Mídia: cobrar e reconhecer


Ricky Martin posa pela 1ª vez com seus filhos e seu companheiro na edição espanhola da Vanity Fair de abril. Foto: divulgação.

Como jornalista, estou sempre mais do que interessado em ver como a mídia – e a imprensa em especial – retrata a comunidade LGBT brasileira e os temas que lhe são caros. Por outro lado, estou fora do mercado, pois me dedico à pesquisa acadêmica. Não pesquiso especificamente sobre jornalismo, mas sim no cruzamento da mídia com o movimento LGBT. Estar na academia sempre nos deixa mais livres para criticar a produção da mídia, e sei bem o quanto esta posição irrita a muitos jornalistas – um velho dito diz que quem sabe faz (jornalista), quem não sabe, ensina (professor universitário). Que sono disso…

Ao mesmo tempo em que entendo a posição dos colegas, penso que à academia também caiba o papel que cabe a outros atores sociais, como os movimentos sociais, os partidos políticos, as organizações não governamentais, as igrejas e o Estado: cobrar da mídia uma produção que reflita seus respectivos interesses (e, portanto, a pluralidade) e, sobretudo, uma produção baseada em padrões éticos que o próprio campo já estabelece. Não preciso me alongar neste ponto, basta observar como se debate a revista Veja nestas últimas semanas…

No caso do Brasil, em que o cenário dos meios de comunicação é tão desregulado e concentrado, acho que a Universidade não pode se furtar a tecer as críticas que tece. Faz parte da correlação de forças que se estabelece numa sociedade democrática. Faz parte do próprio trabalho da imprensa lidar com a cobrança por uma cobertura sempre melhor – ou menos pior no caso de algumas publicações e emissoras.

Nem o, nem a travesti: terrível manchete do jornal carioca 'Meia Hora' em julho de 2009.

Quanto ao tema da imprensa e a população LGBT, também já tratei por diversas vezes aqui no blog. Minha própria pesquisa sobre a homossexualidade na revista Veja, durante a graduação, é exemplo disso [parte 1 | parte 2]; noutra oportunidade, escrevi sobre um dos pontos nevrálgicos do ethos do jornalismo: ouvir “todas as vozes” de uma questão; também já escrevi sobre a cobertura envolvendo a identidade de gênero de travestis e transexuais por ocasião da morte da dançarina Lacraia.

Ontem eu recomendei, via Facebook, um excelente documentário que a TV Brasil exibira ano passado por ocasião da passagem dos 47 anos do golpe militar no Brasil. O dia que durou 21 anos foi exibido em três episódios nos dias 31 de março e 1 e 2 de abril de 2011 e conta como e por que os Estados Unidos patrocinaram o golpe no Brasil. Eu recomendo muito assisti-lo.

E é esta mesma TV brasil que também produziu uma das melhores reportagens (na verdade, um programa inteiro) sobre as lutas e conquistas da comunidade LGBT brasileira atualmente. No programa Caminhos da Reportagem de 15 de março deste ano, a emissora exibiu uma longa reportagem abordando múltiplas questões. Logo que assisti ao programa, dois dias depois, enviei um e-mail à produção:

Quero parabenizar a TV Brasil e a produção do programa Caminhos da Reportagem pela edição do dia 15 de março, que tratou das famílias LGBT brasileiras e de muitas outras questões relativas à homofobia e diversidade sexual. A abordagem foi honesta, diversa e comprometida com o respeito à diversidade sexual. Parabenizo-os também por conversar tanto com parlamentares (como Jean Wyllys e Roberto Lucena) quanto com ativistas, acadêmicos e, principalmente, com casais e famílias brasileiras que ilustram o quão diversa é nossa população. Também fico muito feliz pela recusa em dar voz a discursos de ódio ou a pessoas cuja única especialidade é o ativismo antigays. Isso demonstra um jornalismo comprometido com a dignidade humana. Parabéns a todos da produção do programa.

Dois dias depois, a produção me enviou reposta ao elogio:

Caro Luiz Henrique,

A TV Brasil agradece o seu contato. Obrigado pelo incentivo. Estímulos assim nos impulsionam a cada vez mais fazer uma programação de qualidade, afinada com o interesse do público. Informamos que sua mensagem foi enviada para  a produção do Caminhos da Reportagem.

Retomando o fio condutor que me trouxe a este texto: assim como é nosso dever exigir uma mídia diversa, inclusiva e honesta quanto às demandas da população LGBT brasileira, também é nosso dever (por uma relação salutífera com a imprensa) reconhecer as boas coberturas e produções. Se você ainda não assistiu ao programa, segue abaixo:

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 3 de abril de 2012, em jornalismo, vídeos e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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