Lacraia: o dançarino?


A dançarina Lacraia. Foto: reprodução.

Ironias do mundo: ontem havia começado a escrever este texto aqui, que não tinha (não tem exatamente) nada a ver com a Lacraia. O tema central, na verdade, diz respeito à relação entre o jornalismo e a identidade de gênero de travestis e transexuais. Tanto na minha monografia quanto em artigo publicado na revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ (ECO PÓS), comentei bastante en passant esta questão: o uso do artigo feminino para se referir às travestis e transexuais (evidentemente: travestis femininas, que são maioria, aliás, e mulheres transexuais).

Sem tempo nem mesmo de escrever direito o artigo, deixei-o para hoje. E então soube da morte da Lacraia. Sei muito pouco de sua trajetória, sua carreira, sua vida pessoal e de sua própria experiência enquanto travesti. Confesso que não sei muito, mas, para o objetivo desta postagem, essa não é uma questão problemática. Creio que a própria Lacraia “responde” a isso, como veremos.

Nem o, nem a travesti: manchete do jornal carioca 'Meia Hora' em julho de 2009.

Havia pensado nesta postagem ao me deparar com um texto no blog da GLAAD, entidade estadunidense que monitora a representação da população LGBT na mídia dos Estados Unidos. O texto Contando a história de Brandon Teena com precisão coloca em cena uma questão central na representação da identidade de gênero de travestis e transexuais: por que a imprensa, de um modo geral, insiste em fazer referência ao sexo biológico de uma travesti/transexual quando ela prefere – e quando já há considerável produção acadêmica e jurídica sobre a importância da identidade de gênero – ser chamada por seu nome social, ou seja, aquele nome (feminino) que a identifica socialmente como travesti/mulher, mesmo que, na maioria dos casos, muitas ainda não tenham conseguido tal reconhecimento no registro civil?

Foi exatamente isso que ocorreu com a morte da Lacraia. A própria alternância indiscriminada entre “ele“, “o bailarino“, “a Lacraia” e “o Lacraia” é amostra do quanto esta questão, já pacífica dentro do movimento LGBT e no âmbito das ciências que abordam tal questão – mormente a antropologia e a sociologia -, ainda é ignorada por completo pela imprensa de um modo geral. Vejamos rapidamente alguns exemplos.

Manchete da Folha Online:

Dançarino Lacraia morre aos 33 anos no Rio.

A matéria inteira trata Lacraia a partir do gênero masculino. O Jornal do Brasil adota a mesma postura: gênero masculino sempre, como exemplifica a manchete:

Morre o dançarino de funk Lacraia.

Entretanto, no último parágrafo do texto, a reportagem trata-a pelo gênero feminino como se vê no substantivo dançarina:

O corpo da dançarina será velado na sala 1 na capela Santa Rita de Cássia, do cemitério Inhaúma (…)

É interessante notar que essa matéria do JB traz os tuítes (1 e 2) em que o promoter David Brazil informava acerca da morte da Lacraia. Nestes, o tratamento é sempre no feminino:

(…) a animadíssima LACRAIA faleceu hoje as 5 da manha. QUE DEUS A TENHA!”.

(…) ela estava dodói, cheguei a visita-la na sexta feira (…)

O texto do portal G1, por sua vez, oscila entre os tratamentos masculino e feminino. A chamada de subtítulo informa:

Artista ficou famoso com os hits ‘Eguinha Pocotó’ ‘Vai Lacraia’.

Ele estava internado no Hospital Gaffrée Guinle, na Tijuca.

No começo do texto, ainda há a utilização do masculino para se referir à dançarina (logo após seu nome de batismo ser informado). Dali por diante, a matéria passa a tratá-la pelo gênero feminino.

Já a revista Veja, por meio de seu site, adotou o “padrão de qualidade” contumaz do semanário. Lacraia é tratada sempre no masculino.

Morre aos 33 anos o dançarino de funk carioca Lacraia.

Os portais Terra e Uol merecem destaque: trataram-na sempre pela identidade feminina, somente referindo ao gênero masculino quando da apresentação de seu nome civil. A manchete do Uol foi:

Dançarina Lacraia morreu, confirma MC Serginho.

Cito detalhe peculiar: no texto do Uol, há diversas declarações do parceiro de trabalho da Lacraia, o MC Serginho. Em todas elas, ele a trata pelo feminino. Entretanto, no texto do G1, as declarações do cantor referem-na no masculino. Ou o próprio MC Serginho oscila nesta utilização – o que me parece menos provável considerando-se que conviveu por muitos anos com ela – ou o portal normatizou as declarações de acordo com o padrão que resolveu empregar.

Brandon Teena (1972 - 1993)

Dados os exemplos, volto ao texto do blog da Aliança Gay & Lésbica Contra a Difamação (GLAAD): o estrategista Sênior de Mídia da GLAAD, Adam Glass, critica a cobertura que o jornal Omaha World-Herald (da cidade de Omaha, no estado de Nebraska) dá ao julgamento da apelação que o assassino de Brandon Teena havia requisitado. Brandon Teena foi um homem transexual (na utilização comum em inglês, FtM, que significa Female-to-Male) assassinado nos Estados Unidos em 1993. Para entender melhor a história, leia sobre Brandon Teena na Wikipedia. A vida de Brandon ficou mundialmente conhecida no premiado filme Boys Don’t Cry (trailer), em que a atriz Hilary Swank dá vida a Brandon. Sem dúvida, recomendo assistir.

Adam Glass afirma que “quando Brandon Teena foi assassinado em 31 de dezembro de 1993, poucas imagens de transexuais haviam sido vistas na mídia comercial até então. A história de Brandon ajudou a mudar isso“.  Prossegue ele: “nos primeiros dias após a morte de Brandon, poderia ser esperado que a mídia local falhasse em reconhecer a identidade de gênero e expressão de Brandon. Entretanto, já se passaram 17 anos desde então, e o mundo mudou. É hora de [o jornal] Omaha World-Herald atualizar-se“.

Montagem feita a partir de print do site do jornal Omaha World-Herald. No 2º parágrafo, eles utilizam seu nome biológico (feminino); nos 3º e 4º parágrafos, repetem 'Brandon' inúmeras vezes, evitando a utilização de "he" e "him", ignorando, inclusive, o princípio básico da coesão textual. Fonte: print feito em 10.05.11

O integrante da GLAAD não poupa críticas à cobertura do jornal de Nebraska por ter se referido a Brandon como uma mulher: “… eles inicialmente usaram os pronomes errados para descrever Brandon. Até mesmo se referiram a ele, no começo, como “‘uma mulher'”. Segundo Adam Glass, após serem confrontados por ativistas e pela própria entidade,

o jornal atualizou a versão online removendo todos os pronomes, negando-se a substituir os pronomes femininos por masculinos. Ao contrário, a publicação trocou “ela” por “Brandon”, usado como sobrenome. Nós da GLAAD sentimos que isso não é o suficiente. Não é um “compromisso” neutralizar a história de qualquer referência ao gênero de Brandon. O editor alegou que utilizar pronomes masculinos seria “confuso” para os leitores. Infelizmente, este argumento não se sustenta – porque muitos jornalistas responsáveis usam pronomes e nomes apropriados para pessoas transgêneras, num esforço para representar a pessoa de modo preciso, e seus leitores/telespectadores/ouvintes não estão confusos.

Manual de Comunicação LGBT, lançado em janeiro de 2010 no Brasil

É importante lembrar que, aqui no Brasil, já temos o Manual de Comunicação LGBT direcionado à comunidade jornalística. Trato longamente sobre ele no meu artigo referido no começo do texto. Do Manual, no que diz respeito a esta questão, pode-se ler:

Utiliza-se o artigo definido feminino “A” para falar da Travesti (aquela que possui seios, corpo, vestimentas, cabelos, e formas femininas). É incorreto usar o artigo masculino, por exemplo, “O” travesti Maria, pois está se referindo a uma pessoa do gênero feminino. (p.18 do Manual)

O caso da Lacraia é bom exemplo de como esta questão ainda é amplamente ignorada por nossa imprensa. Gostaria, então, de fechar com duas observações finais. Primeiro, com outra ótima colocação feita por Adam Glass em seu texto:

(…) cobrir histórias sobre transexuais – particularmente quando a pessoa é vítima de um crime horrível – pode ser complicado. O modo como uma pessoa viveu sua vida pode diferir daquilo que aparece nos boletins policiais e nos relatórios de exames médicos. Entretanto, isto não isenta jornalistas responsáveis de respeitar a identidade de gênero e expressão de uma pessoa transexual. Brandon foi assassinado por dois homens que estavam enfurecidos porque ele os havia denunciado à polícia por estupro. Aquele estupro ocorreu (…) porque os assassinos estavam furiosos com a identidade de gênero de Brandon.

Por fim, procurei por alguma entrevista em vídeo da Lacraia. Queria visualizar como ela se referia a si própria. O vídeo está em péssima qualidade, mas é possível notar o óbvio: Lacraia tinha identidade social feminina, a despeito de seu sexo biológico. Pode-se ouvi-la falando de si mesma a partir de 5’40” até 9’40”.

Respeitar sua memória e sua identidade é respeitar o fato de que ela era Lacraia, a dançarina; ou, como sintética e belamente declarou o deputado Jean Wyllys: “Lacraia foi uma sobrevivente alegrete. Negra, de origem pobre e travesti, ainda assim, impôs-se na indústria cultural e virou ícone pop“.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 11 de maio de 2011, em jornalismo e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

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