It gets beautiful…


Desde a última postagem muitas mudanças ocorreram na minha vida, mas nenhuma digna de nota para o blog. De qualquer modo, a postagem hoje é mais um exercício de retomada da escrita aqui  (a partir de outro lócus, e, portanto, com outro(s) olhar(es), já que mudo eu, muda o texto) e, principalmente, para não deixar passar batido este vídeo que achei muito belo.

Frame do clipe Beautiful (Christina Aguilera)

É comum a pecha de superficialidade que se dá às ditas cantoras pop, no sentido de que só produziriam hits dançantes sem qualquer relevância em suas letras. Muitas vezes, isso é verdade. A despeito disso, quando tomei contato, há alguns anos, com a interpretação de Christina Aguilera para a música Beautiful (Linda Perry) e, principalmente, com o clipe desta canção, achei-os fantásticos. A letra porque traz uma mensagem de positividade e aceitação – à época, era um adolescente saído de uma fase levemente depressiva – que, sem dúvida, toca a muitos jovens homossexuais. E o clipe pela estética delicada e, ao mesmo tempo, militante que concatena imagens de diversidade, de superação e de carinho. Foi um vício da adolescência assistir àquele clipe repetidas vezes.

Nos últimos meses, os Estados Unidos viram-se às voltas com o que seria uma onda de suicídios de jovens homossexuais (sabidamente jovens gays têm mais propensão ao suicídio – aliás, quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Ou: os jovens gays têm mais propensão ao suicídio porque são gays ou porque sofrem discriminação? […] Esta “volta” desnecessária é para os incautos mal intencionados que leem tortamente certas ideias…), e tais casos de suicídio motivaram o projeto It Gets Better, composto por diversas iniciativas e mensagens de empresas, artistas e mesmo do presidente. A mensagem básica foi: depois desta fase, sua vida vai melhorar; a adolescência passa e você terá uma vida adulta gay feliz.

"Dor", obra do artista polonês Aspius (Grzegorz Kmin)

Discussões à parte acerca do teor político desta mensagem, eu sempre invejo tais iniciativas. Enquanto num plano “superior” discutimos questões teóricas e de estratégia político-discursiva, noutro bem mais terreno há, sim, pessoas precisando de uma mensagem positiva diante de momentos de preconceito e dor. Para muitos, é a diferença entre resistir e desistir. Eu sei disso porque vivi na pele e vi ocorrer com outros jovens gays na minha adolescência. E muitos que leem o blog sabem disso muito melhor do que eu…

Enfim e por fim: o vídeo de que falo no começo da postagem é de um encontro geracional. Sobretudo de artistas. Os corais de Homens Gays (Columbus Gay Men’s Chorus) e de Crianças (Columbus Children’s Choir) da cidade de Columbus (Ohio) fizeram uma versão desta música de Linda Berry (que é lésbica) totalmente popularizada na voz de Christina Aguilera. O encontro é mais uma das iniciativas que tem produzido material para a campanha que mencionei acima, It Gets Better. Soube do vídeo pelo site da revista The Advocate que, ironicamente, faz uma piada ao mencionar que este vídeo soma-se à campanha audiovisual It Gets Better por meio de um “encontro” que, noutro tempo, já fora controverso: entre homens gays e crianças. Notadamente, uma crítica bem bolada ao discurso que patologiza a homossexulidade ao apensá-la à pedofilia. Fiquemos, então, com este belo encontro.

Anúncios

Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 5 de abril de 2011, em vídeos e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Curti. 🙂

  2. Cara, entrei aqui apenas para elogiá-lo pelo esforço de esclarecimentos na página do Ricardo Perrone. Parabéns pelos comentários e informações!
    Felicidades!
    Abraço,
    Alexandre

  3. Como o Alexandre, do comentário acima, também entrei aqui para elogiá-lo pelos comentários no blog do Rica Perrone.

    Ele entende muito de futebol, mas errou feio no texto sobre volei futuro x homofobia.

    Parabéns por conseguir manter uma discussão saudável com gente mal informada, preconceituosa, que abusa de discursos anacronicos para justificar o injustificável. Eu não teria tanta paciência.

    O triste é que a internet potencializa esse tipo de manifestação, já vi pessoas dizendo que feminismo e machismo são sinônimos, outros que não há porque haver uma delegacia específica para crimes contra mulheres, entre outros absurdos.

    Enfim, é bom saber ainda existe um pouco de sensatez por aqui.

  4. Alexandre e Áurea, muito obrigado.

    Eu nunca havia ouvido falar do Rica Perrone – nem mesmo do Michel e do Vôlei Futuro.

    Entretanto, a partir do momento em que tomei conhecimento do caso, não pude evitar as críticas que fiz. Uma confissão a parte, que eu naturalmente não fiz lá no blog porque seria interpretado como ofensa e juízo de valor pessoal: como jornalista, eu digo sem temer, o Rica Perrone escreve muito mal. Quem confunde o estilo coloquial da fala com o estilo livre da escrita faz textos como o dele, que são muito ruins. Achei os textos dele sofríveis, mas como meu objetivo era debater a homofobia, foi a isto que me ative.

    Como há toneladas de comentadores habituais do blog dele, eu certamente ficaria a vida toda replicando e treplicando por lá (além da minha crítica longa, eu fiz mais de 70 réplicas lá no blog dele) o desconhecimento alheio. É natural desconhecer, mas é perigoso orgulhar-se disto quando estamos lidando com a vida dos outros. Eu não me atrevo a emitir opiniões levianas sobre a demarcação de terras quilombolas ou sobre a luta separatista basca (na Espanha) porque sei pouco disto. É uma postura de respeito, o que não significa que eu não possa estudar o assunto e, eventualmente, manifestar-me.

    Infelizmente, não é o que o Rica e a maioria dos que comentam no blog dele fazem ou fariam. Então, depois de postar em excesso por lá, resolvi parar. Foi um esforço pela tentativa de ajudar, a quem tinha interessa, na reflexão sobre o tema da homofobia no esporte – e sobretudo acerca da homofobia na sociedade. Quem quis refletir, refletiu. Quem não quis, segue a vida.

    Abraços e, mais uma vez, obrigado. =)

  5. Nossa, me arrepiei toda revendo o clipe da Aguilera e mais ainda vendo o encontro de corais. Lindo! Bela iniciativa.

    Essa musica marcou minha adolescencia – e assim como você – eu perdi as contas de quantas vezes eu assisti esse video repetidamente.

    Engraçado como já faz 7 anos e mesmo assim a mensagem da musica permanece totalmente atual!

    Mandou muito bem no post.

    Beijos!

  1. Pingback: Atletas contra a homofobia « Queer and Politics

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: