Um militar gay anônimo


"Não ficaremos em silêncio": oposição à política de silêncio sobre a homossexualidade no exército dos EUA. Foto: reprodução.

Desde o final de 2010, os Estados Unidos derrubaram uma política homofóbica que já tinha quase duas décadas de existência. A famosa lei Don’t Ask, Don’t Tell (Não Pergunte, Não Fale), de 1993, que tornava a homossexualidade invisível dentro das Forças Armadas do país. Assim, gays,  lésbicas e bissexuais podiam ser militares, contanto que não falassem disso enquanto serviam. Enfim, que fossem homossexuais cujas homossexualidades eram invisíveis em seus ambientes de trabalho.

Ao longo da vigência desta política, mais de 14 mil militares foram dispensados das Forças Armadas dos EUA. Durante a campanha eleitoral de 2008, o então candidato Barack Obama prometeu que daria fim a esta política. A queda de braço foi grande no Congresso estadunidense, mas, enfim, a lei foi revogada.

Eis que entra em cena o já arquetípico recurso da imprensa dos EUA aos relatos de fontes anônimas (Deept Throat) como forma de tornar públicas tantas e tantas informações e questões que dependem deste anonimato. Um jovem militar gay do país (Officer X), ainda não assumido dentro do Exército, passa a escrever uma coluna sobre como a revogação desta lei está sendo trabalhada dentro da caserna. A breve matéria é do blog da GLAAD (Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação).

Revista Time apresenta o anônimo “Officer X” para discutir o avanço do fim da política DADT

Antecipando-se à revogação da política “Não Pergunte, Não Fale” (DADT) que, felizmente, vai ocorrer até o final deste verão, a revista Time está lançando uma coluna escrita pelo Officer X – um integrante gay anônimo das Forças Armadas – sobre suas experiências e a reação ao processo de “reeducação”.

O objetivo da coluna é oportunizar a visão de um membro LGB das Forças Armadas que ainda está na ativa. “Eu recebi a oportunidade de compartilhar minhas experiências do lado de dentro e em primeira mão enquanto assisto à queda de uma política que é inegavelmente discriminatória… Ao postar neste blog, meu desejo é compartilhar o entusiasmo sentido por cada militar gay e lésbica à medida que esta carga de mentiras, histórias encobertas e vidas duplas são deixadas para trás”, escreveu o anônimo militar. O blog é singular porque exprime o silêncio que membros gays, lésbicas e bissexuais das Forças Armadas ainda enfrentam enquanto esperam pela implementação oficial do fim da política DADT.

Em seu primeiro post da série, Officer X examina como os diálogos cotidianos entre as tropas estão sendo afetados pelas mudanças oficiais. “Enquanto o ‘objetivo do treinamento’ foi alcançado naquele dia, a real ‘reeducação’ não teve espaço naquele local. Em quase todas as situações, quando alguém fazia um comentário homofóbico, o problema era autopoliciado,” Offixer X assinala. O texto inclui comentários tanto sobre as experiências do próprio militar e as dos demais colegas durante as capacitações quanto acerca dos permanentes esforços que ele faz para esconder sua orientação sexual.

A política “Não Pergunte, Não Fale” foi implementada em 1993 pelo Presidente Bill Clinton e proibia que membros gays, lésbicas e bissexuais das Forças Armadas tornassem suas orientações sexuais públicas enquanto serviam. O Senado votou pelo fim desta lei na metade de dezembro de 2010, depois que 14.000 pessoas já haviam sido demitidas pela lei. O Presidente Barack Obama assinou a suspensão da lei em 22 de dezembro de 2010, mas o Presidente e outras autoridades devem se certificar de que as Forças Armadas estão preparadas antes da mudança entrar em vigor realmente.

De acordo com o site Media Bistro, Officer X é um jovem piloto que vai revelar sua identidade uma vez que a exoneração de militares abertamente gays esteja de fato findada. (A primeira frase do blog dele revela que é um homem gay.) A coluna é publicada no blog Battleland (sobre estratégia militar) na revista Time, e você também pode acompanhar Officer X pelo Twitter seguindo @TIMEOfficerX.

GLAAD celebra esta iniciativa da Time de contar a história de um militar gay a partir de uma nova perspectiva.

O twitter do jovem militar foi criado há poucos dias e lá podemos perceber o quão entusiasmado ele está. O primeiro texto do blog foi publicado no dia 23 de maio, há quase duas semanas – o segundo entrou no ar dois dias depois, em 25/05. Lendo o primeiro texto, fica visível que o assunto é delicado porque, penso eu, uma política repressiva oficial (legal) que durou tanto tempo produziu efeitos profundos tanto nos militares gays quanto nos heterossexuais. O piloto começa o texto da seguinte forma:

Que momento incrível para ser um homem gay no Exército dos EUA. Neste mesmo período, no ano passado, eu estava certo de que a política “Não Pergunte, Não Fale” (DADT) estava aqui para ficar ainda pelos próximos 2 ou 3 anos.

Ele também relata algo que já sabemos há muito tempo: a importância de se poder ser integralmente o que se deseja ser, não importando o ambiente. O “fracionamento identitário” que a homofobia social produz nos gays faz com que muitos engavetem a orientação sexual como se fosse uma parte menor – e destacável – de suas essências. Notadamente uma mutilação do eu.

Como um jovem militar homossexual que está atualmente na ativa, tenho esperado há anos pelo dia em que poderia chegar no trabalho e não ter que mentir sobre o que fiz no final de semana ou sobre a maioria do tempo que passei com meu grupo de amigos gays.

Por fim, ele também relata o momento em que seus superiores começaram a introduzir o tema na caserna, seguindo a decisão do governo, e de como ele reagiu a isso.

Como vocês sem dúvida devem imaginar, eu estava ansioso para ouvir o que meus superiores tinham a dizer sobre a revogação da lei. Tal como ocorre em qualquer conversação sobre gays num cenário em que não sou assumido, eu me peguei recorrendo a velhos mecanismos de defesa. Eu tentava sorrir, mas não muito explicitamente. Eu ouvia atentamente enquanto procurava transparecer como se estivesse prestando muito pouca atenção.

Você pode ler todo o primeiro texto do Officer X aqui. A segunda postagem está aqui, e ela é particularmente interessante porque retrata alguns conflitos que as capelas militares já estão criando em relação aos gays nas Forças Armadas.

Creio que esta iniciativa da Time seja muito produtiva e interessante. Ao resguardar a identidade do jovem que relata sua vida dentro das Forças Armadas, a iniciativa permite que se reflita sobre como uma mudança desta ordem (presumindo-se o modo como o tema é tenso nos EUA, é uma mudança de grande ordem) vai afetar a vida de milhares de LGB que “servem” àquele país.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 2 de junho de 2011, em internacional, Tradução e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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