No dia do orgulho gay…


Esta segunda-feira, 28 de junho, marca o Dia Mundial do Orgulho Gay. A história toda já é bem conhecida da maioria das pesssoas (há certo nível de otimismo nessa afirmação), mas em resumo: em 28 de junho de 1969 ocorreu o que se chama hoje de A Revolta de Stonewall (Stonewall Riots). Um bar, Stonewall Inn, frequentado por LGBTs, que era constantemente fechado e atacado pela polícia (a famosa NYPD dos filmes). Neste dia e ano foi diferente. Nascia ali, pelo que se convencionaria mais tarde, o orgulho gay como o entendemos modernamente.

Dois documentários mais conhecidos dão conta do tema: After Stonewall (1999) e o novíssimo Stonewall Uprising (2010). Abaixo segue um vídeo que contém cenas do trailer do segundo documentário. Infelizmente não está legendado.

Em março do ano passado, quando o filme Milk ganhou dois Oscar, comentei sobre a história deste político e ativista norte-americano aqui no blog. Semana passada, no domingo, um jovem de 14 anos foi torturado e assassinado em São Gonçalo (RJ). As evidências que se tem até o momento (circunstâncias, relatos, e-mails de ativistas, depoimentos de amigos, matérias) indicam que o rapaz era homossexual e que os assassinos são, possivelmente, ligados a grupos de ódio comumente chamados de “skinheads”. No post de sábado eu já adiantei sobre os excelentes textos do amigo Adriano Mascarenhas acerca do tema. Reitero: podem ser conferidos no blog Homofobia Já Era.

É na mensagem de Harvey Milk que encontro conforto diante de uma situação tão ignóbil como esta – e de tantas outras que estão inscritas na história sangrenta da homofobia em nosso país, como os assassinatos de Brenda Lee e Edson Néris. Mais do que conforto, encontro uma mensagem atual: este ano é mister para o futuro de todos os brasileiros, pois elegeremos vários de nossos representantes políticos, dentre os quais o ou a presidente do país até, pelo menos, 2014. Por isso, o orgulho de ser o que se é passa, muito e principalmente, pela política – que é cotidiana, não objeto estranho e episódico em uma democracia. A lição já fora dada por Bertolt Brecht há vários anos quando escreveu sobre o “analfabeto político”.

O documentário The Times of Harvey Milk (1984) traz um trecho de um célebre discurso de Milk. Nesse discurso, ele fala de política e esperança. Reproduzo abaixo uma tradução livre feita por mim do discurso que consta no vídeo sobre o documentário. Assim é possível vê-lo e acompanhar a tradução logo abaixo.

Em algum lugar em Des Moines ou Santo Antonio há um jovem homossexual que, de repente, percebe que ele ou ela é gay; sabe que se seus pais souberem, será colocado para fora de casa, seus colegas vão humilhá-lo e sabe que Anita Bryant e John Briggs [opositores dos homossexuais na época] estão fazendo sua parte na TV. E aquela criança tem várias possibilidades: ficar no armário [não se assumir], e se suicidar. E então, um dia, aquela criança pode abrir o jornal que diz “Homossexual eleito em São Francisco” e surgem duas novas opções: uma é ir para a Califórnia… ou ficar em Santo Antonio e lutar.

Dois dias depois que fui eleito, recebi um telefonema. A voz era de alguém muito jovem. Era de Altoona (Pennsylvania). E aquela pessoa disse “Obrigado”. Você precisa eleger homossexuais, e então este jovem, assim como milhares e milhares de jovens como o do telefonema, saberão que existe esperança de um mundo melhor; que há esperança por um amanhã melhor. Sem esperança, não só gays, mas os negros, os asiáticos, os deficientes, os idosos, os Estados Unidos: sem esperança os Estados Unidos perderá. Eu sei que você não pode viver de esperança sozinho, mas sem ela a vida não vale à pena. E você… e você… e você precisam dar esperança a esses jovens.

Há dois anos, o querido amigo e professor Guilherme Passamani defendeu a dissertação de mestrado dele sobre homossexualidade, identidades regionais e movimentos sociais. Na abertura do trabalho, fez uma tradução do epílogo da obra História da homossexualidade na Argentina: da conquista da América ao século XXI, de Osvaldo Bazán. O trecho é interessante pela perspectiva história que traz da homossexualidade, do nascimento do orgulho gay e – nisso reside o principal – pela ideia de que a homossexualidade foi (e voltará) a ser nada. Deixo para reflexão dos que por aqui passam.

Feliz dia do orgulho gay a todos – gays ou não.

E algum dia, finalmente, se saberá a verdade tão secretamente guardada: a homossexualidade não é nada. Não foi no princípio e não será no futuro. Quando tirarmos dela todas as fogueiras, todas as torturas, todas as mentiras, todo o ódio, toda a ignorância, todo o preconceito, descobriremos que não há nada.

Aprendi, depois desta viagem alucinante, que uma percentagem, sempre mais ou menos similar da população, ao longo dos séculos, em todas as culturas, em todos os continentes, sentiu uma ânsia mais ou menos similar, a minha. É isso o único que tenho em comum com muitos deles.

Entretanto, essa ânsia, muitas vezes, foi e continua sendo castigada irracionalmente – isso deveria ficar claro, irracionalmente – e fez com que nos convertêssemos em uma imensa minoria que, à ânsia, deveríamos acrescentar outros traços comuns. Aprendemos a mentir-nos primeiro, a mentir depois. A esconder-nos, a desvalorizar-nos, a depreciar-nos. A não confiar em nossa família mais próxima (sustento que é impossível para qualquer heterossexual, inclusive o mais aberto, saber o que isso significa. Os filhos negros, os filhos judeus sempre tiveram em sua casa um lugar onde resguardar-se das estúpidas ofensas externas. O primeiro lugar onde um filho homossexual é ofendido é em sua própria casa. Teu filho conta com vocês?). A não falar. A aceitar resignadamente que as coisas são assim. A envergonhar-nos de cada gesto íntimo.

Não era nada e depois foi pecado (não foi Deus, foi um grupo de pessoas que decretou) e depois foi uma doença (tão arbitrária que um dia deixou de ser) e também foi um delito (usado sempre discretamente). E depois foi tudo junto: pecado, doença e delito. Como reagir tendo como opositores a Religião, a Ciência e o Estado?

O dia em que nasceu o conceito de “orgulho gay” começou a frear-se a injustiça. Orgulhar-se disso que esperam que te envergonhe foi a barreira frente ao avassalamento com que a maioria relacionou-se conosco. “Que necessidade você tem de contar sobre isso?”, perguntam alguns. Como se pudéssemos existir sem dizer. Só ao nomear-nos existimos. Há alguns que, inclusive, não se dão conta de que não querem que nos nomeemos porque não querem que nós existamos.

“Se todos fossem homossexuais, a humanidade não teria futuro”. É mentira, os homossexuais não somos estéreis. Mas não é o ponto. Nunca, nenhum de nós, pediu que todos fôssemos iguais. Esse é um delírio de alguns heterossexuais. A nós, não nos ocorre que todos deveriam ser como a gente. A muitos heterossexuais, sim. Desorientados frente a nosso orgulho e nossos avanços, alguns heterossexuais pedem compreensão. “Não compreendem o que nos ocorre?”, perguntam assombrados de que nos neguemos a pedir permissão para existir. Costumo exagerar, mas não imagino o torturador dizendo ao torturado na sala de torturas: “Não te queixes, não me entendes? Achas que é fácil ver-te assim, sangrando?”. O mundo está muito estranho: os filhos gays que têm que acabar por entender a seus pais. Como podem pedir isso?

– Velhos, queria lhes dizer que estou namorando.

– Que alegria, filho. Com um menino ou com uma menina?

Algum dia vai ocorrer. Eu gostaria de presenciar. Por isso escrevi este livro. Porque a homossexualidade voltará a ser o que nunca deveria ter deixado de ser: nada.

Osvaldo Bazán. Historia de la Homosexualidad en la Argentina: De la conquista de América al siglo XXI. Epílogo. Tradução [do trecho] de Guilherme Passamani.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 28 de junho de 2010, em história, vídeos e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Christopher Silva

    Que reflexão maravilhosa!
    Um dia, todos os homossexuais e heterosexuais terão no sangue o “orgulho gay”. Nesse dia, a homossexualidade voltará a ser nada.

  2. Olá, vim retribuir o comentário, já tinha lido esse texto e quando terminei senti vontade de assistir ao filme Milk (pelo centésima vez). Achei que o post atingiu o objetivo, ou seja, deu esperança as pessoas que leram, porque foi por isso que Harvey Milk lutou, por esperança de cidadania. Porém, a cidadania plena só será alcançada com muita discussão. Parabenizo seu blog por tratar de assuntos como esse com tanta franqueza.

  1. Pingback: Eu sou gay. Eu sou hétero. « Queer and Politics

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