As ideias, os sonhos e a realidade.


Como estou num período de transição (acadêmica e geográfica), tenho remexido em textos e livros para organizá-los. Foi vasculhando em alguns textos que havia esquecido da existência que encontrei este que segue abaixo. Entretanto, são importantes algumas considerações. Mais ainda, e sobretudo, pelo momento que estou vivendo. O texto abaixo reflete, na verdade, uma espécie de fracasso. Um fracasso que é pessoal, mas não posso reduzi-lo egoisticamente a mim: é um fracasso coletivo e indica, de certo modo, nossa dependência a uns poucos atores sociais para fomentar certos projetos e demandas. Passo a explicar melhor a questão.

Cartaz do Universidade Fora do Armário na UFSM em 2010.

Em abril de 2010, ocorreu a atividade Universidade Fora do Armário na instituição em que estudei até o começo deste ano. Escrevi sobre o evento aqui, antes de sua ocorrência, adiantando um pouco acerca do que pretendia falar, e depois aqui relatando as ótimas impressões que retirei da atividade. Sugiro, inclusive, que se (re)leiam esses dois textos antes de prosseguir – a compreensão do todo que tento refletir aqui ficará mais completa.

Na mesa, como disse nos textos anteriores, havia várias pessoas oriundas de universos distintos (academia, movimento social, movimento estudantil), mas que tinham a temática da diversidade sexual e os LGBTs como ponto de reflexão e ação em seus espaços. Na oportunidade, como vários dos convidados falaram de algumas questões que havia colocado no meu texto, acabei sintetizando as ideias numa fala mais improvisada. Entretanto, mantive o norte ao falar sobre visibilidade e sobre como me incomodava o fato de ainda sermos tão incipientes em relação ao tema dentro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Centro LGBT da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA): serviços, recursos e "institucionalização" da diversidade sexual na Universidade.

E é por isso que falo de uma espécie de fracasso pessoal. Quem me conhece pessoalmente sabe do quanto me envolvo visceralmente com os projetos e grupos nos quais estou. Foi assim com a refundação do Diretório Acadêmico do nosso curso, com as moderações que assumi em anos recentes em alguns fóruns do Orkut, com as atividades que desenvolvia como bolsista, etc. Desde que entrei na UFSM, em 2007, já tinha algum conhecimento de como os estudos gays e lésbicos (LGBT Studies) ou queer studies – que não é o mesmo que teoria queer – estavam estabelecidos em vários departamentos e universidades dos EUA e em algumas europeias. No Brasil, tivemos só mais recentemente iniciativas como a criação do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS), em 2007 na UFBA, e do Programa de Estudos da Diversidade (Homo)Sexual (PEDHS), da USP, em 2009. Naturalmente, existiam pesquisadores e pesquisas que podemos enquadrar nos estudos gays e lésbicos (e também na teoria queer) aqui no país há bem mais tempo, mas institucionalizados em programas com uma finalidade mais específica, eu não tinha conhecimento.

Com o tempo, também surgiram os coletivos e fóruns focados nesta temática, por iniciativa, em geral, dos estudantes. Falo disso no texto também. E era sabendo deste cenário que eu alimentava a vontade de ajudar a florescer em nossa instituição iniciativa semelhante. Acabei me dedicando ao Diretório Acadêmico no começo da graduação, depois à pesquisa e à extensão em projetos que realmente consumiam muito de meu tempo. Nunca deixei de tratar da (homo)sexualidade porque era meu objeto de pesquisa, mas meu sonho realmente era poder participar da criação de um Coletivo na nossa Universidade.

Quando finalmente pareceu haver uma confluência de pessoas e intenções, justamente por causa da ocorrência desta mesa, eu me vi diante de algumas escolhas pessoais e da minha intuição. Era meu último ano de graduação, eu ainda dava aulas no Pré-Vestibular, tinha o programa de rádio Ecolândia, a minha monografia, e as duas seleções de mestrado que já tinha em mente fazer. Tocar a criação do grupo, do modo como eu imaginava, exigiria de mim certo protagonismo. E o fato do Coletivo não ter surgido ajudou a comprovar minha intuição de que, infelizmente, eu era o mais inclinado, naquele momento, a tirar a ideia do papel. Como fiz uma escolha, não posso voltar no tempo (e não mudaria minha decisão), mas esse fato ilustra o que pontuei no começo do texto: certas ideias não podem, pelo bem delas, depender de umas poucas pessoas.

Fico na esperança de que outros colegas (inclusive reuni-me com alguns à época, traçando as primeiras linhas do que seria o Coletivo) ajudem a germinar a ideia e a tirá-la do papel. Infelizmente, não estarei na UFSM para participar ativamente dela, mas serei um entusiasta e colaborador sempre. Abaixo segue o texto que havia preparada para aquela noite de quinta-feira; fiz apenas pequenas correções gramaticais, então alguns fatos podem estar defasados pelo tempo – também optei por não fazer hiperlinks no texto.

Boa noite a todos. Gostaria de, antes de mais nada, destacar que pretendo fazer aqui algumas considerações, proposições, provocações, discussões sobre aspectos que permeiam e circundam a ideia de “diversidade sexual dentro da UFSM”. Ou seja, não falo como representante de toda a comunidade discente, nem como porta-voz dos discentes LGBT da instituição.

O que estamos fazendo hoje, e paulatinamente há algum tempo nas demais Universidades do país, é investir na visibilidade. Como destaquei num texto sobre esta atividade de hoje, foi a exposição de diversos temas e demandas ao espaço e debate públicos que produziram mudanças na UFSM, e nisso não avalio se positivas ou negativas, se bem ou mal implementadas, mas, de qualquer maneira, mudanças na forma de encarar (ou de deixar de não encarar) temáticas como a exclusão de negros e pardos na UFSM, como a acessibilidade de pessoas com deficiências (ou seja, identificar quais as necessidades educacionais especiais destes indivíduos) e outras questões pontuais. Com isso estou apontando para uma consideração central: a visibilidade, se não for permanente, dificilmente produzirá mudanças. O que temos, portanto, são momentos, como este aqui, de viabilização do tema dentro da Universidade, mas não temos isso de forma permanente. É um ponto fundamental que comento novamente mais adiante quando mencionar algumas ideias que surgem e podem se concretizar.

Universidade Fora do Armário: as pessoas saem do armário ou elas são tiradas do armário? Elas saem, e assim deve ser. Ou elas não saem, e nos resta lamentar. E agir. Há dois anos, uma revista laboratorial do curso de Jornalismo trouxe uma matéria sobre o percentual de docentes da UFSM que se declarava como negro. Peco pela imprecisão, mas o número era menor do que 3%. Se isso já tem seu caráter de gravidade pelo fato em si (a presença minúscula de negros na docência ou, talvez e também, a não identificação de muitos destes docentes como negros), desde que li a matéria, pensei: e quantos docentes se declaram homossexuais? E funcionários? E alunos? Temos algum aluno ou aluna travesti, transexual? E professor? Há poucos meses a mídia segmentada no público gay deu destaque à primeira travesti que ingressava no Doutorado, salvo melhor juízo na UFC. E também a primeira transexual a ingressar no Doutorado na UnB. São algumas provocações a nossos olhos e razão: sabemos algo sobre isso, de forma efetiva, em nossa Universidade?

Que há centenas de gays na UFSM não temos dúvida. Mas por que isto jamais foi uma questão permanente (destacarei esta palavra ao longo da minha fala) como o é há várias décadas nos movimentos sociais organizados, como as ONGs LGBT? Ou como dentro de partidos políticos, dentro de correntes do direito (destaco o notável caso da Des. Aposentada do TJ do RS, Maria Berenice Dias, que cunhou a expressão “direito homoafetivo” e hoje tem um escritório especializado nas causas envolvendo relações entre pessoas do mesmo sexo) e dentro das políticas públicas – exemplos são o Brasil Sem Homofobia (que não vou comentar sobre ser efetivo ou não), a inclusão do nome social de travestis e transexuais nas referências escolares de, pelo menos, nove estados brasileiros, a recente decisão do CONAE sobre a inclusão da temática LGBT dentro dos livros didáticos escolares, o livro lançado pelo MEC retratando a homofobia nas escolas… Enfim, há uma enormidade de questões que já circulam há algum tempo em diversas esferas sociais, mas que, excetuando-se os trabalhos acadêmicos de pesquisa e as pequenas incursões do mov. estudantil, ainda não é tema de destaque permanente e central na UFSM e, mais que isso, não é produtor de políticas institucionais sobre a questão. Esse também é um dos pontos centrais do que quero abordar aqui hoje.

Instituições como a UFRGS, a USP, a UFMG, a UFBA/UCSAL e a UFC têm, atualmente, grupos específicos que discutem, pautam e articulam as demandas da diversidade sexual dentro do ambiente acadêmico. Tendo como ponto alto o Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (ENUDS), estes grupos têm articulado a discussão permanente da diversidade sexual nas suas respectivas instituições. Isto é visibilidade contínua que, se articulada com outras questões, pode gerar mudanças – das pontuais às mais expressivas. O que indico com isto? Que certamente, em minha modesta opinião, nosso caminho enquanto comunidade acadêmica (e não só discente) é trilhar este percurso: constituir um espaço (como um fórum) permanente para discussão e articulação em torno da diversidade sexual. É este próprio grupo que pode começar a produzir Seminários permanentes (como foi a experiência da maioria dos grupos das instituições que mencionei), discussão pública de temas como a criminalização da homofobia e o preconceito dentro da instituição (há uma infinidade de outras questões), ciclos audiovisuais e ciclos de debates, sobre diversas subquestões da diversidade sexual – a esfera do direito, da violência, da transfobia enquanto homofobia ainda mais extremada, da inclusão deste tema de forma mais expressiva no movimento estudantil da instituição, etc.

Neste ponto certamente reside uma discussão controversa sobre a forma de pautarmos esta questão. Um exemplo pontual para ilustrar a discussão: todo ano, a UFSM produz um questionário socioeconômico para ser respondido pelos candidatos a uma vaga discente na instituição. Os dados coletados viram números e informações que são utilizados ou não pela UFSM. De qualquer modo, com este mecanismo, sabe-se muito sobre a vida, as escolhas, a renda, as motivações dos candidatos. Penso: por que não haver uma questão optativa (afinal, não pautamos este debate do ponto de vista da invasão da privacidade alheia), de livre decisão do candidato, para responder: qual sua orientação sexual? Não sabemos, mas podemos nos surpreender com, quem sabe, 100 declarações de gays, lésbicas, bissexuais, e mesmo de travestis e transexuais. Ou podemos ter nenhuma resposta. O que importa é que não sabemos. E isto é invisibilidade.

Com esta ilustração (há outros pontos desta ordem, dentro dos diversos setores da UFSM), quero colocar a nossa controvérsia: em que medida este debate vai se institucionalizar? Inevitavelmente, mas estou totalmente aberto ao contraponto, ele precisa de algum nível de institucionalização. Para que as ações que daqui partem não sejam ignoradas ou mesmo combatidas pela própria Instituição; para que uma mudança técnica e pontual como a inclusão da questão no questionário que mencionei não seja efêmera, mas sim permanente nos demais concursos; para que os ativos e dedicados discentes de agora e do futuro próximo não vejam seu trabalho morrer por falta de interesse de outros mais adiante. A institucionalização, enquanto possuidora inata de certo risco de assimilação, é a via que pode produzir alguma regularidade. E assim nosso debate sobre “Universidade Fora do Armário” não precisará, a todo ano, ser apenas nestes termos, de problematizações diversas, mas sim de avaliação e discussão do que foi foi feito e conquistado e do que virá – pela via institucional sim, mas também pelos grupos, pela articulação com os movimentos sociais, com o movimento estudantil e com as demais interfaces que toda questão política, em sentido lato, deve ter.

Neste sentido, e encerrando minhas pequenas pontuações, podemos pensar num primeiro passo importante: um Seminário sobre Diversidade Sexual na UFSM, a exemplo do Simpósio de Diversidade Sexual da UERJ em novembro de 2009; da 3ª Semana da Diversidade Sexual na UFRRJ em novembro de 2009; da 3º Semana Universidade Fora do Armário da UFBA em outubro de 2009; da 1ª Semana da Diversidade Sexual da UFC em junho de 2009. E muitos outros. Notem que são atividades com histórico recente, justamente porque a articulação de Grupos e Fóruns (como o GUDDS/UFMG, o KIU!/UFBA, Coletivo Divers@s/UFC) também é recente nestes moldes. Temos uma oportunidade a ser amadurecida, melhorada e a ser posta em prática na minha humilde opinião.

Então, em futuro breve, poderemos brigar pela inclusão de atividades sobre diversidade sexual em outras atividades acadêmico-científicas da UFSM, como a própria Jornada Acadêmica (JAI), a exemplo do que já ocorre em outras Universidades, que têm este debate sendo incluído paulatinamente em todas as esferas possíveis, institucionais ou não. É o caminho que me parece possível, desejável e necessário: ocupar os espaços para construir visibilidade. E dessa visibilidade, operar mudanças. Deixo outras considerações para nosso diálogo coletivo. Obrigado.

Santa Maria, 08 de abril de 2010.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 14 de fevereiro de 2011, em reflexões e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

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