Atletas contra a homofobia


A postagem de hoje é também uma tradução. Na verdade, tenho observado o incrível trabalho de divulgação e combate que vários colegas blogueiros e “tuíteiros” têm feito em torno do PLC 122, que pretende criminalizar a discriminação baseada em orientação sexual e identidade de gênero, e do próprio programa Escola Sem Homofobia, cuja parte mais visível – diria que nossa Geni – é o famoso “kit gay”. De certo modo, tenho interesse em abordar os dois temas por aqui, mas acho (i) que  isso já foi e vem sendo feito de forma exemplar pelos amigos que comandam o site PLC 122 e também por outras pessoas na rede e (ii) que eu não teria muito mais a acrescentar – principalmente no caso do PLC 122.

I Marcha Contra a Homofobia, que ocorreu em Brasília em maio de 2010. Foto: Elza Fiúza/ABr

Os opositores, mormente diante da última redação do PLC 122 (aqui está o relatório final da CDH, que, aliás, sofreu críticas consideráveis por parte de alguns militantes LGBTs aqui e aqui), não têm mais a que expedientes recorrer a não ser à má-fé, à mistificação, ao apocalipse como retórica esvaziada de conexão com a realidade, enfim, o que temos por aí de “oposição” à aprovação desta lei é apenas verborragia religiosa ou a pura e mais límpida homofobia declarada. Já sobre o material do MEC que pretende abordar a diversidade sexual e o combate à homofobia nas escolas, ainda pretendo abordar com mais fôlego. Há bastantes considerações a serem feitas tanto no campo da prática (exemplos de outros países) quanto no plano teórico (desmonte destas firulas que são o discurso da “pedofilia” e da “homossexualização das crianças”). A este assunto, volto em breve.

Sean Avery, jogador de hockey no gelo, defensor do casamento gay. Foto: dbostrom sob licença CC no Flickr.

É justamente por considerar que já temos tantos materiais bons tratando da questão que não quero ficar ressoando mais do mesmo. Também porque acho importante poder apresentar conteúdos diferentes nesta miríade de blogues e sites que tratam da comunidade LGBT sobre vários enfoques. E o texto que trago é um exemplo noutra seara da qual carecemos tanto de exemplos positivos: o esporte.

Desde o caso de homofobia contra um jogador do Vôlei Futuro, passando pelos textos rasos do comentarista Rica Perrone¹, até a recente situação de preconceito regional (diria que uma espécie de xenofobia) contra nordestinos no futebol, temos tido motivos de sobra para sentir que o esporte é um dos campos impenetráveis para a discussão da diversidade sexual. As experiências cotidiana e histórica não cansam de nos reforçar tal fato. Ou impressão.

O texto a seguir é a tradução² que fiz duma reportagem que saiu hoje na versão impressa do jornal The New York Times (obs.: agradeço a ajuda da querida Tina). O texto foi liberado na versão online ontem, sexta-feira. Ele trata de dois nomes importantes do esporte que combatem a homofobia – dois nomes heterossexuais. São exemplos de que, paulatinamente, o esporte pode sim deixar de ser um campo impenetrável a esse debate. Tal avaliação, naturalmente, depende de cada contexto cultural.

Eles não deixam de ser, ainda assim, um alento nestes tempos em que nossa mídia têm dado tanto espaço a Bolsonaros e Malafaias…

Dois atletas héteros contra a homofobia

John Branch

Ben Cohen é uma estrela mundial do rugby britânico, e Hudson Taylor é um premiado lutador* universtário dos Estados Unidos. Eles vivem em lados opostos do Oceano Atlântico. E mal conhecem um ao outro.

Mas compartilham algo bastante incomum. Eles podem ser os únicos atletas heterossexuais de ponta que dedicam suas vidas às questões do bullying e da homofobia no esporte. A pergunta que ambos recebem com frequência – além de “Você é gay?” – é por que eles estão engajados em algo que não os atinge diretamente – ou, pelo menos, é assim que parece. É aí que está o negócio, disseram. De modo muito parecido com que o recente apoio ao casamento gay do jogador de hockey no gelo Sean Avery ressoou, em boa medida porque veio de um apoiador inesperado, a orientação sexual deles também ajuda a mensagem a atingir audiências maiores, afirmaram Cohen e Taylor.

Hudson Taylor (esq.) e Ben Cohen. Foto: Nicole Bengiveno/The New York Times

“É extremamente importante,” disse Cohen na sexta-feira à noite em Nova Iorque, durante uma escala em sua campanha nacional para divulgar a recente Ben Cohen Stand Up Foundation, que apoia organizações que combatem o bullying contra jovens LGBTs. “É fundamental. Claro que é. Também porque eu não estou dentro do movimento LGBT.”

Ofensas homofóbicas surgiram no espaço público recentemente. O astro do Los Angeles Lakers Kobe Bryant soltou uma delas contra um árbitro da N.B.A. e foi multado em 100 mil dólares. Do treinador de arremesso de The Alanta Bravers Roger McDowwl, diz-se que teria feito gestos e comentários homofóbicos para fãs em São Francisco, e ele foi suspenso pela Liga de Beisebol por duas semanas. As críticas generalizadas feitas a ambos foram vistas como um avanço cultural pelos apoiadores dos direitos LGBTs. Mas num mundo em que nenhum atleta americano na ativa de grandes times de esporte tenha se declarado homossexual, continua incomum os atletas declararem apoio aos direitos LGBTs. Recentes exceções, além de Avery, incluem Grant Hill e Jared Dudley do Phoenix Suns, que gravaram um anúncio de utilidade pública condenando ofensas homofóbicas nos esportes.

Cohen e Taylor estão indo muito mais longe.

Cohen, 32 anos, acabou de se aposentar de uma carreira no rugby que inclui um título mundial para a Inglaterra em 2003 e mais de uma década jogando no Northampton Saints. Apesar de ser casado e ter duas gêmeas de três anos e meio, ele têm grande repercussão entre seus fãs gays. “Eu presumo que eles provavelmente me vejam como um objeto sexual”, disse. Suas fotografias sem camisa certamente pouco efeito tiveram para diminuir sua popularidade.

Com o surto das mídias sociais nos últimos anos, Cohen – cuja página no Facebook foi “favoritada” por mais de 150 mil pessoas – começou a conhecer mais e mais relatos pessoais de fãs que se sentiram marginalizados por serem gays. Alguns afirmaram que abandonaram o esporte por causa do assédio, ou se sentiram envergonhados de ficar no armário, incapazes de encontrar apoio dos amigos, familiares e colegas de equipe. “Isto me faz chorar profundamente”, disse ele enquanto lia alguns e-mails em voz alta. Ele vestia uma camiseta em que se lia “Eu estou com Ben Cohen” e que incluía sua silhueta como logotipo.

Mas seu interesse pela causa é ainda mais pessoal. Em 2000, o pai de Cohen, Peter, foi agredido por vários rapazes do lado de fora de uma boate que era propriedade sua. Seu pai sofreu ferimentos graves, incluindo marcas de mordida no rosto, e morreu algumas semanas depois. Com essas experiências como pano de fundo, Cohen começou este ano o que ele acredita ser a primeira organização antibullying liderada por um atleta heterossexual preocupada em ajudar as comunidades de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Depois de duas recentes passagens pela Inglaterra, ele divulgará sua campanha em Washington, Atlanta, Sealttle e Nova Iorque nas próximas duas semanas. Além de criar suas filhas numa fazenda britânica, ele pretende tornar a Fundação sua prioridade agora que está aposentado. “Eu tenho algo a dizer. Isso pode significar pouco para mim,” afirmou Cohen, esperado como a celebridade que vai apresentar a Premiação da Aliança LGBT Contra a Difamação (GLAAD) em São Francisco no próximo sábado. “Mas essa mensagem pode ser muito importante para dezenas de milhares de pessoas.”

Taylor, 24 anos, encerrou uma gloriosa carreira como lutador em Maryland no ano passado e é técnico auxiliar na Columbia University. Na universidade, ele disse, ficou impressionado com a discrepância entre como os estudantes gays eram calorosamente aceitos em suas aulas de teatro e como ofensas homofóbicas eram facilmente lançadas a eles nos tatames de luta. Ele chamou a atenção do país quando colocou um adesivo da Human Rights Campaign em seu capacete. No começo do ano, lançou a Athlete Ally, pedindo que atletas de todas as idades assinassem o compromisso de ajudar a acabar com a homofobia no esporte. Milhares firmaram o compromisso. Taylor adiou os planos de frequentar o curso de direito e passa a maior parte de seu tempo palestrando em escolas, sobretudo em universidades.

Ele seguidamente pergunta às suas plateias se alguém ouviu, recentemente, alguém ou algo que foi ridicularizado como “gay”. Quase sempre, todos levantam as mãos, afirma ele. A maioria levanta a mão quando questionada se ouviu a expressão sendo utilizada como um insulto no último dia, disse Taylor. “Na cabeça de muitas pessoas, esse não é um assunto para os héteros”, afirma Taylor, que vai se casar com a namorada de longa data em setembro. “Esta é uma mentalidade que precisa ser superada.”

Taylor conta que atletas heterossexuais raramente envolvem-se com a questão porque eles não enxergam como ela os afeta. Ele chama isso de um problema do tipo “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”. Muitos atletas profissionais do sexo masculino, até onde sabem, não têm colegas gays. E as pessoas estão menos propensas a se engajar numa causa quando não têm ligação direta com ela.

“Como tornar isso pessoal?” Taylor pergunta. “Eis o desafio.” É a isso que Cohen e Taylor pretendem responder.

Na sexta-feira, os dois se encontraram para uma rápida conversa no apartamento em que Cohen está hospedado por algumas noites em West Village. Taylor havia acabado de dirigir vindo de Maine, onde palestrou na Bates College e conseguiu com que muitos dos atletas da universidade assinassem seu compromisso, na quinta à noite. Cohen estava se preparando para ir ao aeroporto para voar para São Francisco, onde será o “apresentador celebridade” da noite.

Seus caminhos se cruzaram, brevemente, enquanto ambos lutam separadamente pela mesma causa. “Adoro o que ele está fazendo”, Taylor afirmou durante o almoço na quarta-feira. “Nós precisamos de mais Ben Cohens neste mundo. Ele tem uma ideia que permite que esta mensagem vá mais longe e soe mais alto do que a minha. Nós precisamos que mais aliados em posição de prestígio se manifestem.”

________________________

¹ Os links na matéria são do original. O texto está cheio de verbos dicendi (como “disse” e “afirmou”) porque é uma reportagem típica, e preferi manter a linguagem do gênero. Além disso, só mantive a foto original também, sem acrescentar outras. Assim, há duas razões pelas quais alguns podem considerar a leitura um pouco enfadonha.

² Não vou dar os links, pois o caso, no fim, deu muita mídia a ele. Boa parte dos comentários (sozinho fiz mais de 70) foram meus e… bem, não sei se serviram muito.

* A palavra “wrestler” refere-se ao esporte que o COB chama de lutas. Pode designar tanto a modalidade livre quanto a greco-romana. Não consegui informações precisas quanto ao Hudson Taylor, por isso traduzi apenas por lutador.

Anúncios

Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 14 de maio de 2011, em internacional e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: