Ateísmo na Parada Gay


AutoraGreta Christina

FonteGreta Christina Blog

Tradução e IntroduçãoLuiz Henrique Coletto

A tradução do texto abaixo foi publicada originalmente no Bule Voador em 2 de julho. Como o tema também versa sobre a comunidade LGBT, resolvi publicá-lo aqui no Queer and Politics.

Logo da Associação Humanista LGBT (GALHA). Foto: Galha site.

Este texto, escrito pela estadunidense Greta Christina, foi publicado ontem no blog dela, cujo nome é homônimo. Ao contrário do que os incomodados com a pauta LGBT aqui pelo Bule poderiam pensar, não é um texto sobre sexualidade. É sobre ateísmo. E a reflexão é, a meu ver, genuinamente humana porque reflete as angústias que Greta vai expondo ao relatar a experiência que teve na Parada do Orgulho LGBT de São Francisco no dia 24 de junho deste ano. O mais interessante é que ela pondera, coteja argumentos que nos levam de um lado para o outro no desenrolar das ideias. E o faz para refletir sobre seu ateísmo; de certo modo, sobre o que seria intrinsicamente parte do ateísmo. Concorde-se ou não com ela, é uma reflexão incrível.

Greta é escritora profissional e aborda temas como ateísmo, sexualidade, questões LGBT, política e cultura. É uma das blogueiras ateias mais conhecidas, lidas e respeitadas da blogosfera dos Estados Unidos. É correspondente do AlterNet (revista política digital com mais de 1,2 milhão de acessos semanais, textos dela aqui). Suas reflexões já foram publicadas no Skeptical InquirerChicago Sun-Times e na antologia Tudo que você sabe sobre Deus está errado. Por fim, Greta mantém seu blog desde 2005, mora em São Francisco e é casada com Ingrid.

Antes de passar ao texto, quero ressalvar que, devido ao alto número de expressões sui generis do inglês, foi preciso fazer algumas adaptações, mas que não comprometem o sentido. Também tentei manter certa coloquialidade que está no original, mas nem sempre foi possível. Em alguns casos, acrescentei links externos para auxiliar na compreensão de alguma expressão. A maioria dos links, entretanto, é do texto original – e estão em inglês. Eles são importantes porque remetem a diversas opiniões da autora – sobre a historicidade de Jesus, por exemplo -, mas, infelizmente, só estão em inglês.

Ateus na Parada do Orgulho LGBT: alguns apontamentos sobre grosseria e integridade

Como ateístas podem ser cordatos e amigáveis com crentes – particularmente com aqueles que estão ativamente representando as crenças que professam – ao mesmo tempo em que mantemos nossa integridade quanto ao nosso ateísmo?

No último domingo, marchei na Parada do Orgulho LGBT de São Francisco junto ao grupo de ateus (acolhido pelos Ateus de São FranciscoAteus de East Bay e Advogados Ateus de São Francisco). Foi um dia incrivelmente divertido (mesmo com a parte “matando tempo por umas 3 horas até a nossa vez de entrar na Parada“). Éramos uns 50 no grupo: uma galera heterogênea muito divertida e maravilhosa, e sair e marchar com eles foi espetacular. E nós fomos recebidos com muito amor e apoio pelo povo que assistia à parada: desde genéricos “Uhuuulll” até desabafos intensos e emocionados. (Também recebemos certas caras indiferentes, olhares de susto e a esperada porção de resistência – mas o que mais recebemos mesmo foi afeto e apoio.) Foi muito gratificante e mais divertido do que um barril de “narwhals” [filhote de baleia com unicórnio, ou seja…]. Foi uma diversão, pois nós estávamos formidáveis!

Entretanto, como os grupos nesta Parada são organizados por tema, nós acabamos marchando logo atrás dos diversos grupos gays religiosos: a Igreja da Comunidade MetropolitanaDignidade (a organização gay Católica), o grupo gay evangélico cujo nome eu não lembro e outro que estava no carro alegórico com um aro-íris gigante atravessado no meio. (Eu gostaria de ter lembrado de tirar uma foto.)

Isso significa que as mais de três horas em que ficamos parados por lá esperando nossa vez de entrar na Marcha foram gastas bem pertinho desses grupos religiosos.

Situação esta que colocava um desafio ético: como posso ser cordata e amigável com crentes – particularmente com aqueles que estão ativamente representando as crenças que professam – ao mesmo tempo em que mantenho minha integridade quanto ao meu ateísmo? O princípio básico – respeitar as pessoas e tratá-las com cortesia e dignidade ao mesmo tempo em que se mantém o direito de criticar e mesmo desrespeitar ideias – é simples na teoria… mas como isso se dá na prática?

Quero ser bem clara agora: falo apenas por mim. Não estou falando por nenhuma das organizações que receberam o grupo ateu na Parada do Orgulho LGBT, ou por qualquer um dos outros que participaram dela. Os raciocínios e decisões que estou descrevendo aqui são inteiramente meus.

Então essa era a situação: muitos dos que estavam nos grupos religiosos quiseram ser amigáveis e fazer bonito com os ateus. Muitos nos sorriram e acenaram; quando os grupos deles estavam passando por nós para entrar na Parada, muitos deles nos acenaram e aplaudiram. Alguns até tomaram atitudes mais diretas: uma mulher do grupo gay evangélico veio até nós para falar sobre o cartaz de David Byers “Levítico Diz… Que se foda“, e sobre como ela concordava com aquilo e sobre como aqueles evangélicos homofóbicos de direita estavam deturpando totalmente a verdadeira mensagem de Deus e como, no fim, tudo diz respeito ao amor.

Bacana, não?

Certo… bem, aí está o problema.

Nós últimos anos, eu mantive muitos, vários diálogos com religiosos progressistas, tolerantes e ecumênicos acerca do ateísmo. E minha experiência mostra que a tolerância deles com ateus termina rápido quando nós efetivamente começamos a discutir ateísmo. Uma vez que eles percebem que ateus não concordam com nenhuma religião – mesmo a deles; uma vez que eles percebem que nós estamos, na verdade, familiarizados com as versões progressistas e inclusivas da religião, que isso não é novo para nós… e que nós ainda assim não acreditamos; uma vez que eles entendem que a razão pela qual somos ateístas não é por que achamos religião hostil e ruim, mas por que nós achamos que ela não é, enfim, verdade; uma vez que eles percebem que a atitude de muitos ateus diante de religiões ecumênicas progressistas é “beleza, é menos mau do que as que pregam ódio, fanatismos de extrema direita, mas ainda assim dá crédito à ideia de que está tudo certo em acreditar no que seja que lhe apraz sem nenhuma boa evidência que sustente essa crença” – e o mais importante: isso continua sendo totalmente errado.

Uma vez que eles compreendem isso, a ideia pró-ateísta de “união” conforme Kumbaya [música espiritual negra pela união dos humanos] desaparece num instante.

Não é encenação ou falsidade, na verdade. Penso que os crentes são sinceros quanto a isso. A questão só não é analisada mais detalhadamente. Em muitos casos, eles nunca falaram realmente com ateus sobre nosso ateísmo. Então eles fazem suposições sobre o que pensamos deles… suposições estas que não são verdadeiras geralmente. Eles presumem que somos tão acríticos na aceitação de religiões ecumênicas progressistas quanto tais religiões são umas com as outras [acríticas na aceitação]. Eles assumem a ideia de que nossa oposição às religiões é simplesmente oposição ao fanatismo e ódio das versões mais conservadoras da religião… e não que tal oposição é à ideia total de crença em entidades sobrenaturais invisíveis. Supõem que as crenças particulares deles têm o Selo Ateu de Aprovação. E quando eles descobrem que estão enganados… aí a atitude de aprovação ao ateísmo [Thumbs-Up] tende a desaparecer na neblina.

E foi muito difícil ver os sorrisos, aplausos e “thumbs-up” na Parada do Orgulho LGBT, e não lembrar de todos aqueles diálogos. Foi muito duro ver os sorrisos, aplausos e “thumbs-up” e não pensar “eu sei como este papo termina”. Enfim, foi muito difícil ver os sorrisos, aplausos e “thumbs-up” e não pensar que, no fim das contas, aquilo era besteira.

Eu não queria entrar em discussão. Ou melhor… eu realmente queira entrar em discussão. Muito mesmo. Quando a mulher que estava tentando fazer bonito conosco disse que a direita religiosa homofóbica entendeu a mensagem de Deus errado, eu absolutamente quis perguntá-la: “Certo, então você acha que a direita religiosa homofóbica está entendendo a mensagem de Cristo de forma errada. Como você sabe que você a está entendendo corretamente? Que razão você tem para pensar que você, pessoalmente, sabe o que Jesus realmente quis dizer, e que todos estes outros idiotas têm entendido isso errado? Eles pinçam trechos da escritura para sustentar a posição deles; você os pinça para sustentar as suas – como você sabe que as suas “partes” são as que Jesus aprovaria? Ah, e enquanto estamos no assunto: antes de tudo, que evidência você tem para acreditar que Jesus é o filho divino de Deus? Você está ciente do quão ridiculamente não confiável é o Novo Testamento como documento histórico? Você está familiarizada com os argumentos de que o Jesus histórico provavelmente nem mesmo existiu, e que a hipótese dele ser o filho divino de Deus é uma piada completa?” Para falar a verdade, eu estava meio que me coçando para fazer isso. Eu estava me contendo de ansiedade.

Contudo, também sentia que aquilo seria inapropriado. Não era a hora nem o local. Não era um debate ou um editorial ou uma discussão num blog ateu. Era a Parada do Orgulho LGBT. Um momento de celebração – não um momento para discórdia. Além do mais, a razão pela qual eu estava lá era para divulgar uma imagem de felicidade, contentamento, e apoio aos gays por parte do ateísmo em relação à comunidade LGBT… e não para entrar numa disputa vazia. Então eu sorri sem muito ânimo, murmurei vagamente sem me comprometer e pulei fora da conversa o mais graciosamente que pude.

Fato que ainda assim fez eu me sentir grosseira. Quando as pessoas estão estendendo a mão e dizendo “Somos todos irmãos e irmãs”, soa grosseiro dar de ombros e responder “Aham, nem tanto assim”.

O mesmo ocorreu quando os grupos e carros alegóricos religiosos passaram por nós e aplaudiram. Eu senti como se eles estivessem nos dizendo “Ok, nós acreditamos em Deus – mas não somos como aquelas outras religiões negativas! Nós achamos que ateus são legais. Vocês não acham que somos legais também?” Eu senti como se eles estivessem nos pedindo pelo Selo Ateu de Aprovação. Eu senti que eles estavam esperando que os aplaudíssemos de volta. E eu me senti grosseira por não ter feito isso.

Mas posso ser sincera? Não posso aplaudir religião. Simplesmente não consigo. Acho que religião é uma ideia tremendamente equivocada sobre o mundo. Penso que é uma ideia que, no todo, traz significativamente mais prejuízos do que benefícios. Tenho dedicado minha carreira como escritora à persuasão para que as pessoas deixem a religião. Eu posso ser amigável e respeitosa com os crentes… mas não vou expressar minha aprovação às crenças.

E numa cultura – como a progressiva cultura LGBT – em que aceitação acrítica de diferentes crenças religiosas é parte do padrão de etiqueta, eu não sei como manter minha integridade sem parecer irritante, intolerante e grosseira.

Ateus falam muito sobre os paralelos entre o movimento LGBT e o movimento ateísta. Eu mesma falo muito disso. Mas acho que nós precisamos lembrar de que, mesmo com as semelhanças entre os dois movimentos, há algumas diferenças importantes. E uma das maiores é essa: não há nada em dizer “Eu sou viado” que implique “Você está equivocado por ser hétero”. Mas há algo no fato de dizer “Eu sou ateu” que implica “Você está errado em crer em Deus”. Sair do armário e assumir-se gay é uma decisão subjetiva acerca do que é verdadeiro para sua personalidade. Sair do armário e assumir-se ateu é uma asserção acerca do que você considera ser verdadeiro sobre o mundo externo. Quando nós nos assumimos como ateus, não estamos apenas dizendo o que é verdadeiro para nós. Estamos dizendo aquilo que achamos ser verdadeiro no mundo. E como implicação, estamos dizendo que pessoas que discordam de nós estão erradas. Ainda que nós não estejamos ativamente tentando persuadir as pessoas a deixarem a religião – ora, mesmo se nós não damos a mínima se a pessoas acreditam nas religiões ou não -, nós ainda estamos afirmando que achamos que a religião é errada.

Precisamos lidar com isso.

Temos que reconhecer que, para os ateus, sair do armário é diferente de como o é para os gays. Precisamos reconhecer que, para os ateus, mesmo as mais gentis e menos conflitivas “Não acredita em Deus? Você não está sozinho” formas são, em verdade, ainda conflitivas. Não só por que as pessoas não querem ouvir isso; não apenas por que a etiqueta convencional demanda que não digamos isso. É porque é isso. Porque estamos dizendo às pessoas que elas estão erradas.

Penso que temos que aceitar isso. E acho que precisamos nos responsabilizar por isso.

Há muitas formas diferentes de dizermos isso. Podemos dizê-lo dum modo gentil e diplomático “Você pode ser bom sem Deus”. Podemos dizer isso de modo sarcástico e na cara “Você sabe que isso é um mito”. Nós podemos dizê-lo vagamente, num estilo declaração factual “Provavelmente não há nenhum Deus”. Há espaço tanto para o confronto quanto para a diplomacia no movimento ateu, e, na verdade, o movimento é mais forte com ambos os métodos do que seria apenas com um ou outro.

Enfim, acho que precisamos aceitar que isso será sempre um ponto difícil. Penso que temos que aceitar que sermos honestos quanto a quem somos e ao que pensamos sempre irá atiçar alguns. Acho que precisamos aceitar que provocar alguns desconfortos não é a pior coisa que seres humanos podem fazer uns aos outros. Não está nem mesmo na lista dos 10 mais. E acho que temos que aceitar que assumir que somos ateus, e manter nossa integridade como ateístas, poderá sempre ser visto – e sentido – como um pouco grosseiro.

Porque é. E temos que lidar bem com isso.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 2 de julho de 2011, em internacional, Tradução e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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