Cidades gays ou a homossexualidade urbana


Também publicado em Bule Voador.

Empire State Building: signo da metrópole Nova Iorque sob as cores da bandeira gay. Foto: reprodução.

Neste artigo, faço uma reflexão acerca da relação que os homossexuais – enquanto indivíduos e como grupo social – estabeleceram com as grandes cidades como forma de própria constituição de suas homossexualidades. Num mesmo sentido, como forma de vivência deste desejo e, na acepção moderna, desta identidade. Penso que o ambiente urbano, como espaço de confluência de múltiplos contextos vivenciais pessoais, propicia uma interação (forçosa em alguns casos) e uma convivência com as diversidades advindas desses múltiplos contextos individuais. Assim, a cidade torna-se, progressivamente – notadamente desde meados do século XIX –, o lócus ideal para que um desejo sexual vigado e reprimido possa passar mais despercebido.

Diante do que proponho, é necessário tecer algumas considerações mais específicas acerca das variáveis que colocamos em cena. De um lado, o homossexual (e sua homossexualidade); de outro, a cidade como expressão do urbano e do moderno – portanto, em oposição ao campo e ao rural; e também num sentido específico diverso daquele das cidades da Antiguidade grega, por exemplo. Essas duas variáveis vão revelar uma relação que ouso chamar de intrínseca, respeitando, evidentemente, o tempo histórico: talvez nos últimos dez anos, em alguns contextos, a relação de “dependência” entre a homossexualidade e a cidade tenha se enfraquecido; muito provavelmente diversas cidades de médio e pequeno porte tornaram-se ambientes possíveis para uma vivência “saudável” e “assumida” do desejo homossexual de forma pública. Assim, o que se está enfocando aqui é uma relação historicamente constituída, ainda pertinente na maioria dos contextos sociogeográficos, e que sintetiza uma gama de questões muito ampla na ideia de que a cidade foi e é um lugar de fuga para os gays. Nas palavras do filósofo Didier Eribon “a cidade sempre foi o refúgio dos homossexuais”. [1] Importante é o fato de que foi justamente a combinação entre ambiente urbano e homossexualidade (dentro de movimentos sociais especialmente) que propiciou mudanças culturais mais profundas que impactaram, por extensão, na própria visão da homossexualidade em contextos não urbanos e não metropolitanos.

Homossexualidade e modernidade: origens identitárias

A homossexualidade, enquanto desejo afetivo-sexual, é tão antiga quanto possa ser a história da humanidade. Suas práticas, seus códigos de conduta, as vivências desse desejo, entretanto, são inúmeras e variaram historicamente em função de múltiplas combinações tais como estrutura social, tradição moral e religiosa e aspectos geográficos. O que quero assinalar neste artigo não é essa história. A inscrição de nossa abordagem é bastante recente, porque diz respeito a uma noção de homossexualidade enquanto marcador identitário que era absolutamente inexistente (até onde a historiografia socioantropológica do tema parece indicar) em outros tempos anteriores à modernidade – para efeito didático, diríamos que até meados do século XIX. Assim, para estabelecer a relação que proponho entre gays e cidades, tal recorte temporal específico precisa estar estabelecido, em função, inclusive, do próprio fato de que as cidades de que trato são expressão da modernidade (pós-declínio do feudalismo e adensamento do poder da burguesia e dos ofícios em contextos urbanos).

Os termos homossexual e homossexualismo surgem, enquanto registros escritos, na segunda metade do século XIX na literatura médica (TREVISAN, 2000), o que indica, genericamente, o processo de nascimento da homossexualidade, do ponto de vista teórico, para as sociedades ocidentais. No princípio do século XX, com a constituição mais efetiva de vários campos das ciências humanas e sociais, as discussões sobre sexualidade e suas “manifestações desviantes” expandem-se para uma série de outros campos como a antropologia, a psiquiatra e a psicologia. Como processo inserto em dado momento da evolução econômica e política das sociedades, o sexo e a sexualidade (e, por conseguinte, as “confissões” de suas práticas e de seus “desvios”) passam a ser objeto de manuseio dos Estados. Diz-nos Foucault: “surge a análise das condutas sexuais, de suas determinações e efeitos, nos limites entre o biológico e o econômico”. [2] É preciso notar, entretanto, a estreita vinculação da sexualidade às questões reprodutivas, médicas, psicanalíticas e religiosas, o que não permitia identificá-la como um campoautônomo como seria hoje segundo Heilborn (1999). A socióloga Míriam Adelman entende que as sexualidades passam a ser marcadores (juntamente com outros) de um processo de produção de identidades sexuais a partir de 1850, quando “[…] iniciou-se um processo de intensa politização da sexualidade, que de fato levou à criação das identidades sexuais modernas […]”. [3]

Heilborn, referindo-se ao foco que o sociólogo Anthony Giddens da à intimidade na era moderna, afirma que a sociedade ocidental, no final do século passado, “elegeu as questões afetas à intimidade, à vida privada e à sexualidade como centro da reflexão sobre a construção da pessoa moderna”. [4] Percebe-se, então, o fio histórico que delineia o surgimento e crescimento da sexualidade enquanto objeto de estudo das ciências humanas e sociais (não só delas, é claro): neste último século, as questões de gênero e de liberação homossexual foram centrais como processos de emergência de rupturas nas noções de família, gênero e sexo, intimidade, sexualidade e do próprio modelo patriarcal, conforme Castells (2006). O sociólogo francês Michel Bozon perfaz uma reflexão histórica acerca do tema “sexualidade” em uma de suas obras. Com o objetivo de sintetizar e clarear mais detidamente o que tenho frisado até aqui, faço uso de suas reflexões, de modo cronológico do ponto de vista dessa evolução quanto a uma “ciência da sexualidade” (sexologia). Diz-nos Bozon:

A emergência de uma subjetividade e de um sujeito modernos foi acompanhada pela autonomização de um domínio da sexualidade distinto da ordem tradicional da procriação. O recalcamento progressivo das funções corporais e das emoções no decorrer do processo civilizatório, o aumento da reserva e da distância entre os corpos e o aparecimento de uma esfera íntima protegida e apoiada em fortes relações interpessoais juntaram-se a uma vontade de saber e a um desejo de interpretar os movimentos secretos do corpo […]. Assim, as trajetórias e as experiências sexuais, amplamente diversificadas nos dias de hoje, tornaram-se um dos principais fundamentos da construção dos sujeitos e da individualização. [5]

No campo da primeira sexologia, os termos homossexualidade e sexualidade surgiram quase ao mesmo tempo. Na ciência classificatória da sexualidade recém-estabelecida, a homossexualidade faz parte das perversões, mas, ao contrário de outras “espécies” do século XIX que permaneceram como extravagâncias sexuais (necrofilia, gerontofilia), essa categoria vai se implantar de maneira durável e, como forma canônica da transgressão,contribuir para reforçar as fronteiras da normalidade sexual. [6]

Essa discussão está presente também numa série de trabalhos [7], dos quais citamos os de Foucault (1988) e Trevisan (2000) pela profundidade dos aportes histórico-conceitual e histórico respectivamente. Esses processos que Bozon destaca são, naturalmente, assimétricos em termos políticos, geográficos e sociais, ocorrendo em correlação com outras mudanças características da sociedade moderna. Entretanto, do ponto de vista de um movimento civil pela diversidade (e liberdade) sexual, há relativo consenso (ao menos por razões sintetizadoras e didáticas) de que sua prevalência enquanto fenômeno socialmente reconhecido, no Ocidente, dê-se a partir dos anos 60 de modo contínuo – claramente vinculado a outros movimentos contestatórios como o feminista e o estudantil. Essa inscrição histórica é relevante porque vai dar espaço aos grandes lócus que a história do movimento gay (calcada no urbano) eternizou: São Francisco, Paris, Berlim, Nova Iorque, etc. Retomarei esta questão adiante.

Na passagem das décadas de 1960 a 1980, dois grandes acontecimentos sociais são relevantes para pensar a sexualidade: o desenvolvimento dos métodos contraceptivos – na esteira do feminismo e da revolução sexual e de costumes – e o surgimento do vírus HIV epidemicamente nos anos oitenta. Tais fatos “deram novo impulso às investigações sobre os sistemas de práticas e representações sociais ligados à sexualidade, constituindo-a como um campo de investigação em si, dotado de certa legitimidade”. [8]Este primeiro desses acontecimento torna-se muitíssimo pertinente para a discussão feminista e de descentramento do homem na gestão do sexo conjugal e, em geral, do próprio patriarcalismo; já o surgimento do vírus HIV de modo epidêmico tornou-se central para o tema das homossexualidades (não só): como já assinalei, o vírus HIV (e a “ideia da Aids”) foi um divisor de águas enquanto fato social – pelas inúmeras questões que colocou à saúde pública, à moralidade, às práticas sexuais, aos modos de gestão e proteção do corpo, etc. –, mas também como vértice teórico. Os estudos sobre a Aids são inúmeros e sob as mais diversas angulações teóricas, e não é meu objetivo assinalar tais aspectos aqui.

Subcultura gay: a diáspora homossexual

A formação de uma “cultura gay” foi, sem dúvida, distinta nos diversos universos sociais em que houve a (necessária) confluência de um grupo de homossexuais ao longo das décadas deste último século. As razões históricas que propiciaram estas migrações – estou enfatizando, como já dito, a relação intrínseca entre estas identidades sexuais urbanas e a migração que muitos gays fizeram das cidades menores/do campo para os grandes centros urbanos – são várias e também variáveis em cada um destes universos. Enfatizarei apenas alguns destes cenários em função da literatura mais ampla e da própria função exemplificativa que um ou dois cenários têm diante dos demais.

Subcultura é um conceito amplamente desenvolvido dentro de estudos antropológicos, sociológicos e de estudos culturais, notadamente em recortes de cenas musicais, de territórios, de estilos, de tribos e de grupos sexuais. Assim, subcultura representa um conjunto relativamente harmônico e autônomo de características cuja distinção pode ser feita em relação à cultura como um campo mais amplo. Todavia, esta é uma categoria problemática pelas discussões que gera acerca do que seria uma cultura específica e que homogeneidade poderia haver na união de indivíduos com experiências (no nosso caso, sexuais e identitárias) tão díspares; meu intento é apenas referenciar significativamente esta expressão, pois é assim que se tem denominado o conjunto de características culturais específicas que aludem à formação de espaços e vivências homossexuais nas grandes cidades do mundo – uma subcultura gay. Ainda dentro deste aspecto introdutório, é necessário ressalvar que existiram vivências homossexuais em contextos de pequenas cidades e no campo, e que, por óbvio, também se estabeleceram vivências e mesmo redes (de vivência, experiência, comunicação) em torno dos desejos não heterossexuais. Entretanto, como adverte Eribon,

Essas formas de sociabilidade e de “subculturas” urbanas ou semirrurais são poucos conhecidas e foram bem pouco estudadas pelos historiadores e os sociólogos, com certeza, porque os documentos são bem mais raros e de difícil acesso […], mas também porque a “invisibilidade” desses modos clandestinos de vida foi muito mais bem protegida, por razões evidentes, do que nas maiores cidades […]. [9]

Ou seja, pela própria disponibilidade de literatura, mas, sobretudo, pela relação constitutiva da subcultura gay e as cidades, que não abordo – embora não ignore, por isso a ressalva – os contextos não urbanos. Um resgate historiográfico da homossexualidade não urbana certamente ainda está por ser feito de modo apropriado e, suponho, vá revelar muitas similaridades e muitas diferenças em relação à conhecida homossexualidade urbana.

Na história moderna da homossexualidade, a Alemanha é um dos grandes referenciais pré-nazismo. Já em 1897, iniciativas cujos objetivos eram o reconhecimento social de homens e mulheres gays e o combate à perseguição legal destes surgiram. Com a ascenção de Hitler, o tema é varrido do horizonte social, e os homossexuais assassinados nos campos de concentração junto a outras milhões de pessoas. Destaca Eribon que, “no início do século, ou nos anos vinte e trinta, Berlim sempre foi denunciada como capital internacional da decadênica. É a ‘Berlim-Sodoma’ evocada por Octave Mirbeau em 1907”. [10] O que o filósofo francês vai destacar em diversas partes dessa obra é o caráter doentio que o discurso conservador e mesmo de parte da sociologia (urbana) vai emprestar à cidade, como um espaço de emergência da “perdição” e da “corrupção dos corpos e das almas”. Os homossexuais, evidentemente, seriam causa e consequência desse cenário.

Uma conexão histórica do que tenho abordado aqui é apontada por Eribon ao compreender que a experiência da injúria é estruturante da subjetividade gay. Logo, a possibilidade de vivência minimamente sã da sexualidade (e de uma identidade sexual) vai passar, segundo o autor, ou pela dissimulação de si ou pela emigração para lugares mais liberais. É justamente, portanto, a experiência quase-oni da injúria (eu diria que onipresente, mesmo que em potência em alguns casos [11]) que teria feito tantos homossexuais saírem de seus ambientes familiares originários para um outro lugar. Eribon vai destacar que “a cidade é um mundo de estranhos. O que permite preservar o anonimato e, portanto, a liberdade, no lugar das pressões sufocantes das redes de entreconhecimento que caracterizam a vida nas cidades pequenas […]”. [12]

Castells (2006) também vai realçar a importância da cidade na experiência homossexual. A tese central do sociólogo espanhol nesta parte da obra [13] é acerca das fissuras que o patriarcalismo vem sofrendo nas últimas décadas. No caso específico dos movimentos lesbiano e gay (expressão dele), o autor enfocou dois estudos localizados: São Francisco (EUA) e Taipé (Taiwan). Ele procurou fugir, no caso do movimento lésbico, dos casos ocidentais. Como explica o autor, “trata-se de um esforço deliberado de minha parte para […] enfatizar a crescente influência do lesbianismo [sic] em culturas fortemente patriarcais, como a chinesa”. [14] Estes dois estudos de caso – especialmente o de São Francisco – são exemplo de como a própria formação de uma subcultura gay propiciou o surgimento do movimento LGBT contemporâneo. A história da emergência do que se chama modernamente movimento LGBT está, de modo bastante consensual, associada ao levante (ou revolta) de Stonewall em 1969 nos Estados Unidos. [15] Evidentemente, esse contexto refere-se ao Ocidente, primordialmente nos países europeus e nos Estados Unidos. Por questões de objetividade e foco, não entro em detalhes sobre a história do movimento LGBT aqui (neste texto abordei um pouco da questão). O que o autor vai apontar é que na década de 60 havia um ambiente propício para a emergência dos movimentos de contestação lésbico e gay; esses fatores, dentre vários outros, seriam o momento de intenso questionamento sobre a liberdade sexual (no ambiente de maio de 1968 na França, por exemplo) e dos impactos do feminismo sobre as noções de mulher e feminino – o que, evidentemente, impactava nas noções de homem e masculino. Há um aspecto que Castells levanta acerca da sociabilidade gay e sua relação com as grandes cidades (metrópoles), e isso importa especialmente para nossa reflexão: um ativista norte-americano, em entrevista a Castells, esclarece a questão: “quando os gays estão dispersos, não são gays porque são invisíveis”. [16] Reflete, então, o autor:

São dois os motivos para essa concentração geográfica no estágio inicial da cultura gay: conseguir visibilidade e proteção. […] O ato fundamental de liberação para os gays foi, e é, “aparecer”, expressar publicamente sua identidade e sexualidade para em seguida ressocializarem-se. Mas, como é possível alguém ser abertamente gay no meio de uma sociedade hostil e violenta, cada vez mais insegura a respeito dos valores fundamentais da virilidade e do patriarcalismo? […] Para poderem se expressar, os gays sempre se juntaram – nos tempos modernos em bares e lugares social e culturamente marcados.Quando se conscientizaram e sentiram-se suficientemente fortes para “assumirem” coletivamente, passaram a escolher lugares onde se sentiam seguros e podiam inventar novas vidas para si próprios. [17]

Cenário parecido vai apontar Lan-chih Po, aluna de Castells que fez a pesquisa em Taiwan: nos anos 90, num contexto de Aids epidêmica em todo o mundo, em Taipé “houve uma explosão de associações de lésbicas e gays, a maioria nas universidades. […] Os bares foram os ambientes mais procurados para informação, agregação, educação e, por último, estabelecimento das culturas gay e lesbiana”. [18] Eribon também atesta a importância da cidade na vivência homossexual: “no fim dos anos sessenta, um ativista gay descrevia San Francisco como um ‘campo de refugiados’, para o qual foram pessoas de toda a nação”. [19] Na mesma linha do que Castells aponta acerca do gregarismo homossexual nas primeiras décadas da segunda metade do século XX, Henning Bech afirma:

Estar com outros homossexuais permite ver a si mesmo neles. Permite partilhar e interpretar a própria experiência […]. As redes de amigos são, com as associações ou os pubs e os bares, uma das instituições mais importantes da vida homossexual. Só nesse quadro é que é possível desenvolver uma identidade mais concreta e mais positiva como homossexual. [20]

Pode-se interpor, com justeza, que a realidade atual não seja bem esta, embora ela ainda o seja para muitos LGBT. O contexto em que escreveram Bech, Castells e Eribon é o da década de noventa, período em que a internet ainda não era um fenômeno onipresente na vida social como hoje – e especialmente marcante para as experiências homossexuais pelo fator do anonimato que inaugura (ou reinscreve na ordem do dia) de modo eficaz.

Seguindo, assim, a trajetória de cidades que povoam o imaginário homossexual como Paris, Berlim, Nova Iorque e São Francisco, é que surge, na megalópole São Paulo, em 1978, aquele que é considerado o primeiro grupo gay do país, o Somos. É a partir do Somos, portanto, que surgem outros grupos pelo Brasil, chegando a um número que hoje é praticamente desconhecido [21] – e que já desbravou os interiores do país naturalmente. Este marco temporal, é claro, esconde processos muito análogos àqueles de outros países no que diz respeito às vivências homossexuais: a migração do interior para as grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro; a ruptura com a família e o desejo de pertencimento e esquecimento nos “braços” da multidão urbana. Diz Eribon, acerca das cidades e seus múltiplos mundos sociais: “esse encaixamento de mundos sociais oferece aos indivíduos a possibilidade de pertencer a vários universos ao mesmo tempo e de ter por conseguinte várias identidades sociais […]”. [22]

Assim, a cidade é um espaço real, mas também teórico, privilegiado à reflexão não só da homossexualidade, mas da sexualidade e do erotismo em geral. A especificidade da relação que um desejo estigmatizado – na acepção de Erving Goffman – desenvolveu com a multidão e a “invisibilidade” características do ambiente urbano demonstra a pertinência de se olhar mais atentamente para esta história e, também, de se pensar sobre o presente. Outras questões de igual relevância como a importância do movimento LGBT (urbano) na epidemia HIV/Aids, os embates entre discursos conservadores e progressistas na arena pública das cidades, a história da relações entre gays e suas famílias de origem (“o interior”) com a própria identidade e subjetividade do homossexual num contextodiaspórico, enfim, todas esses pontos ficam de fora deste artigo, mas espero retomá-los oportunamente.

Notas

[1] Eribon, 2008, p.31.

[2] Foucault, 1988, p.29.

[3] Adelman, 2000, p.166, grifos da autora.

[4] Heilborn, 1999, p.8.

[5] Bozon, 2004, p.17, grifos nossos.

[6] Ibid., p.53, grifos nossos.

[7] Há um artigo particularmente rico em detalhes sobre toda esta discussão tendo como foco empírico os Estados Unidos. Veja: RUBIN, Gayle. Reflexionando sobre el sexo: notas para una teoría radical de la sexualidad. In: VANCE, Carole (Org.). Placer y peligro: explorando la sexualidad femenina. Madrid: Revolución Madrid, 1989. p.113-190.

[8] Heilborn, op. cit., p.7-8.

[9] Eribon, op. cit., p.33.

[10] Ibid., p.61.

[11] O próprio Eribon (Ibid.) aborda, com propriedade, esta questão: “[…] a injúria é apenas a forma derradeira de um continuum linguístico que engloba tanto a fofoca, a alusão, a insinuação, as palavras maldosas ou o boato quanto a brincadeira mais ou menos explícita, mais ou menos venenosa. […] Por outro lado, os mais reticentes à ideia de que a injúria poderia ser um elemento importante da relação que têm com o mundo concordarão com o fato de que, ainda que não tenham tido a experiência concreta disso, têm, ao menos, clara consciência de que tal agressão verbal sempre é possível e paira como uma ameaça instalada em cada instante da vida social […].” (p.64) O autor cita, então, um exemplo retirado de entrevistas: “Todas as manhãs, ao entrar na sala de aula, ele [o professor] teme ver as duas letras ‘PD’ [pederasta] inscritas no quadro negro. Para ele, é quase impossível encarar as consequências dessa designação, que valeria acusação e estigma definitivo”. (p.65)

[12] Ibid., p.34.

[13] Ver capítulo 4, p.238-283 (O poder do amor: movimentos de liberação lesbiano e gay).

[14] Castells, 2006, p.282, nota 104.

[15] Há vastíssima literatura histórica sobre este momento fundante do movimento gay moderno. Uma narrativa concisa e detalhada está em Castells (op. cit., p.248-256).

[16] Castells, op. cit., p.248-249.

[17] Loc. cit., grifos nossos. Esta passagem é esclarecedora e quero destacar dois pontos: a histórica oposição à ideia de “identidade sexual coletiva” que é recorrente em certos discursos políticos de direita e mesmo no imaginário social médio, por meio de, entre outros recursos, sua associação à ideia de gueto, desnuda uma abordagem claramente preconceituosa e limitada. O segundo ponto decorre desse primeiro: boa parte das críticas atuais (mas não todas) às Paradas do Orgulho Gay e aos locais identificados como “boates gays” assentam-se nesta miopia histórica e sociológica de que uma hostilidade culturamente construída ao longo de séculos em relação à homossexualidade está na base desta necessidade gregária (primeira) de fortalecimento em “áreas liberadas”.

[18] Castells, op. cit., p.245.

[19] Eribon, op. cit., p.31.

[20] Henning Bech, 1997, p.116-117 apud Eribon, op. cit., p.38, grifos nossos.

[21] Um referencial interessante é o número de afiliadas à Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABLGT): 237 organizações nacionais. Dados consultados em: 22 nov. 2010

[22] Eribon, op. cit., p.41.

_________________________

Referências

ADELMAN, Míriam. Paradoxos da identidade: a política de orientação sexual no século XX. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 14: p. 163-171, jun. 2000.

BOZON, Michel. Sociologia da sexualidade. Rio de Janeiro: FGV, 2004.

CASTELLS, Manuel. O poder da identidade; tradução de Klauss Brandini Gerhardt. (A era da informação: economia, sociedade e cultura; v.2). São Paulo, SP: Paz e Terra, 2006.

ERIBON, Didier. Reflexões sobre a questão gay; trad. Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

HEILBORN, Maria Luiza (Org.). Sexualidade: o olhar das ciências sociais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 13 de agosto de 2011, em artigos, história, sociedade e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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