“Não é porque as pessoas têm essas práticas menos usuais que não haja sentimento, não haja amor” pontua Valentine. Essa constatação joga luz sobre o sexo de um modo mais simples do que o tema costuma suscitar: as relações e os sentimentos existem, e isso independe das práticas sexuais em si. No íntimo, cada casal ou grupo de parceiros vai estabelecer (pela descoberta, pelo desejo) aquilo que dá prazer – da penetração ou do sexo oral ao spanking ou à chuva dourada. Valentine e seu parceiro gostam de humilhação, chuva dourada e inversão (em que a mulher domina e, eventualmente, penetra o homem, com acessório ou com o próprio dedo, conhecido como fio terra). “Assim como ele precisava não ter preconceito com isso, eu também. Então, conforme foi evoluindo o relacionamento, isso também foi acontecendo”, complementa.

Acessórios protagonistas

Estar dentro de um universo sadomasoquista abre portas para um mundo de práticas – e acessórios. São brinquedos que, mais do que coadjuvantes, conduzem a produção do prazer pretendido. Espartilho, cordas, ball gag, fita adesiva (silver tape) e algemas são alguns dos itens que podem ser utilizados para as práticas de restrição, em que se restringe a respiração, os movimentos, etc. do dominado. Já as velas, o chicote, a palmatória de couro, a presilha para mamilos e o anel peniano são componentes para a prática da humilhação e para a produção de dor.

É na conjunção das fantasias com os acessórios que se constituem as práticas. Restringir para dominar; humilhar para dominar; ser humilhado para ter excitação. “No meu caso, bastante corda, coleira, corrente. Objetos de sex shop – vibradores – a gente não usa muito”, revela Valentine. Disso, constituem-se as diversas práticas – que sempre dependem da vontade expressa dos envolvidos. A chuva dourada, que consiste em urinar no dominado, é uma das práticas comuns na humilhação. Outra prática, conhecida por alguns como travestismo fetichista, consiste em vestir-se com roupas do sexo oposto – muito comum no caso de dominadoras submissos. “Uma vez, participei de uma play. O meu submisso não sabia o que eu ia mandá-lo fazer. Então comprei um calçado com saltinho e, numa sex shop, uma roupa de doméstica. Ele disse: ‘não acredito que você vai me fazer isso’. Era algo que teve significância para ele, pois ele realmente se sentiu humilhado”, conta Juliette.

O spanking também faz parte do repertório da humilhação. Usam-se chicotes e palmatória, por exemplo: um misto de acessórios para produzir dor e prazer – este a partir daquele. “Bater é uma coisa que eu gosto muito. Também produzo o material, como a palmatória. A parte das cordas também, que está relacionada com o shibari”, explica Bernac.

Preconceito: prática do passado ao presente

“Ele não era tão preconceituoso, mas não era de conhecer sadomasoquismo. Então, às vezes, eu tentava fazer alguma coisa diferente, mas não dava muito certo. A única coisa que a gente se acertava era que ele meio que me dominava, me batia”. A falaacima, de Valentine, revela o quão restritas as práticas podem ser. Encontrar parceiros fora das relações pode ser muito complicado. “Se as pessoas fazem comentários irônicos ou depreciativos a respeito dessas práticas, simplesmente sei que não posso compartilhar isso com elas”, afirma Juliette.

A possibilidade de outras experiências no sexo vem acompanhada, quase sempre, de uma postura de vida diferente. “Eu sempre me indignava e me indigno com o machismo. Aqui eu ainda não posso usar todas as roupas que quero, não posso falar de coisas que acho interessantes, não posso rebater muitos comentários” relata Valentine, que nasceu no interior do Estado.

Joe, de Robert Mapplethorpe.

O escritor João Silvério Trevisan, ao reconstituir a história da homossexualidade no Brasil, relata o seguinte sobre nossos antepassados silvícolas: “A verdade é que, entre os indígenas, os códigos sexuais nada tinham em comum com o puritanismo ocidental daquela época; por exemplo, davam pouca importância à virgindade e até condenavam o celibato.” Revelador dos fatores culturais e religiosos que se imiscuíram no Brasil dos últimos séculos foi o choque entre uma moral europeia cristã e uma moralidade “brasileira” formada de forma muito plural. Séculos depois, já pós-feminismo e pós-flexibilização dos costumes, parecemos ainda viver sob a influência de valores machistas e homofóbicos que refreiam as possibilidades de viver de forma mais aberta o sexo e a sexualidade.

A insatisfação, a frustração e o obscurantismo é, muitas vezes, o resultado. A rigidez social quanto ao sexo impede que se dialogue sobre ele; produz certo clima de transgressão no mero falar sobre; e impede, por fim, que as pessoas experimentem-se e solucionem seus problemas sexuais com médicos, psicológicos e mesmo amigos e familiares.

Por dentro das fantasias…

Uma das formas mais comuns das pessoas exercerem a sexualidade é por meio das fantasias. Enquanto parte da imaginação, elas são ilimitadas: pode-se experimentar práticas que são proibidas socialmente, mas livres em pensamento. O universo das fantasias é muito vasto. Abaixo, alguns exemplos de fantasias e práticas que aparecem ao longo do texto (ou não). 

Sonho que estou espiando meu vizinho enquanto ele se masturba sem fazer ideia de que o estou vendo. Mulher, 23 anos.
Prática – Voyeurismo
Estou sozinho no trabalho e surgem quatro rapazes. Eles me prendem e dizem que farei tudo o que eles desejam. Homem, 29 anos.

Práticas – Gang bang (grupal) dominação, sodomia (sexo anal)


Fantasio que meu marido me pede para acariciar a bunda dele. Vou penetrando-o com o dedo, e noto que isso o agrada. Então coloco uma prótese amarrada a minha cintura e o penetro. Mulher, 32 anos.

Prática – Inversão (com cinto peniano)

Imagino que meu marido me amarra na cama com cordas e veda minha boca com uma fita. Então começa a derramar cera quente em mim, enquanto bate com um relho em meus pés. Mulher, 34 anos.

Práticas – Bondage e sadomasoquismo (BDSM), spanking (surra) e uso de silver tape


Levo meu escravo para uma festa com vários amigos. Mando-o colocar uma roupa de enfermeira. Coloco nele uma mordaça com uma bola no meio e o mando obedecer aos desejos dos convidados. No final da festa, todos urinamos nele. Homem, 29 anos.

 Práticas – Travestismo fetichista numa play (festa), ball gag (mordaça) e chuva dourada (urina)


Sonho que estou rodeada por 10 homens masturbando-se. Um deles lambe meus pés enquanto se masturba. Na hora final, todos gozam sobre meu corpo e rosto. Mulher, 30 anos.

Práticas – Podolatria (gosto pelos pés) e bukkake (ejaculação coletiva na face/corpo)


Estou transando com minha namorada e então começo a penetrar meus dedos em sua vagina. Vou lubrificando e colocando mais, até que meu punho está todo dentro dela. Mulher, 27 anos.

Prática – Fist fucking (penetração do punho na vagina ou no ânus)


E mais…

Safeword: palavra de segurança usada em práticas de restrição para indicar o limite do submisso/dominado;

Feet fucking: inserção do pé na vagina ou no ânus;

Scat: atração por fezes (visual ou mesmo palatal);

Milking: “ordenhar pela próstata”; fazer ejacular repetidas vezes, sem orgasmo, estimulando a próstata (prática BDSM).

 * Os nomes são fictícios e foram retirados de contos do escritor francês Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como o Marquês de Sade (1740-1814).

** Conjugação aportuguesada de “fistar”: vem do inglês fisting, que consiste na introdução da mão ou do punho (fist) na vagina ou no ânus.

________________________

Nota: registro os excelentes textos do amigo Adriano Mascarenhas sobre o ignóbil assassinato do jovem Alexandre Ivo em São Gonçalo (Rio de Janeiro) no último domingo, 20. Os textos podem ser conferidos no blog Homofobia Já Era.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 26 de junho de 2010, em jornalismo e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Conhecia os termos em japonês (shibari, bukkake), mas não sabia que eram conhecidos / usados fora-Japão. Será que a terminologia estrangeira ajuda na erotização? Golden Shower também não soa mais elegante? Mesmo algumas das palavras em português soam razoavelmente latinas (no sentido de erudito e não latino-americano).

    Bom, esperava algo mais genérico sobre sexo com o título e, como mantive a esperança por mais de 1 parágrafo, não pude deixar de me decepcionar com uma matéria basicamente sado-maso. Um título melhor – para meu cérebro – seria: “Muita Dor, Prazer”.

    Me deu a impressão que sado-maso é visto como tabu. Eu acho que é apenas visto como fetiche / underground ou mesmo bizarro. E vamos combinar que em matéria de gosto humano, cada um tem o seu, só isso.

    Partes como “Ele não era tão preconceituoso” dão a impressão que o preconceito é comum. Gostaria de ouvir relatos sobre isso, pois se o único preconceito que ouvira foi um “não” de alguém que não quer tentar, não chamaria de preconceito; sei que é a opinião dela, mas a impressão ficou desde o início do texto. Não tenho preconceito contra futebol, apenas não curto, fortemente. 😛

    Mais lá no meio quando está escrito “porque há uma construção cultural nesse sentido. “… poxa, quando tem uma safe word e facas para emergências e se reconhece o risco de lesões mais sérias (queimaduras)?!?!?! Ser perigoso e ser reconhecido como perigoso não é uma mera construção cultural, as pessoas não são só cultura. Considerando que está-se falando em sado-maso primariamente aqui, me parece que um instinto de medo e sobrevivência vêm em primeiríssimo lugar. Mas tratou-se a questão como mero preconceito / aspecto cultural?

    Falando nisso, tenho quase certeza q proibiram sexo anal para coibir homossexuais e dar uma oportunidade menos subjetiva de condenar um gay legalmente. Seria complicado prender alguém por parecer gay ou por eventualmente tocar em outro cara, mas “ahá”, estão sodomizando-se! Prova q são gays a ponto de condenar “sem peso na consciência de que ele podia ser apenas estranho – em oposição a abominação completa”. Dessa forma, se o único crime que acharam foi o contra sodomia, algo me diz que isso está longe de ter uma ligação com sado-maso, senão indiretamente e olhe lá.

    Em resumo, eu sou um leitor chato. Por essas e outras q se pensa em público alvo e tal para as revistas e mesmo para os artigos dentro dela. Nesta me parece claro pelas fotos q o público alvo é gay, era esse o objetivo ou vc apenas aproveitou que imaginou que os leitores de seu blog seriam gays ou muito simpáticos a eles mesmos? Pois não entendi o que a Shower Scene (ilustração) acrescenta à matéria, a não ser que do shower saia pee ou blood… >.>

  2. Oi, Pedro. Agradeço os comentários e críticas. Vou responder a eles pontualmente, já que boa parte é questão de esclarecimento.

    – Não sei se os termos estrangeiros ajudam na erotização, mas considerando-se a influência do idioma inglês no Brasil, é possível. O uso de expressões não portuguesas ocorreu preferencialmente em situações nas quais não se conhecia uma equivalente – não foi o caso de chuva dourada, por isso não usamos golden shower.

    – O título é uma síntese do tema geral (sexo), pois seria pouco interessante um título sobre sadomasoquismo (que não era o tema da matéria, aliás) como o que sugeriste: ao ler “muita dor, prazer” isso não remeteria a sexo ou à sexualidade sem que se lesse o texto. Falamos de sexo, pois quaisquer práticas sexuais com o objetivo de produzir prazer a duas (ou mais), de forma consentida, é sexo, seja elas socialmente aceito ou não. Por fim, havia um jogo semântico entre “muito prazer, sexo” (o famoso nice to meet you + sex) e “muito prazer” (prazer sexual).

    – Sadomasoquismo é visto como tabu sim – lembre-se que o mundo não somos só nós, acostumados (presumo) a entender a sexualidade de um modo mais amplo – e, sim, em matéria de gosto humano cada um tem o seu, a matéria não diz nada diferente disso – em duas passagens explícitas, inclusive, fala-se de consentimento e vontade mútua.

    – Sim, o preconceito é comum. O trecho em questão, se você notar, é uma parte da FALA da entrevistada, o que reflete uma parte do assunto da matéria (preconceito com práticas sexuais menos aceitas socialmente) e, principalmente, a opinião dela. Ademais, a questão não era sobre querer ou não (absolutamente normal), mas sim sobre compreender que as pessoas podem ter estas práticas e desejar inseri-las na relação. No caso DELA, isso não deu muito certo, e ela destacou que ele NÃO era muito preconceituoso. Mais que isso, o parágrafo introduz a questão de que as práticas são muito restritas justamente porque é difícil encontrar pessoas dispostas a experimentar, apenas isso.

    – Você destacou a ideia de construção cultural totalmente deslocada do contexto. O parágrafo é bem simples: a fixação em algo (pé, dor, voyeurismo, etc.) pode ser patológica se comprometer a autonomia e o cotidiano do indivíduo; entretanto, é preciso ter cuidado em como abordar isso porque, sim, há uma construção cultural negativa neste sentido, a de considerar toda e qualquer prática sexual que se desvie do sexo vaginal heterossexual errada. Isso é uma construção cultural, que já sofre algumas mudanças: sexo anal heterossexual e sexo homossexual estão entre os exemplos que já não são mais tão “estranhos”. Eu não faço sexo sadomasoquista ou tenho interesse em ser queimado durante o sexo, mas compreendo a possibilidade (e o direito, quando consentido) das pessoas assim procederem. Novamente, não se está falando aqui, em primeiro plano, apenas de sadomasoquismo, ele é apenas uma das práticas sexuais pouco aceitas socialmente (tema global). Ter conotação cultural negativa não significa, para não tê-la, que se deva DESEJAR ou PRATICAR aquilo que é o objeto de reflexão. Pegue exemplos “menos perigosos”: o bukkake ou a podolatria. São culturalmente mau vistos (qualquer tipo de fetiche além dos clássicos por uniformes e similares), e é disso que se falou, da dimensão cultural negativa sobre as possibilidades (direito, não dever) de prazer no sexo. Só para fazer uma observação: esta matéria não é de estilo “informativo”, mas sim opinativo.

    – Novamente, você reduziu o tema para a questão da homossexualidade (que, também, não é o tema ou foco da matéria). A proibição do sexo anal é das mais simples: não é para reprodução e contraria dogmas religiosos (judaico-cristãos, para falarmos do tema nos EUA e Brasil, por exemplo) de sexo apenas heterossexual e para reprodução (logo, vaginal). Por fim, você definitivamente não entendeu o exemplo do sexo anal naquele parágrafo: dissemos que muitas práticas sexuais serão vistas negativamente pela sociedade (cultura), mas isso não é suficiente para olharmos a questão com o olhar da “medicina patológica”. Exemplo disso é o COMUM sexo anal, que não é crime aqui e não soa como algo “fetichista” de um modo geral. O exemplo não é para falar de sadomasoquismo, mas sim para falar que é perigoso associar recusa social com patologia. Só.

    – Quanto ao público leitor, algumas confusões: a revista não é minha e não tem público-leitor gay como alvo. É uma revista laboratorial para público leitor em geral dessas publicações em Santa Maria, o que inclui, basicamente, universitários e professores. Já o meu blog, sim, de um modo geral, é lido por LGBTs, e isso não é uma “imaginação”, é uma constatação que já parte do título e do enfoque. As fotos, como esclareço no começo do texto, são ilustrações que eu escolhi para usar no blog. As fotos ORIGINAIS da matéria podem ser vistas nela mesma – lá no link. Elas ilustram situações de dominação e fetiche em geral (mulher dominando, mulher sendo suspensa – bondage – e mulher usando ballgag). Poderia ser alguém lambendo um pé, alguém com um chicote na mão, etc. Imagens são ilustrações que refletem (pela redução) o tema, jamais são equivalentes numa proporção “100%”.

    As imagens que escolhi são meramente ilustrativas de diversas ideias ligadas ao tema global: o corselet, a espora na pele, o soldado (fetiche e fantasia) amarrado, o uso de couro, máscaras, as mulheres com usando couro vermelho e simulando sexo oral com “rabos” de diabo; além disso, a roupa de empregada sexy e o rapaz observando outros dois no banho (voyeur). Em tempo: as imagens não acrescentam nada à matéria, pois ela foi publicada numa revista, noutro lugar, eu apenas trouxe para cá (o texto) por ser uma produção MINHA (logo, normal que queira divulgar no meu blog), mas principalmente por tratar de sexo – que é uma das implicações de se pensar sexualidade de modo amplo, caso deste blog.

    De qualquer modo, para finalizar, de fato a matéria tem uma tônica mais forte no BDSM porque quase todas as práticas associam-se em rede, ou seja, boa parte dos praticantes exerce várias destas “variações” de práticas sexuais (as três fontes da matéria são exemplo disso) – e também porque as fontes nos deram este relato mais direcionado, e nosso objetivo era tratar o tema com esta perspectiva: relatos que demonstram como as práticas sexuais são variadas, estão nas relações, são confessadas ou não, são repudiadas social e publicamente ou não, mas não são doenças ou negativas ao exercício saudável (porque escolhido!) do sexo e da sexualidade de quem as pratica.

    Abraços e obrigado, novamente, pelas críticas.

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