Tyler Clementi: podia ser meu filho

Tyler Clementi, talentoso violinista de 18 anos. Foto: Acervo pessoal.

Nesta última segunda (21), o jovem Dharun Ravi foi condenado por quinze crimes contra seu colega na Universidade Rutgers (em Nova Jersey), Tyler Clementi. Ravi filmou Tyler tendo relações íntimas com outro homem em seu quarto no campus em 2010. Depois divulgou no twitter sobre o que filmara, convidando para uma suposta segunda sessão ao vivo (webcam). Dias após o fato, Tyler Clementi jogou-se da ponte George Washington.

Houve muita polêmica em torno do tempo de condenação de Dharun Ravi, mas o texto que trago não se foca só nisso. Abaixo está o último artigo de Amelia (pseudônimo), a mãe de um garoto gay de 7 anos e que escreve toda semana na página Vozes Gays do portal Huffington Post. Você pode ler o original aqui.

Pode ser meu filho um dia

Tyler Clementi era um universitário de 18 anos quando morreu. Mas ele não teve sempre 18 anos. Tenho certeza de que sua mãe sente, como se fosse ontem, que ele era só um garotinho terminando a primeira série, exatamente como meu filho agora. Quando ouço a história de Tyler, algumas vezes tudo em que consigo pensar é “Podia ter sido com meu filho”.

Quando Dharun Ravi, a pessoa que secretamente filmou Tyler na sua intimidade com outro homem, publicou no Twitter sobre isso e então mentiu para a polícia para encobrir o fato, foi considerado culpado de todas as acusações, a mãe protetora dentro de mim comemorou. Sim, era preciso haver consequências, e, pelo menos, os tribunais fizeram o correto. Nenhuma “defesa açucarada” [twinkie defense] veio ao socorro de um bully homofóbico desta vez. E então a sentença foi divulgada, e os 15 crimes de Ravi, incluindo intimidação preconceituosa e adulteração de evidências, lhe deram a condenação de 30 dias na cadeia. Por 15 crimes. São dois dias para cada crime. Isso não soa como justiça. Parece mais com um tapinha na mão, e um insulto a todos que amavam Tyler e aqueles vivendo sob condições odiosas e de bullying sem recursos contra isso.

Quando cheguei em casa do trabalho na segunda, eu me aninhei no sofá com meu filho enquanto ele assistia a um filme do Harry Potter. Eu acariciei seu cabelo e perguntei sobre a escola, enquanto ele desejava que eu ficasse quieta e parasse de distraí-lo. Mas eu não conseguia parar de segurá-lo.

Ele finalmente me olhou. “O que?”, ele perguntou.

“Nada”, respondi e dei-lhe um beijo na testa. “Você sabe que você é perfeito, certo? E que eu te amo?”

“Eu sei”, ele disse irritado.

Às vezes sou questionada sobre por que sinto a necessidade de continuamente defender a igualdade e ser contra a homofobia. Para mim a resposta é óbvia, e era óbvia mesmo antes de meu filho anunciar que era gay: porque nós não temos igualdade, e porque a homofobia ainda é considerada aceitável para muitos. Mas agora, é por mais que isso.

Ouço comentaristas conservadores e ditos líderes “cristãos” espalhando suas mentiras e seu ódio, e é apenas uma questão de tempo até que meu filho também os ouça. Se alguém tentar bater com uma tábua na cabeça do meu filho, eu vou impedi-los. E não importa quantas vezes eles tentem. Vou continuar tentando impedi-los. Mesmo que eles digam que é direito deles ou que eles estão apenas expressando sua liberdade religiosa, eu vou continuar sempre tentando impedi-los. Penso que é ridículo esperar que eu pare depois de já ter feito isso uma única vez.

É isso que a homofobia pretende: destruir pessoas incríveis como Tyler e meu filho e tantos outros, cujo único crime é querer amar uma pessoa considerada “inapropriada”. É violento, abusivo e ainda bastante negligenciado enquanto deveria ser algo com que as pessoas simplesmente deveriam conviver e aceitar.

Por enquanto, posso proteger meu filho. Ele tem apenas sete anos, e é fácil mantê-lo debaixo de um guarda-chuva seguro, mas é apenas uma questão de tempo (e não é muito de fato) até que ele esteja no Ensino Médio e não queira mais sua constrangedora mãe ao redor o tempo todo, e então ele vai estar fora para a faculdade e não estarei lá.

Então, como protejo meu filho de se tornar outra estatística, outro jovem empurrado para a morte, como posso dar fim ao tormento causado por aqueles que pensam que a existência dele é pecado, feia e errada? Bem, não há nenhuma garantia de que eu consiga, mas eu certamente posso tentar muito. Posso continuar lembrando meu filho o quanto ele é perfeito e amado (não importa quão chata ele pense que eu sou por isso). Posso mostrar a ele uma comunidade amorosa de amigos e familiares, a qual inclui pessoas de todas as diversas orientações sexuais. Eu posso me levantar contra a homofobia sempre e onde ela se manifestar e deixar minhas ações falarem a ele mais alto do que minhas palavras. Posso escrever, com a esperança de que as pessoas leiam sobre isso, e com mais esperança ainda de mudar algumas mentes. E eu posso ter a esperança de que mais pessoas no mundo acordem e vejam que o amor é sempre um melhor caminho do que o ódio.

A vida e o bem-estar do meu filho valem mais do que 30 dias, e a vida de Tyler também valia.

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