Daniel Zamudio e a violência no Brasil


Daniel Zamudio, 24 anos. Foto: Reprodução

Às 19h45min desta terça-feira (27), horário local do Chile, o jovem Daniel Zamudio faleceu. Ele estava há 24 dias hospitalizado, em estado grave, após ter sido brutalmente atacado por quatro pessoas no dia 3 de março, em Santiago. De acordo com reportagem do jornal El País,

em plena via pública lhe desferiram socos e chutes na cabeça, o acertaram com pedras, fraturaram seus ossos, queimaram-no com cigarro, cortaram uma de suas orelhas e com uma garrafa quebrada lhe fizeram o símbolo da suástica nas costas e no peito. 

Daniel foi induzido ao coma quando chegou ao hospital central de Santiago. Alguns dias depois, começou a reagir, mas, no dia 19 de março, sofreu uma parada cardiorrespiratória devida ao grave dano cerebral. Desde sexta-feira passada, informações desencontradas davam seu falecimento como consumado. Entretanto, a situação de Daniel era dramática porque seu cérebro não apresentava atividade elétrica, segundo o diretor do hospital, Emilio Villalón, mas seu córtex cerebral ainda controlaria a respiração. Foi um teste de apneia feito na tarde de ontem que determinou a ausência de atividade respiratória independente de aparelhos.

Reprodução

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Essas são algumas fotografias de como Daniel foi encontrado. Você pode ver mais detalhes e imagens na reportagem de 8 de março do canal Chilevision. O caso de Daniel foi acompanhado pela mídia de diversos países latino-americanos e também pela imprensa espanhola dos Estados Unidos. Além disso, houve intensa mobilização da sociedade e de vários artistas do país em torno do caso, como esta reportagem do CNN Chile registra. Um dos artistas que mais se manifestou sobre o caso foi o cantor porto-riquenho Ricky Martin. Dois dias após o ataque, ele publicou uma mensagem no Twitter que ajudou a divulgar a situação de Daniel a diversos veículos mundo afora. No domingo passado, quando o cantor ganhou o prêmio de Melhor Artista (língua espanhola) no GLAAD Media Awards, em Nova York, ele o dedicou a Zamudio e sua família.

Mensagem do cantor no Twitter em 5 de março.

El País também registra que

o caso de Zamudio reabriu o debate sobre a homofobia no Chile, um país em que 42% dos jovens homossexuais afirmam ter sofrido perseguições de maneira frequente segundo dados divulgado pela organização Todo Mejora. […] Políticos e formadores de opinião também haviam expressado rechaço diante destes atos de violência, que poucas vezes haviam adquirido tanta atenção pública.

O caso de Daniel Zamudio fez com que muitos ativistas e pesquisadores se lembrassem do assassinato de Matthew Shepard nos Estados Unidos em 1998. A lei que alterou os crimes de ódio nos EUA para incluir discriminação por orientação sexual e identidade de gênero leva o nome de Shepard. No Chile, ativistas lutam há várias anos por uma lei deste tipo, e o dramático caso de Daniel, acompanhado pelo país durante três semanas, produziu pressão sobre o governo, que pediu urgência na aprovação do projeto no Congresso.

Tudo isso me faz pensar no Brasil. Vejam o que diz a matéria do El País:

o Congresso chileno, que tem baixíssimo apoio da população, como também toda classe política do país, discute há sete anos um projeto de lei antidiscriminação. […] Em novembro, quando foi discutido no Senado, um grupo de 13 legisladores, em sua maioria de direita, rejeitou o projeto por considerar que abriria as portas para o matrimônio homossexual.

Parece muito com o Brasil, em tudo, até na ignorância dos parlamentares.

Angélica Ivo, mãe de Alexandre, contando sobre o assassinato de seu filho no Congresso Nacional em 2011. Foto: Arquivo Pessoal

Em quase tudo. O caso de Daniel Zamudio, que eu venho acompanhado desde que ele fora atacado, já é muito triste por si só. Mas o que mais me desola é que por aqui, quando Alexandre Ivo foi igualmente atacado de forma brutal, e morto, nossa comoção não foi tão longe. Não foi partilhada tão largamente pelo país. A família e muitos ativistas deram o máximo de voz possível à mãe de Alexandre, que discursou em audiência no Congresso pelo menos uma vez.

Jaime Silve, advogado da família de Daniel Zamudio, disse:

Este é o crime mais grave que se cometeu neste país nos últimos vinte anos. É impressionante o nível de violência que o corpo de Daniel sofreu, a quem torturaram durante cinco ou seis horas. 

Eu sinto que nós, por aqui, temos casos graves assim bem mais frequentemente, e que a violência contra pessoas LGBT já se naturalizou. Para ser justo, a violência em geral, mesmo as mais cruéis.

Soo alarmista, mas é desolação. Vejo o quanto houve de luta em torno do caso do jovem Alexandre Ivo e penso: que foi do nosso PLC 122? Que será dele? Andamos nos debatendo com parlamentares religiosos para evitar retrocessos (como no campo da Psicologia, da liberdade de expressão sobre sexualidade nas escolas e do combate ao HIV/Aids), então avanços nem têm tido chances de aparecer na pauta.

Todo modo, desolação não é boa companhia. Em memória não só de Daniel, mas de Alexandre Ivo, Edson Néris, Brenda Lee e tantos mais que avolumam nossas estatísticas do ódio, é preciso seguir. Não há outro caminho.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 28 de março de 2012, em discriminação, homofobia, internacional, violência e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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