Um depoimento cristão


Hudson Taylor para a Human Rights Campaign. Foto: Dakota Fine/HRC Equality Magazine

Se você leu a tradução da reportagem de The New York Times que postei aqui no blog no sábado, certamente ficou tão feliz quanto eu em saber que há atletas heterossexuais explicitamente engajados na luta contra a homofobia. É um alento, uma esperança diante desta cotidiana guerra discursiva que temos que travar com os setores mais atrasados da sociedade brasileira.

Eu pretendia ir para outro tema na postagem de hoje (que era para ter sido ontem, domingo), mas quando assisti ao vídeo abaixo, não pude deixar de ficar ainda mais feliz. É de um dos atletas retratados na reportagem que publiquei aqui antes de ontem. O vídeo é curto e simplesmente incrível, primeiro pela história (religiosa) do atleta, depois porque ele é simplesmente um grande aliado.

Não só a mim, mas a muitos militantes do movimento LGBT, sempre incomodou certo silêncio (ou omissão) dos setores progressistas das denominações religiosas diante dos absurdos que os setores fundamentalistas comumente propagam pela mídia. É o caso da própria CNBB e de pastores como Silas Malafia e Marco Feliciano (este último também deputado). No fim, o que transparece é que esta minoria ruidosa representa, efetivamente, todo o corpo de fiéis de determinado grupo religioso.

Hudson e Lia, sua noiva, na campanha contra a Proposição 8, que baniu o casamento gay na Califórnia em 2008. Foto: Adam Bouska

Ao ver o depoimento do Hudson Taylor, revi sensivelmente esta minha posição. Penso, inclusive, que a última frase que ele profere no depoimento é tão expressiva que deveria produzir rubor em todos os cristãos que despendem quase todas suas energias e esforços em combater a diversidade de expressão sexual e ignoram aquele que seria o mantra de um seguidor de Cristo, o tal-amor.

Hudson Taylor foi um premiado lutador (wrestler), creio que de luta greco-romana, e hoje é assistente técnico da equipe de wrestling da Universidade de Colúmbia. Em setembro deste ano, como vocês poderão ver no vídeo, ele vai se casar. Sua noiva é estudante de direito e ambos têm pensamentos afinadíssimos. Observe o que ele declarou ao site Outsports no começo de 2010:

Minha noiva e eu somos feministas e temos um considerável problema com relação à adoção do sobrenome. Muitos casais hoje mantêm seus próprios sobrenomes, o que é ótimo e algo que temos considerado. Mas gostaríamos de ter o mesmo sobrenome. Poderíamos hifenizá-los. Mas nossos sobrenomes são os sobrenomes de nossos pais, que por sua vez são dos pais deles e assim por diante.

Mesmo que decidíssemos utilizar os nomes de solteiras de nossas mães, ainda estaríamos operando dentro de um sistema de nomes patrilinear. Consideramos bastante preocupante que nomes masculinos venham “etiquetando” as pessoas por séculos. Nomes matrilineares e sobrenomes sem base no sexo não existem na verdade. Então decidimos escolher o nosso próprio – novo, igualitário, nosso. Assim, poderemos compartilhar um nome que não perpetue a patrilinearidade. Meus pais ficaram desapontados no começo. Mas eu perguntei a eles: “Por que não há qualquer problema se minhas irmãs abandonarem o sobrenome delas para adotar o de seus maridos, mas todo mundo entra em pânico quando quero abandonar o meu sobrenome para adotar um novo com minha esposa?” Meus pais entenderam e, como sempre, estão nos apoiando.

Nossa atual escolha de sobrenome é Wilde (não de Oscar; mas de nossa futura filha, India Wilde).

Enfim, assistam ao vídeo (é curto, 4’49”). Ele foi produzido em setembro de 2010 para a Devote Campaign (Campanha Devoção ou Dedicação em tradução livre), que procura “histórias para produzir mudanças” em relação à comunidade LGBT. O vídeo em inglês está aqui. Eu o legendei em português para que pudesse ser compreendido por todos.

Se for para escolher uma mensagem cristã a ser ouvida, que joguemos no ralo as verborragias papais, as insanidades bolsonarianas e as torpezas malafaias, e fiquemos com a de Hudson Taylor.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 16 de maio de 2011, em internacional, vídeos e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Ficaram boas legendas, sei bem como isso é trabalhoso. Legal a história também. Abração

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