Queer and Politics

A propaganda heterossexual

Cena do filme dinamarquês Du Er Ikke Alene (Você não está sozinho), de 1978. Kim (Peter Bjerg) à esquerda e Bo (Anders Agensø) à direita.

Há quase uma semana eu postei um clipe e uma provocação na minha página do Facebook. Publiquei o vídeo já era depois da meia-noite, talvez por isso não tenha tido tanta repercussão: um amigo gostou do post e outra achou o vídeo um amor. Ou ninguém aguentou ler os três curtos parágrafos. Ou ninguém entendeu o que eu queria provocar. Tanto faz. O melhor mesmo é blogar (risos), então vamos ao assunto.

Para esclarecer: eu não aguento mais tratar deste tema em termos teóricos e mesmo políticos. Infelizmente, numa escala de grandes temas gerais ligados à população LGBT hoje (i.e. casamento civil, criminalização de crime de ódio e educação inclusiva/combate à homofobia escolar), o terceiro tema é o menos pacífico, mais enigmático, envolto em perigos tenebrosos. A razão é simples: tem criança no meio. E a nossa cultura moderna, mesmo que paradoxalmente conviva com infâncias nos lixões, em exploração sexual, em violência doméstica e famintas nas ruas, tem pânico moral quando você quer pensar o que fazemos com as crianças, discutir a educação formal, enfim, refletir sobre isso. E mais: quando entra sexualidade (eu não disse sexo) na discussão, todo mundo corre para a redoma-da-assexualidade. Disse que não aguentava mais tratar do assunto porque é um balde bem grande de zero argumentos misturado com mil pânicos inculcados.

Sátira em que se lê: Fujam para salvar suas vidas! É a agenda gay!!!

Evitando repetir tudo que já disse sobre algumas facetas desta questão, um resumo “hiperlinkado”: traduzi um texto de uma blogueira dos EUA que tem um filho gay de sete anos que é fã de Glee; tratei da expressão pronta (e paranóica) chamada “família brasileira” na crítica ao vídeo do PSC; contei sobre o trabalho de uma escola de Oakland (Califórnia) que ensina diversidade de gênero para as crianças das 4ª e 5ª séries (e ainda fiz uma entrevista bem esclarecedora com eles sobre o tema); fiz também um longo e cansativo texto, à época do veto de Dilma ao kit anti-homofobia, em que digo que abordar diversidade sexual na escola não é transformar (sic) as crianças em LGBT. Peço que você (re)leia só o entretítulo Propaganda da homossexualidade, que é essencial. Além disso, já tratei do conceito de heteronormatividade, que também está na base dessa discussão, e publiquei um texto fenomenal da antropóloga Débora Diniz sobre homofobia e bullying na escola.

Enfim, eu já escrevi e discuti exaustivamente esse assunto. Para mim, como já disse noutros locais, discutir diversidade sexual é para começar em casa, com a criança querendo andar; é pra tratar no jardim de infância, com as crianças “escolhendo” cor-de-menino e cor-de-menina; é para discutir sempre que o assunto surge, ao contrário desta anomalia que é forçar (sim, este é o verbo) as crianças a serem assexuadas (leia-se: sem marcadores generificados, sem performatividade de gênero, sem pensamento e ação sobre erotismo, etc.), dizendo “tira a mão daí que é feio, fecha as pernas, você é muito nov@ pra saber disso, isso é coisa de menina…” Mas isso só está claro e pacífico na minha cabeça e na de alguns outros: a maioria das pessoas corre até a redoma do pânico quando você fala disso. É o que o deputado Bolsonaro fez com a gritaria em torno do kit anti-homofobia. É o que o filho do Bolsonaro (vereador Carlos Bolsonaro) fez na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro esta semana.

Há muitos desdobramentos desse assunto que eu gostaria de discutir, mas o texto já está passando do tamanho e perdendo o foco. Não vou falar de estatísticas, de pesquisas, do que se evidencia e registra na literatura sobre isso, porque não tem servido para nada. Tem picas de publicações acadêmicas sobre isso, pesquisas empíricas sobre homofobia na escola, tem criança e adolescente se suicidando – e, pasmem, ainda deixando tudo claríssimo para as autoridades homofóbicas: me matei porque sofri bullying, porque sou gay, porque me batiam -, enfim, tem de tudo que a gente conhece como “papel passado, pesquisado, comprovado, evidenciado, realidade fática”. Algum resultado? Não.

Cena do clipe "Não Trocaria um Sorvete de Flocos por Você".

Ao clipe: existe algo bastante óbvio quando você diz que quer tratar de homossexualidade na escola. Parece que você quer incluir um tema e deixar outro de fora. Parece que você vai apresentar às crianças (para elas escolherem! risos) o mundo encantado de ser gay e não vai contar a elas que elas podem ser heterossexuais. Fica parecendo que você vai apresentar as benesses de ser uma travesti ou transexual e não vai dar a elas a “opção” de se sentirem confortáveis com as identidades de gênero dominantes. Enfim, parece que você quer inserir um assunto exógeno num território neutro: a escola onde todo mundo é assexuado, sem marcadores de gênero, identidade sexual, papéis sociais, linguagem generificada e sexualizada, imaginários sobre sexualidade, estereótipos sobre comportamentos.

A “novidade” é que é o oposto: está tudo lá (menos a homossexualidade?), já dado, naturalizado, cristalizado, formatado. Por isso fica parecendo que não se fala de heterossexualidade na escola, que não se fala de modos de expressar a masculinidade e a feminilidade. Uma falsidade galopante, e o mais irônico é que tudo na escola (e fora dela) produz evidências de como isso é uma mentira, a qual é confortavelmente manejada por políticos fundamentalistas e religiosos fanáticos para produzir pânico moral: ditadura gay, destruição da família, doutrinação das crianças, etc. Expressões de impacto que não resistem a 10min de debate sem pânico, sem espantalhos, sem apelo à emoção.

A evidência (uma dentre milhares: diárias, midiáticas, intermitentes) que eu achei estes dias é linda. Uma banda muito bacana fez um clipe muito fofo sobre o amor. A canção é Não Trocaria um Sorvete de Flocos por Você, e o clipe tem uma estética muito bonitinha. Seu coraçãozinho sofre junto com a melodia sobre as agruras do amor. Este clipe da banda Soulstripper foi um viral em meados do ano passado. Assistia ao clipe, por favor. Depois você continua lendo.

[4 minutos depois]

Muito bem, a minha provocação no Facebook tinha sido bem direta: se o clipe fosse apenas com meninos, ou apenas com meninas, e tratasse do amor entre eles/elas, o que você acharia? Seria fofinho? Eu vou facilitar, ao passo que dificulto, o seu trabalho analítico. Vai ser com o Bruno e o Pedro, dois meninos fofos de sete anos de idade (ou nove, dez, você escolhe). Vamos decupar quatro rápidos momentos do vídeo juntos:

[0:25 até 0:33]

Bruno: Só tava pensando em você.

Pedro: Saudade?

Bruno: Só um pouquinho. Um pouquinho o tempo todo.

Lindo o amor e a inocência dos meninos nesta conversa telefônica. Vamos adiante que fica ainda mais bonito:

[1:01 até 1:08]

Pedro: Tá saindo com um banana, com saudade da minha cama… esperando… o meu perdão.

Mas que levadinhos.

[1:55 até 2:12]

Pedro: Um casal apaixonado, fica mesmo transtornado / É uma coisa… tão normal / U-u-u-h-u-l / Eu tirava a sua blusa, você minha bermuda, e falava de amor ou-ou

É o amor.

[3:13 até 3:26]

Pedro: Bom que ligou. Quando disse que existiam cem mil garotas iguais a você, não achei que seria tão difícil de encontrá-las.

E o amor vence.

Crianças fofas dando beijinho. Foto: a_boutme/Fotolog

Sabe o que eu acho: que a agência infantil não teria modelos/atores para esse clipe. Que o Ministério da Justiça ia ficar louco, a classificação indicativa seria +18. Que a banana (é um cara banana, ou seja, mané) e o sorvete de flocos (um sorvete mesmo) iam condenar os produtores do clipe a um processo por incentivo ao sexo oral utilizando-se de um garotinho chupando sorvete, com uma olhar ingênuo para a câmera, e outro garotinho loiro de olhos claros (aos 2:07 pra você rever) descascando uma banana na sua completa inocência.

A banda ia ser perseguida. Muitos esqueceriam que, em tese, a história é de amor entre dois adultos, e as crianças foram apenas um recurso fofo para tratar deste tema lindo: uma história de amor. Se fosse só com meninos (ou só com meninas), não ia ser mais um cara banana, ia ser uma banana-fálica, um sorvete-sexo-oral, uma perversão, um uso doutrinário das crianças, uma sexualização precoce delas. Imagina esses meninos abrindo a bermuda e tendo saudade da cama um do outro. Imagina isso!

Então: o que é que você vê nesta minha versão do clipe? A propaganda da homossexualidade? E no original? O amor? Pode comentar. Mesmo discordando de tudo.

Ah, aproveite para ver o que essas crianças de Goiás têm a dizer sobre meninos que brincam de boneca. Abraços.