Eu sou gay. Eu sou hétero.


Projeto #EuSouGay, lançado em abril de 2011

No final de março deste ano, um assassinato brutal foi noticiado nos jornais do país. A adolescente Adriele Camacho de Almeida foi assassinada pelo irmão de sua namorada na cidade de Itarumã, Goiás. Os detalhes são tristemente revoltantes (esta reportagem do Domingo Espetacular traz a reconstituição pormenorizada).

Foi da indignação diante desse caso que surgiu a motivação para o lançamento do projeto #EuSouGay, concebido pela jornalista Carol Almeida e que conta com a colaboração do diretor brasileiro Daniel Ribeiro (do obrigatório Eu não quero voltar sozinho). Os detalhes sobre o projeto  estão no site e lá você descobre como enviar sua foto.

Ontem, fazendo algumas fotos para enviar ao projeto (a minha está aqui ao lado, na barra lateral), decidi escrever este breve post para tecer algumas considerações sobre o projeto e sobre algo que me ocorreu e resolvi traduzir em vídeo. Primeiro, sobre o projeto: alguns blogueiros, como o Tsavkko, não só aderiram ao projeto como fizeram críticas aos que viam problemas em heterossexuais participarem dele (a Amanda Vieira também rebateu algumas críticas em seu blog; e o amigo Adriano Mascarenhas abordou a noção central de empatia no post em que colocou as fotos dele). Um texto que fez críticas (leia-se: ponderadas e relevantes) ao projeto foi o do Paulo Rená. Embora eu entenda algumas delas, não consigo considerá-las suficientemente pertinentes para discordar do mote do projeto, muito menos de seu slogan. E lembrei-me do Marcelo Adnet quando pensei em tais críticas.

Marcelo Adnet é 17% negro. E você?

No seu programa (Adnet Ao Vivo) do dia 31 de março, o apresentador dedicou bastante tempo para criticar, de forma humorada, as várias declarações preconceituosas do deputado federal Jair Bolsonaro (são tantas e tão recorrentes que não vou linkar nada; se você está totalmente por fora, é grave). Nesse dia, ele vestia a camiseta 17% negro e, em dado momento, explicou como havia chegado àquele percentual de sua negritude.

O fato também me fez lembrar das longas discussões que ocorriam, há alguns anos, na comunidade  Racismo, Não (no Orkut), da qual sou moderador até hoje, embora esteja sem qualquer interesse mais pelo próprio Orkut. Então: as discussões lá giravam em torno das camisetas 100% negro, 100% branco, 100% humano ou qualquer ideia do gênero. Sempre me posicionei no sentido de que jamais utilizaria uma camiseta 100% branco (e pela foto na lateral do blog, vocês podem ver que sou, “fenotipicamente”, mais branco do que negro) e que, talvez (dependeria de um contexto, de uma proposta, etc.), utilizasse uma 100% negro sim.

Proposta publicitária lançada sobre o tema "¿diferentes?", em Gijón (Espanha)

O debate aqui é de outra ordem – acerca, pois, da noção de orgulho como resgate da autoestima e como movimento político autoconsciente de autoafirmação numa sociedade racista, homofóbica, patriarcal – e já falei sobre isso noutras oportunidades, ainda que indiretamente. Não está em questão, portanto, uma identificação ipsis litteris com um grupo social, mas sim um processo empático (e político) de afirmar: sou também esta minoria social.

É nisso que residem, para mim, a pertinência e a eficácia sintética (eu sou gay como insígnia de diversidade) da iniciativa. O próprio projeto, promovido em vídeo pela apresentadora Sarah Oliveira, dá clareza quanto a esta ideia:

Este não é um projeto apenas contra a homofobia, é um projeto contra a intolerância, contra a falta de respeito a toda e qualquer minoria. Ser gay neste momento vai além de orientação sexual. Ser gay é nossa identidade conjunta em nome da liberdade de ser quem se é. Não podemos, não devemos e não vamos viver nesse ambiente de raiva.

Por fim, aquilo que me ocorreu quando fazia minhas fotos para o projeto #EuSouGay: como já muito bem articulado no próprio blog do Tsavkko (linkado mais acima), a “heterofobia” não passa de uma miragem que me parece oriunda da desfaçatez de certas figuras. Já na polêmica dos textos homofóbicos (e rasos) do comentarista esportivo Rica Perrone, rebati dezenas de vezes este equívoco (na caixa de comentários do blog dele; inclusive, não recomendo ler) que não encontra fundamentação nem empírica nem lógica – a despeito de, sim, pontualmente, um heterossexual poder sofrer discriminação por ser heterossexual. Entretanto, transpor tal eventualidade isolada para o campo das discriminações sociais, cujas complexidades e manifestações (teóricas, empíricas, estatísticas, históricas e culturais) são bem conhecidas e estudadas, é ignorar um enorme hiato. E só o ignora quem pretende anuviar o debate sobre a homofobia neste país. Fiz o vídeo abaixo, então, e seu endereçamento está bem claro. Abraços.

* Desconsiderem a precariedade do áudio e da edição.

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Modifiquei nestes últimos dias o tema do blog, bem como alguns widgets, e incluí algumas seções novas. Por ora, o template fica apenas com o nome, sem uma arte de fundo. Confesso que assim me agrada bastante, mas talvez mude isso daqui a algum tempo.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 4 de maio de 2011, em homofobia e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Heterofobia é a piada do ano, promovida tão brilhatemente pela família Bolsonaro!

    Poxa gente, sejamos solidários, coitadinhos, tantos heterossexuais sofrendo perconceito graças a recem instituida ditadura gay! Precisamos de um grito de resistencia! Hahahhahaha

  2. Luiz, gostei do seu texto. Ainda não vi o vídeo, tá na lista do “ver depois”.

    Por hora, acho que concordamos. Veja este meu outro texto sobre a questão dos direitos da minorias.

  3. Oi Luiz,

    Seu texto tá muito legal. Parabéns!
    Valeu por citar meu artigo.

    Abraços

    Amanda

  4. Nada a acrescentar ao seu texto.
    Assim como você, concordo com a proposta da campanha.
    Abraço.

    ps: achei engraçado o vídeo.

  1. Pingback: Somos (gays) juntos « Queer and Politics

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