Ariadna e meu eu secreto


Tô orgulhosa de dizer que eu tenho orgulho de ser a primeira transexual do Brasil a participar do BBB 11.

A cabeleireira Ariadna: orgulho de ser trans no horário nobre da Globo.

Esta frase foi proferida pela primeira eliminada da 11ª edição do programa Big Brother Brasil, há pouco menos de uma semana, a carioca Ariadna Thalia. Além de carioca, Ariadna é transexual como já sabemos. Eu pretendia abordar o tema no dia 29 de janeiro, que é o Dia da Visibilidade Trans (ou Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais), mas resolvi fazer esta outra postagem em razão de um programa especial a que assisti mais cedo e que tem circulado pela internet recentemente.

Não foram poucos os momentos em que chorei vendo o especial do programa 20/20, uma espécie de Fantástico (newsmagazine televisiva) da norte-americana ABC. Originalmente o especial My Secret SelfMeu Eu Secreto – foi ao ar em abril de 2007 nos Estados Unidos, mas só recentemente (não sei a razão) foi colocado no Youtube, em outubro de 2010, e começou a circular mais fortemente. Os relatos das famílias e, principalmente, das crianças colocam o tom necessário de empatia que, infelizmente, desassiste a maioria das relações entre humanos – e entre nós e os animais não-humanos – quando há marcas de diferenças físicas, sexuais, identitárias, religiosas e étnicas.

Minha identificação, é claro, foi mais do que imediata porque tantas e tantas frases proferidas por aquelas crianças também estiveram em minha mente durante a infância. Não porque seja transexual, mas porque também sofri pela ideia de que havia um segredo que precisava ser mantido para que pudesse viver minimamente em paz. Esse tipo de marca, creio, é permanente porque se instala em nossa psique e em nossa cognição, passando a ser um já-dado em nossa vida: mesmo fora do armário, a sensação de que há em você uma marca de diferença substancial em relação “aos outros” está presente, como resquício inerente à vivência, ainda que trabalhado por anos e anos de leituras, reflexões e ativismos.

À noite, você ouviu uma prece de Richard*. O que ela estava dizendo? – Ela disse: “Mãe, eu estou tão zangada com Deus”. Eu disse: “Por quê?” “Porque Deus cometeu um erro. Ele me fez um menino, e eu não sou um garoto, sou uma menina, mãe.” E ele disse: “Toda noite eu rezo para que Deus me dê um corpo de menina, mas quando eu acordo ainda sou um menino”.

Campanha portuguesa contra a patologização da transexualidade.

Minutos após este trecho do vídeo (presente na segunda parte), temos a jovem Riley conversando com a âncora do programa, e então a criança chora, logo após ter contado, serenamente, como alguns colegas da escola insistem em dizer que ela é um menino. Só de lembrar deste trecho, fico muito emocionado. Jamais poderei, enquanto homossexual, saber que marcas o racismo produz em milhares e milhares de crianças negras ainda hoje, numa época em que o preconceito étnico-racial está suplantado em praticamente todas as esferas sociais (e no que importa muito, no âmbito discursivo); analogamente, nunca poderei, enquanto homossexual, entender com precisão as chagas que o preconceito às e aos travestis e transexuais (a transfobia) produz.

A empatia (leia até o final do artigo), para mim, é a resposta para a compreensão do outro em suas singularidades e diferenças. Por isso indico muito que assistam a este programa especial, que tem duração de 40 minutos aproximadamente. Abaixo seguem as três partes com legendas em português. Os debates sobre a dissociação da transexualidade da ideia de patologização (“disforia de gênero”) estão acontecendo atualmente no âmbito da militância LGBT internacional e também já no Brasil, mas meu propósito aqui é apenas que os vídeos sejam vistos e que produzam alguma reflexão particular em cada um.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

* Uma observação: Richard, que é Riley, lembra muito o rosto da minha irmã. Talvez isto também explique porque sinto tanta emoção ao ver uma criança de apenas 10 anos (minha irmã tem 12) tendo que lutar para ser. Ser.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 24 de janeiro de 2011, em discriminação, vídeos e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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