Palavras não ofendem


O deputado federal Jean Wyllys participou do programa Adnet Ao Vivo nesta quinta que passou, 19 de maio. Abaixo você pode conferir a primeira parte da conversa deles. Precisamente entre 5’10” e 6’20”, eles conversam sobre as diversas palavras que são utilizadas para se referir aos homossexuais na língua – desde gay e homossexual até bicha, viado, baitola, etc. O Jean fornece a explicação adequada para se pensar o assunto.

Quando o comentarista esportivo Rica Perrone escreveu seu texto sobre o exagero em torno do caso do jogador gay do Vôlei Futuro e, depois, outro em que tentou rebater as críticas que recebeu, eu me envolvi com os comentários em seu site – principalmente no segundo texto. E lá eu devo ter debatido o tema “as palavras ofendem ou não” dezenas de vezes. Era recorrente a manifestação de indignação de alguns diante do fato de que gays e seus amigos (gays ou héteros) pudessem utilizar palavras como bicha e viado e outras pessoas (héteros) não; indignavam-se com a acusação de homofobia que recebiam. Tudo isso porque ignoram – creio que finjam ignorar, porque não se consegue ignorar os sentidos da língua – algo prosaico: as palavras não ofendem.

Faggot (bicha em inglês), restaurante na cidade de Osaka (Japão). Ofensa? Foto: panduh sob licença CC.

Pretendia, aliás, retirar lá daquela caixa de comentários as diversas objeções que se fez e as explicações que forneci. Infelizmente, o Rica Perrone parece ter alguma política que some com a caixa de comentários depois de algum tempo (um mês talvez). Acho lamentável, pois seus textos eram tão ruins (naquele caso ao menos) que somente lendo os comentários (de vários, não só os meus) é que se podia extrair algo de positivo de tantas ideias rasteiras. Não tendo aqueles exemplos reais para utilizar aqui, faço uma reflexão mais geral.

Não é preciso estudar linguística e, especialmente, teorias discursivas para perceber que as palavras não têm sentido por si só. Elas são contextuais, e estes cenários são compostos por diversos elementos que nossa percepção capta rapidamente: quem fala, em que local, sob que entonação, com que gestual facial e corporal; ainda: se há um histórico relevante para compreender aquela fala, se as outras pessoas presentes na cena interferem na forma como a fala é realizada, etc. Assim, podemos dizer que as palavras não significam. Elas significam quando em uso – quando colocadas em discurso.

Poderia-se* objetar que, por exemplo, algumas palavras têm sentido evidente, quase axiomático: merda, então, seria algo sempre negativo. Ao lembrar que esta palavra é utilizada no meio artístico como sinônima de vibrações positivas, de desejo de boa sorte a um elenco, já temos uma pequena evidência de que não há um sentido-em-si, uma significação absoluta. Nesse caso, bastou um cenário diferente (meio artístico) para que o sentido do vocábulo merda fosse totalmente oposto a seu sentido usual.

Cássia Eller, Caetano Veloso e Vanessa da Matta (na foto) já emprestaram a voz à música "Eu sou neguinha" (de Caetano). Foto: reprodução.

Portanto, é precisamente por causa desta regra básica sobre o funcionamento de nossa língua que não existe qualquer problema no fato da comunidade LGBT utilizar palavras para se autorreferenciar que sejam, em geral, tomadas como ofensivas. E não é uma decorrência direta disso a possibilidade de que qualquer pessoa possa, então, utilizar estas mesmas palavras em quaisquer contextos. Não é, evidentemente, uma proibição ao uso; antes, uma clarificação de usos e intenções.

Um exemplo clássico que está no universo do racismo é a frase a seguir – que utilizei, inclusive, nas argumentações lá no site do Perrone:

Que tá olhando neguinho safado?

Essa frase, per se, é ofensiva? Quando estudamos interpretação textual (lá nos idos do Ensino Fundamental ou 1º grau como se dizia), aprendemos que sem um conjunto de elementos a interpretação pode ser falha. Ou, como resume o bordão, fala sem contexto é pretexto. Justamente: pretexto para confusão ou interpretações equivocadas. Pensemos em dois cenários com seus respectivos elementos constitutivos.

No primeiro, temos um homem (ou uma mulher) que sai de um restaurante; paga a conta e dirige-se a seu carro; nota que, na calçada, um rapaz negro está parado; ambos se olham; passa-se um tempo em que permanecem fitando um ao outro; então o homem (ou a mulher) profere a frase, que não é nem bem uma pergunta apesar da entonação: que tá olhando neguinho safado?

No segundo cenário, temos uma jovem mulher negra que limpa a cozinha de sua casa; na sala, seu marido assisti a um programa qualquer; de soslaio, enquanto escova o chão de joelhos, repara que o marido olha sensualmente para suas pernas e bunda; fingindo indignação, solta a frase: que tá olhando neguinho safado?

Queer ("estranho") ressignificado: nós estamos aqui, nós somos gays, acostume-se com isso. Foto: reprodução.

Poderia complexificar cada um dos cenários para que, inclusive, os sentidos já claros, agora, fossem mais uma vez modificados. No primeiro caso, o rapaz negro poderia ser um assaltante ou poderia estar aguardando a namorada. O homem que se irrita poderia estar desconfiado de um assalto ou ser um racista convicto – e ele poderia ser tanto branco quanto negro, pois não informei isso. As possibilidades, portanto, são infinitas, e cada elemento é importante para compreender (interpretar) o preciso sentido daquela enunciação. O próprio adjetivo safado poderia ser pensado sob vários enfoques dependendo da situação.

Percebemos, portanto, que um mesmo conjunto lexical e com a mesma disposição sintática – ou seja, as mesmas palavras com as mesmas funções dentro daquela oração – possuem significações variadas dependendo do contexto de enunciação: pode ser uma ofensa explícita ou uma falsa e sensual reprimenda. Importam, sim, os que falam, quem ouve, os sentidos pregressos que podem estar envolvidos naquela enunciação (na escolha de certas palavras e não na de outras), enfim, uma infinidade de elementos concorrem para a construção de um sentido.

É por isso, então, que as palavras não são pejorativas ou elogiosas por si mesmas. Tendo isso claro, poderia construir vários cenários para frases como Ei, sua bicha ou Sai fora, viado em que tais construções seriam ofensivas ou não dependentes exclusivamente de quem fala e em que situação específica. Posto isso, uma advertência precisa ser feita após este ponto.

Identificação nazista para homossexuais. Foto: reprodução.

A homofobia – tal qual o machismo e o racismo – possui um histórico que não se apaga diante de nossos enunciados; ao contrário, ele subjaz os discursos que circulam socialmente, é o background significativo que dimensiona em que lugar do grande fluxo de discursos sociais uma dada frase vai se alojar. Assim, não se pode ignorar que há uma histórica, contínua e persistente discriminação contra a população LGBT em todas as nações de nosso planeta. Tal história está presente nos discursos odiosos e também nos discursos que tentam ressignificar palavras odiosas – não só palavras, como também símbolos. Exemplo notório é o triângulo rosa, que está presente em identidades visuais de várias organizações contra a homofobia mundo afora, e que serviu como identificador daqueles que eram homossexuais durante o período nazista.

Feita a advertência, retorno ao ponto anterior: uma frase que contenha as palavras gay, bicha, viado, baitola (e tantas outras) não pode ser avaliada sem seu contexto de emissão original sob pena de atribuirmo-la sentido diverso daquele pretendido. É pela característica cambiante da língua que algumas emissões são complexas de serem avaliadas quanto ao que pretendem – no humor, por exemplo, isso é recorrente.

"Pecado gay", cartaz da Westboro Baptist Church, grupo religioso radical dos EUA. Foto: k763 sob licença CC.

A regra de ouro na utilização de vocábulos carregados de história negativa – como é o caso de palavras que são utilizadas, tradicionalmente, para ofender homossexuais – é a relação que temos com aqueles a quem nos referimos (seja a pessoa em si ou sua característica, a homo/bi/transexualidade nesta reflexão): amigos e colegas de LGBTs comumente utilizam tais expressões sem qualquer problema. O homossexual que é assim referido na língua sabe quando se tenta ofendê-lo ou não porque percebe os elementos que estão constituindo aquele sentido.

Eu sei que amigos me respeitam e que lidam bem com a minha homossexualidade. Percebo, portanto, quando uma ofensa está inscrita na fala daquele amigo mais distante. Não raro soube de colegas que, na minha frente, nunca disseram nada que os pudesse identificar como homofóbicos – talvez, entretanto, um silêncio contínuo diante do tema fosse indicador de que algo incomodava. Entretanto, na presença de outros, proferiam ofensas homofóbicas – e alguém, dentre esses outros, sendo meu amigo… – sem muito pudor.

Há outras nuanças mais complexas da relação entre pessoas e certos vocábulos, e muitas vezes isso reflete uma experiência negativa com alguma palavra. Eu não utilizaria neguinho ou pretinha com um amigo/a negro/a com quem não tivesse intimidade; mais que isso, é importante saber como ele/ela lida com esta palavra no seu cotidiano e na sua história enquanto negro/a. Sei de amigos gays que não gostam de palavras como bicha, baitola e mesmo viado. É um direito, e penso que na ponderação entre o mais carinhoso sentido que se atribua a uma palavra ao falar e a opinião de alguém que não se sinta bem diante dela, este segundo elemento deve preponderar. Com aquele amigo, não a utilizarei. É uma decisão que denota respeito por sua trajetória e a forma como (bem ou mal) lida com certas chagas.

* Lembrando a polêmica vazia em torno do livro didático do MEC que “ensina a falar errado” (sic), nem na escrita relativamente formal de um blog eu utilizo a mesóclise preconizada pela gramática normativa: poder-se-ia é, para mim, pedante e nada eufônico; outros exemplos podem ser colhidos no texto, principalmente em casos de colocação pronominal e de contrações “inadequadas”.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 23 de maio de 2011, em homofobia, reflexões e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Luiz, maravilhoso o texto e teu blog está muito bonito! Parabéns!!

  2. Lu, querida, obrigado pela visita. Agradeço o comentário. Manter um blog ativo dá um trabalho danado né, mas é o jeito, rsrs. Beijão.

  3. Adorei o texto, muito bom. Meu tcc fala sobre a linguagem do bullying e o porque as palavras ofendem. Ajudou muito. Parabéns

  4. Enquanto vc não escreve os textos que vou encomendando pelo twitter eu vou apreciando os que já estão prontos.

    Pois é, tá tudo muito bem colocado, mas me fez lembrar um amigo (muito mais do que amigo) e que portanto não tinha como duvidar do sentido carinhoso quando o chamava de bicha, mas que mesmo assim ele não aceitava de jeito nenhum.

    Há gays que resistem muito ser referenciado com essas palavras porque elas trazem uma carga muito forte de ofensa impregnada.

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