Os gays da revista Veja [parte 2]


Trecho da Carta ao Leitor da revista: lição dos jovens (aos adultos).

Conforme relatei na postagem do dia 23 de janeiro, terminei minha graduação em Jornalismo neste ano que passou. Meu trabalho de conclusão foi a monografia Gays em revista: a homossexualidade nas páginas da revista Veja (disponível aqui). Minha intenção nesta segunda parte é postar mais detalhes sobre os resultados da pesquisa e também sobre as críticas que recebi. No limite da compreensão, vou evitar uma abordagem extremamente acadêmica, pois foge um pouco à linguagem do blog.

Naturalmente, os títulos (ainda mais na área da Comunicação) são quase como o nome fantasia de uma empresa. É lendo a pesquisa que se tem clara noção do que fiz: um recorte, como todo tipo de empreendimento científico precisa fazer. Portanto, minha análise foi apenas da homossexualidade no ano de 2010, e não em toda a história da revista. O que dá sustentação à minha análise é um conjunto teórico-metodológico oriundo da linguística, mas que hoje é bastante forte também nos estudos de jornalismo: a análise de discurso. No meu caso, é a vertente denominada francesa, que é a mais disseminada no Brasil – há também a Análise Crítica do Discurso, mais popular nos Estados Unidos.

Capa da edição 2.201 de 26 de janeiro de 2011 da revista Veja

Coincidentemente, a homossexualidade voltou às páginas (amarelas desta vez) da Veja nesta semana: o cantor Ricky Martin concedeu extensa entrevista à publicação. Como não sou assinante, não tive contato ainda com o material, e ele só estará disponível no Acervo Digital da revista na sexta-feira. Pego este gancho para esclarecer que no meu corpus (no conjunto de materiais analisados), não há nenhuma entrevista, basicamente porque não encontrei nenhuma no ano de 2010 que estivesse dentro da minha problemática. Conforme esclareço no começo do capítulo 3 (p.47), os materiais que utilizo são basicamente reportagens e notas. Há dois diferentes: a carta ao leitor, que é um texto de caráter editorial, logo manifesta a opinião do veículo, e a seção de cartas com a opinião dos leitores.

Resumidamente, o que concluí com minha pesquisa? Bem, do ponto de vista da noção geral que temos do que seja homofobia, afirmei que a revista Veja não era homofóbica. Em diversos momentos, podia-se “comprovar” (entenda-se esta ideia, aqui, associada às marcas discursivas, pois é sob este ponto de vista que me coloco na pesquisa, e não sobre outras possíveis e válidas análises das ciências sociais) um discurso afinado com a ideia de que o preconceito é ruim e deve ser combatido, ao mesmo tempo em que a homossexualidade deve ser vivida de modo “sadio”. O quadro geral foi o seguinte:

Fica evidente que há: (1º) um processo discursivo que coloca a homossexualidade e os homossexuais em cena (em discurso) por meio de seu sofrimento com a autoaceitação e a homofobia; mas que também o faz, como que pelo oposto, por meio da (re)inscrição da homossexualidade na esfera privada, uma espécie de pré-Stonewall; (2º) este processo complexo descrito no 1º item ancora-se numa filiação de sentidos que focaliza o político; dizemos isso porque a homossexualidade e os homossexuais também são discursivisados em Veja por meio da oposição à noção de identidade coletiva (identidade sexual politizada), o que vai derivando, por efeitos metafóricos, para um sentido-histórico muito forte: o associativismo político é desnecessário; é antiquado; não se configura mais como relevante dado o estado de aceitação quase-plena da homossexualidade.

Alguma surpresa com a conclusão sublinhada ao final? Nenhuma. Não tive tempo de pesquisar adequadamente e levantar material comprobatório – e por isso excluí das minhas conclusões -, mas é notória a oposição da revista Veja àquilo que compreendemos como movimentos sociais. Entram aí as militâncias feminista e negra, o MST, os grupos como o Greenpeace, e também a militância LGBT. Dois exemplos que estão no meu corpus (trechos de matérias da revista):

De modo geral, quando escapa da galhofa pura e simples, a homossexualidade é tratada com hipocrisia ou usada como bandeira por grupos militantes que vitimizam sua condição e são paparicados por políticos em busca de votos.

Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem, que em nenhum instante cogitaram esconder o nome ou o rosto, são o retrato de uma geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boates GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) – muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa que, na realidade, não veem mais como sua.

Esses exemplos estão analisados numa seção específica nas páginas 60-61. Creio que, genericamente, a figura abaixo ilustre as conclusões gerais a que cheguei analisando como a revista retratou a homossexualidade no ano de 2010.

A homossexualidade diagramada em Veja (p.82)

Antes de fechar, quero pontuar as críticas que me foram feitas. Várias delas são de ordem estrutural e outras em relação à análise. Na versão final só pude assimilar algumas poucas delas, pois implicariam num tipo de reestruturação inviável para o tempo que tinha e mesmo para o trabalho como um todo. Para quem lê a monografia, saltam aos olhos o excesso de notas de rodapé (são 125). Para uma monografia com aproximadamente 75 páginas textuais é uma quantidade imensa de notas (e muitas são bem longas). Concordo totalmente com a crítica. As notas, na verdade, refletem uma característica minha de pecar pelo excesso do que pela omissão: tinha medo de não deixar claro à banca que eu sabia da existência de múltiplas outras questões, abordagens, explicações e modelos, mas que não cabiam ali por uma série de escolhas. Resultado: enchi de notas. Uma revisão demorada poderia solucionar o problema.

Animação da minha banca diante da centésima nota de rodapé e da conclusão pobre.

Conclusão desnecessária. Também concordo. A banca sacou o motivo da minha conclusão ser tão medíocre (apenas 2 páginas sem novidades em relação ao capítulo anterior), e a verdade é: estava muito cansado e com o prazo estourado, então fiz uma conclusão praticamente burocrática. Havia esgotado minhas análises no final do capítulo 3 de tal modo que não tive o tempo e o descanso necessários para trabalhar uma conclusão mais elaborada, então ela ficou burocrática mesmo. Outra crítica: em alguns momentos, poderia ter aprofundado melhor as análises e as correlações feitas (aquilo que se entende como o interdiscurso, tentar desvelar com que outros discursos e saberes aquele discurso da revista estava dialogando). Esse é um ponto natural de qualquer pesquisa: quanto mais tempo e leitura fizesse do meu corpus e das minhas análises, mais poderia aprofundá-las e refiná-las. Como diz minha orientadora, pesquisa não tem fim, tem ponto final.

Enfim, há uma série de outros pontos que cada leitor do meu trabalho poderia apontar. Isto diz respeito a algo que tenho muito claro e está traduzido numa frase genial da professora Eni Orlandi:

Não dá, pois, para regulamentar o uso dos sentidos. Mas se tenta.

Tanto é verdade que, mesmo me parecendo óbvias as conclusões que tirei sobre a revista, no post anterior recebi um comentário afirmando que a Veja estava longe de ser o que eu afirmava. Então: cada um significa os discursos a partir dos seus discursos e repertórios. É por isso que tem gente que acha que a Veja é “esquerdista” demais. Para estes, indico o Reinaldo Azevedo. Abraços.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 26 de janeiro de 2011, em jornalismo e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 3 Comentários.

  1. Depois eu leio sua tese, mas essa matéria de Veja é um acinte!

    Pega meia dúzia de meninos e meninas de classe alta que não sofrem preconceito por um viés de classe mais do que por qualquer suposta aceitação da homossexualidade e saem escrevendo besteira de que gays não precisam mais lutar por aceitação.

    Veja é lixo puro.

    Já foi uma revista digna nos idos de sua história há MUITO TEMPO. Hoje é um panfleto de direita tosca cujo exponente é seu blogueiro simbolo: Reinaldo Azevedo.

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