O kit anti-homofobia: ponderações


Nota: este texto é uma versão estendida de Política e preconceito: a polêmica do kit, publicado no sábado no Bule Voador. Aqui eu desenvolvo mais detidamente alguns pontos que não detalhei ou não abordei no texto do BV, especificamente a partir do subtítulo Propaganda da homossexualidade.

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Cuidado: querem transformar seu filho em homossexual (arte de grupos homofóbicos sobre foto desconhecida).

Esta última semana encerra-se com dois acontecimentos na esfera política nacional que movimentaram tanto a imprensa quanto as redes sociais e blogosfera: a aprovação do Código Florestal e a decisão da Presidenta de que um material didático denominado “kit anti-homofobia” tivesse sua produção e distribuição canceladas. Além disso, o assassinato de três líderes camponeses nesta semana também foi um dos assuntos mais expressivos na rede e na imprensa, tendo todos estes três acontecimentos como pano de fundo permanente a denúncia acerca do crescimento vertiginoso do patrimônio do Ministro-Chefe da Casa Civil Antonio Palocci.

Creio que a aprovação do Código Florestal pela Câmara dos Deputados mereça reflexão aqui no BV, ainda mais que duas expressivas entidades científicas nacionais (SBPC e ABC) manifestaram-se, desde o princípio, contrárias ao texto aprovado. De meu lado, tomo a iniciativa de abordar a polêmica (instaurada) em torno do referido material didático. Faço-a a partir de dois eixos: um sobre o objeto (o kit) e outro sobre a política (o que aconteceu).

A política pública por trás do kit

Sumarizo alguns  pontos centrais e depois discorro sobre a pouco atenção que se deu ao contexto mais amplo em torno do kit. Ao primeiro ponto: pelo menos três pesquisas brasileiras, conduzidas por organismos diferentes, já indicaram claramente que a homofobia (e seu modo de reprodução escolar, o bullying) está presente na escola. Considerando-se minha opinião sobre o preconceito ser parte da cultura, não é uma novidade, mas, sim, um importante embasamento empírico para um argumento teórico. Se pesquisas identificam que há um problema social (homofobia escolar), compete ao poder público, de alguma maneira, procurar saná-lo. Um dos caminhos centrais, neste caso, são políticas públicas. Quando o Ministério da Saúde identificou (folder) que os casos de Hiv/Aids haviam aumentado entre adolescentes mulheres e jovens gays, sua campanha de prevenção para o Carnaval focou-se nesses dois públicos. Uma campanha publicitária é, também, uma frente de atuação do poder público.

Outros exemplos poderiam ser mencionados para reforçar algo óbvio: se há um problema social que demanda uma resposta, ela precisa ser gestada e materializada em políticas públicas. É exatamente isso que está ocorrendo em relação à questão da homofobia na escola. Posto isso, é importante observar o contexto maior a este kit. Eis o segundo ponto: o combate à homofobia, do ponto de vista institucional, converteu-se em política de Estado já em 2004 no Brasil. Em que pese as várias (muitas devidas) críticas ao programa Brasil Sem Homofobia, ele tem o mérito de colocar no papel uma primeira sistematização das abordagens a serem feitas pelo Governo Federal sobre o tema. Em 2009, é publicado o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, fruto de Conferência feita no ano anterior. Neste Plano, pode-se ler, dentre suas diretrizes, o seguinte:

5.13. Inserção da temática LGBT no sistema de educação básica e superior, sob abordagem que promova o respeito e o reconhecimento da diversidade da orientação sexual e identidade de gênero;

5.15. Garantia, a estudantes LGBT, do acesso e da permanência em todos os níveis e modalidades de ensino, sem qualquer discriminação por motivos de orientação sexual e identidade de gênero.

Nestes anos todos, portanto, uma série de “lentos avanços” (porque em instâncias burocráticas) vêm sendo feitos de modo a institucionalizar num programa permanente de Estado a concretização de inúmeras ações, em dezenas de frentes, para combater a homofobia. No específico âmbito do Ministério da Educação é que se insere o kit. Entretanto, ele é apenas um ponto (material) dentre aqueles que o MEC deve desenvolver para cumprir sua parte dentro do Plano Nacional, que, por sua vez, já era gestado lá no Brasil Sem Homofobia. Note-se, portanto, que todos os Ministérios têm uma agenda neste sentido, assim como têm agendas específicas para outras questões – a mulher, por exemplo, têm demandas específicas nas pastas da saúde, do trabalho, dos direitos humanos, etc.

O referido kit contra a homofobia inscreve-se, portanto, num programa maior: a Escola Sem Homofobia. Como detalha a ABGLT numa publicação recente,

o Projeto Escola Sem Homofobia, apoiado pelo Ministério da Educação/Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (MEC/SECAD), tem como objetivo “contribuir para a implementação do Programa Brasil sem Homofobia pelo Ministério da Educação, através de ações que promovam ambientes políticos e sociais favoráveis à garantia dos direitos humanos e da respeitabilidade das orientações sexuais e identidade de gênero no âmbito escolar brasileiro”.

Assim, tal material não é fruto de uma produção independente e desestruturada de militantes gays. O projeto partiu de dois pontos: (1) recomendações sobre o tema às esferas gerencias do sistema educacional e (2) produção de um material que trabalhe a temática na esfera do cotidiano educacional. Dentro do primeiro ponto, duas atividades foram desenvolvidas: “cinco seminários, um em cada região do país, com a participação de profissionais de educação, gestores e representantes da sociedade civil, para obter um perfil da situação da homofobia na escola” e “uma pesquisa qualitativa sobre homofobia na comunidade escolar em 11 capitais das 5 regiões do país”. Já o segundo ponto desenvolveu duas estratégias: “um kit de material educativo abordando aspectos da homo-lesbo-transfobia no ambiente escolar, direcionado para gestores(as), educadores(as) e estudantes” e “capacitação de técnicos(as) da educação e de representantes do movimento LGBT de todos os estados do país para a utilização apropriada do kit junto à comunidade escolar”.

Friso detalhadamente estes meandros para que se fuja de uma percepção (que é midiática) reduzida do material: ele é fruto de um contexto e de uma produção refletida. Ele é a ponta objetiva de uma política pública gestada dentro do MEC em parceira com o movimento social. Posto isso, o próprio kit foi profundamente reduzido aos seus materiais audiovisuais – aliás, a um conjunto deles. O kit é composto de um caderno, uma série com seis boletins, três audiovisuais com guias específicos, um cartaz e cartas de apresentação aos gestores e educadores. A peça central do kit é o caderno, e não os alardeados vídeos. Sugiro que se leia, no link referido acima, detalhes sobre cada um dos materiais e como eles articulam-se.

Para fechar esse eixo, alguns comentários sobre a repercussão acerca do material: alguns ativistas, muitos jornalistas e alguns amigos em blogs e tuítes comentaram os audiovisuais. De alguma maneira, ainda que não intencionalmente, alguns estavam tentando minimizar o estrago que a decisão da Presidenta causou (comento no 2º eixo) por meio do apontamento de “valorações subjetivas” sobre os vídeos. Com absoluto respeito a todos eles, isso é irrelevante. Coloco minha própria opinião pessoal para fique claro que ela é irrelevante. Primeiro, considero os três audiovisuais divulgados muito simples e um pouco chatos, ainda mais para o Ensino Médio. Há quem se escude no argumento de que impedir que se opine sobre os vídeos é recorrer à falácia da autoridade – pois tanto a Unesco quanto o CFP, por exemplo, aprovaram o material. Assim: opinar e ter a opinião levada em conta é diferente; o diálogo precisa ser feito no âmbito do material didático, e não no doapetite pessoal sobre a linguagem do vídeo. Assim como recorremos à opinião de especialistas numa série de questões cotidianas, não vejo razão alguma (inclusa minha opinião) para dar mais crédito aos gostos subjetivos de alguns em detrimento da elaboração demorada (entre 1 e 2 anos) e da avaliação por múltiplas instâncias destes materiais – o que inclui especialistas. Em segundo lugar, sou favorável a que se fale sobre diversidade sexual desde o início da fase escolar; este papo conservador (e ilógico) de que as crianças não podem ser expostas a isso tão novas é, antes de tudo, irreal.

Suponho que a maioria de nós deva ter assistido ao programa Malhação ainda na transição da infância para a adolescência (quando não antes, como minha irmã); no programa, o que abunda é esse tema. Mistificar a sexualidade aproxima-se muito do proibicinismo inócuo de certas políticas de Estado: numa sociedade hipermiditática e hiperimagética como a nossa, é necessário que os pais saibam lidar com (e regular) a exposição das crianças a dezenas de temas, seja pela mídia, pela internet, pela escola ou pelas relações interpessoais. Assim, ter uma escola que, desde cedo, aborde a diversidade sexual é, para mim, uma necessidade educativa e formativa.

Propaganda da homossexualidade

Há uma questão fulcral sobre a inserção deste tema nas escolas que é quase um tabu. Li raríssimas vezes, aqui no Brasil, textos que abertamente falem sobre isso (um exemplo é este ótimo texto). A discussão em torno da “propaganda da homossexualidade” parece-me necessária porque, do contrário, todas as políticas públicas sobre diversidade sexual recairão na mesma ferida aberta: não se poderia fazer propaganda da homossexualidade. O tema envolve certo contorcionismo semântico por medo (compreensível) de enfrentar o tema. É um discurso que está na própria militância como mecanismo de defesa. Felizmente, algumas vozes têm tocado na ferida, e eu estou com elas.

Em janeiro deste ano, escrevi um texto em que abordei a ideia de “imparcialidade” no jornalismo em se tratando da homossexualidade. Aproveitei a tradução que fiz de um crítico de televisão dos EUA, Erick Deggans, em que ele coloca o seguinte ponto ao criticar o espaço que se dava aos ativistas antigays na mídia estadunidense:

Ou há um debate aberto sobre se ser gay é prejudicial ou ofensivo – e nenhum psicólogo ou profissional de saúde mental que seja respeitado afirma que haja – ou não há. E se ser homossexual não é prejudicial, então por que há diversas organizações jornalísticas renomadas dando espaço àqueles cuja única especialidade é uma contínua resistência à corrente aceitação dos homossexuais? A CNN não convida um membro da organização Ku Klux Klan para um comentário “abalizado” quando trata da situação da população negra nos Estados Unidos. Então por que continua dando voz a grupos que se opõem aos direitos gays para debater temas ligados aos direitos civis desta população?

Há algumas semanas, li um texto bastante polêmico do jornalista gay Daniel Villarreal cujo título é, numa tradução livre: Podemos, por favor, admitir que nós realmente queremos “doutrinar” as crianças? * O texto é controverso porque coloca a ideia abaixo em face dos que combatem ferozmente a inserção da temática nas escolas (como está acontecendo aqui no Brasil). O contexto do artigo de Villarreal são as disputas em torno do casamento gay nos Estados Unidos.

Eles nos acusam de explorar as crianças e, em resposta, nós dizemos: “NÃOOO! Nós não vamos fazer as crianças aprenderem sobre homossexualidade, nós prometemos! Não é como se estivéssemos tentando recrutar seus filhos ou algo assim”. Mas vamos encarar o fato – isso é uma mentira. Queremos que os educadores ensinem as futuras gerações a aceitarem a sexualidade LGBT. Na verdade, o nosso futuro depende disso.

O texto causou várias repercussões porque possui palavras como recrutar e doutrinar. Rebatendo algumas críticas, o autor explica que empregou recrutar como “ficar do nosso lado”. Ainda pretendo traduzir o artigo todo para postar aqui no blog, mas observando outras passagens, fica mais claro que a ideia não tem nada de evangelizar, mas sim de deixar claro que a homossexualidade (idem a bi e transexualidade) deve ser respeitada, faz parte da vida em sociedade, crianças que sejam ou “aparentem ser” LGBT não devem ser discriminadas e que, afinal, a diversidade sexual é normal. Como o próprio Daniel Villarreal coloca: “por que pressionaríamos por programas contra o bullying ou por aulas de sociologia que ensinem às crianças sobre as contribuições históricas de LGBT famosos a não ser que quiséssemos, deliberadamente, educar nossas crianças para aceitaram a sexualidade LGBT como normal?”

O fato é que, a despeito deste ser um debate em aberto, o que me parece central aqui é: ou admitimos que a homossexualidade deve ser encarada/retratada/abordada como algo natural (no sentido de que não se a coloque como um desejo invisível) ou então este será um problema de base para sempre. É como o texto do Erick Deggans expõe, de acordo com o trecho que citei mais acima: a menos que se aceite que há um debate em aberto sobre a homossexualidade ser prejudicial ou ofensiva, não há razão para tratá-la marginalmente. O terreno dos juízos de valores é movediço, pois a passagem de uma avaliação científica para a esfera moral é, por vezes, invisível. Entretanto, é algo que precisamos enfrentar e, mais do que isso, temos que tomar partido claramente e disputar tal cosmovisão publicamente. Parece-me haver elementos suficientes (aponto 3 abaixo) para defender essa cosmovisão: a homossexualidade não constitui um problema per se, e pode-se encará-la, inclusive, como moralmente neutra (ela não traz benefícios ou malefícios por si só). Uma mesma aplicação pode ser feita à heterossexualidade, por exemplo: ela é moralmente neutra. Num cenário social como o nosso, ela é uma vantagem, mas aí estamos falando de um contexto social, e não mais da heterossexualidade em si.

Primeiramente, a tese de que uma criança vá se tornar homossexual porque sua escola lhe diz que ser homossexual é legal não só é rizível como não encontra qualquer respaldo investigativo. Além disso, esbarra numa comparação reversa bem prosaica: se a tese de que a heterossexualidade é legal (notem que não é uma tese, é uma biblioteca de Alexandria) e, mais, de que a homossexualidade é um grande vale de perdição não tem qualquer efeito (no desejo, pois na vida tem) sobre os LGBT, pensar que o oposto ocorra é supor que a heterossexualidade só se sustenta com muita propaganda e repressão. É um assunto batido, e cansa ter que relembrar do quão contrário a todas as expectativas sociais é ser homossexual, então não vejo por que mais delongas.

Em segundo lugar, a homofobia constitui-se num verdadeiro problema social e possui documentada e estudada presença negativa dentro das escolas (como as pesquisas que apontei no começo do texto já indicam). Observe-se que, por exemplo:

• 39,6% dos estudantes masculinos não gostariam de ter um colega de classe homossexual, 35,2% dos pais não gostariam que seus filhos tivessem um colega de classe homossexual, e 60% dos professores afirmaram não ter conhecimento o suficiente para lidar com a questão da homossexualidade na sala de aula. (Juventudes e Sexualidade, 2004)

• 63,1% dos entrevistados alegaram já ter visto pessoas que são (ou são tidas como) homossexuais sofrerem preconceito; mais da metade dos/das professores(as) afirmam já ter presenciado cenas discriminatórias contra homossexuais nas escolas; e 44,4% dos meninos e 15% das meninas afirmaram que não gostariam de ter colega homossexual na sala de aula. (Revelando Tramas, Descobrindo Segredos: violência e convivência nas escolas, 2009)

• 87,3% dos entrevistados têm preconceito com relação à orientação sexual. (Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, 2009)

• 92% da população reconheceram que existe preconceito contra LGBT e 28% reconheceram e declararam o próprio preconceito contra pessoas LGBT, percentual este cinco vezes maior que o preconceito contra negros e idosos, também identificado pela Fundação. (Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil: intolerância e respeito às diferentes sexuais, 2009)

Estes números revelam que há um quadro de homo/lesbo/transfobia nas escolas e que este perpassa todos os segmentos (alunado, docentes, funcionários, gestores), oriundo, claramente, do próprio preconceito social contra homossexuais. Se, como a visão mais limítrofe da liberdade de expressão e consciência preconiza, os pais têm o absoluto direito de repassar a seus filhos os valores morais que mais lhe aprazem – de matiz religiosa inclusive -, à escola cabe outro papel. Este pode ser, muitas vezes, contrário aos valores dos pais. Nenhuma escola pode permitir, por exemplo, que se discriminem meninas que mantêm cabelos longos por escolha religiosa dos pais – minha avó, além disso, também não assistia à televisão porque sua igreja não permitia. O sistema educacional, portanto, pauta-se por diretrizes seculares, laicas e constitucionais que precisam harmonizar conflitos externos existentes, mas sem abrir mão da base de valores que lhe conforma a Constituição Federal. Se os indicadores de homofobia escolar são fartos, uma política pública que ataque a homofobia é premente.

Algumas pesquisas vêm apontando, também, os efeitos que o bullying homofóbico pode ter na vida futura dos adolescentes. O estudo Vitimização escolar de adolescentes lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros: implicações para a saúde e a adaptação de jovens adultos, publicado em maio deste ano no Journal os School Health (Revista de Saúde Escolar da Associação Americana de Saúde Escolar), traz evidências de que jovens LGBT que vivenciaram altos níveis de opressão na escola (durante middle e high school, respectivamente o final do Ensino Fundamental e o Ensino Médio nos EUA) apresentam a saúde e a saúde mental comprometidas no começo da vida adulta, incluindo depressão, tentativas de suicídio, DSTs e risco de contágio de HIV. As três principais conclusões do estudo são:

• Jovens LGBT que relataram altos níveis de vitimização escolar, porque eram LGBT, durante a adolescência estavam 5.6 vezes mais suscetíveis a reportar tentativas de suicídio, 5.6 vezes mais propensos a reportar tentativa de suicídio que necessitou de atendimento médico, 2.6 vezes mais propensos a relatar níveis clínicos de depressão, 2.5 vezes mais suscetíveis a serem diagnosticados com doenças sexualmente transmissíveis e aproximadamente 4 vezes mais propensos a apresentar risco por infecção de HIV quando comparados aos seus colegas que relataram níveis baixos de vitimização escolar;

• Gays e bissexuais masculinos e transexuais, na fase adulta, apresentaram níveis de opressão escolar homofóbica mais altos do que lésbicas e bissexuais femininas adultas;

• Jovens adultos LGBT que reportaram níveis mais baixos de vitimização escolar apresentaram níveis mais altos de auto-estima, satisfação pessoal e socialização comparados com seus pares que tiveram altos níveis de vitimização escolar durante a adolescência.

Esse estudo demonstrou, então, “a importância de se abordar e prevenir a vitimização contra LGBT nas estruturas e no ambiente escolar para reduzir as disparidades na saúde de jovens adultos LGBT”. Outro estudo publicado em dezembro de 2010, na Pediatrics (Revista Oficial da Associação Americana de Pediatria), aponta que adolescentes gays e lésbicas nos Estados Unidos são 40% mais suscetíveis a serem punidos pelas escolas, pela polícia e pelos tribunais do que seus pares heterossexuais. A pesquisa Justiça penal e sanções escolares contra jovens não heterossexuais: um amplo estudo nacional traz também a conclusão de que há substancial disparidade entre as expulsões escolares, prisões, condenações e abordagens policiais de gays e aquelas feitas com heterossexuais. A conclusão do estudo (disponível na íntegra) é a seguinte:

Jovens não heterossexuais sofrem sanções educativas e criminal-jurídicas desproporcionais que não são explicadas por maior engajamento em comportamentos ilegais ou transgressivos. Comprender estas disparidades e tratá-las deve reduzir expulsões, detenções e encarceramentos e suas terríveis consequências sociais e à saúde.

Em terceiro lugar, é preciso recordar (ou reconhecer no caso de alguns) que nossa sociedade produz em seus indivíduos (inclusas crianças) uma “heterossexualidade compulsória”, ou seja, de todas as pessoas espera-se que cresçam para serem heterossexuais. Tal expectativa social reflete-se também na cultura da mídia (expressão de Douglas Kellner), que não cansa de produzir toneladas de milhares de representações da heterossexualidade (seria uma doutrinação? – risos) como norma. Se fosse citar exemplos (tão óbvios quanto este raciocínio), o artigo ficaria ainda maior: para verificá-los, basta observar, estatisticamente, a produção de exemplos positivos da heterossexualidade no cinema, na publicidade, no jornalismo, na literatura, no ambiente escolar, na esmagadora maioria das religiões e igrejas e, por fim, nas relações familiares e interpessoais. Creio que o simples fato de ser a homossexualidade que precise ser anunciada – assumida – como ruptura em relação a uma expectativa já seja a comprovação mais cabal de que um material didático contra a homofobia é necessário – e se pesquisas como estas duas estadunidenses forem feitas por aqui, é possível que encontrem cenário similar sobre os efeitos nefastos da homofobia escolar também na fase adulta.

Exposição pública desastrosa

Por que a questão virou febre midiática e causou tanta indignação no movimento LGBT? Pontuo algumas perspectivas e impressões sobre o que ocorreu. Primeiramente, há um fato “inegável” que é mais importante do que a discussão sobre o kit: a Presidenta Dilma cedeu a uma chantagem, ou “pressão política” numa linguagem mais clean. As bancadas evangélica, católica e da família (a deles) foram ao/de encontro da Presidenta e fizeram algum tipo de pressão que surtiu efeito muito rápido – tão rápido que a Presidência formulou amadoramente como tornar isso público. Há quem avente um misto de fatores: as bancadas cobraram a fatura do “apoio” que Dilma prometeu no 2º turno durante a sangria que se fazia em torno do tema do aborto; teriam ameaçado trancar votações no Congresso; teriam ameaçado fazer coro à convocação de Palocci para esclarecimentos na Câmara. Alguns duvidam desta tese – e até forçam um pouco a barra, pois Dilma não teria gostado de “um trecho, uma fala lá” de um dos vídeos.

Entre o que podia ter sido feito e o que se fez houve um desastre. Que me perdoem os que estão pondo panos quentes, mas faltou assessoria, faltou informação, faltou o celular do Ministro da Educação (!). Ou, ao contrário, era exatamente isso que se pretendia, e não efetivamente discutir os materiais. Como disse alguns dias antes: esse material nem sequer teria passado pelas mãos da Dilma em condições normais, assim como toneladas de publicações, materiais e políticas públicas de Secretarias e Ministérios que só são reportados à Presidência em relatórios a posteriori. A Dilma lê todos os livros didáticos para ver os erro que alguns linguista permite? Então, vamos admitir, como o deputado Jean Wyllys frisou: ela foi chantageada e funcionou. E o problema real: não soube administrar isso publicamente. Falas desencontradas, informações contraditórias – ela viu um trecho na TV; não, ela viu os vídeos; ela viu um material do Ministério da Saúde; não, era do MEC mesmo…

Se a Presidenta tivesse dito que a demanda das bancadas ia ser discutida com o Ministro da Educação, que achava pertinente as considerações dos deputados, que ia convocar uma reunião com todos os interessados, tudo teria sido bem diferente. Mas, ao contrário, seu Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, verbalizou que “foram suspensas a produção e a distribuição dos chamados kits anti-homofobia”. Esse parem as rotativas causou um estrago grande dentro do movimento LGBT, muito porque a chantagem era visível e o pronto atendimento desta idem. Reitero: sendo uma chantagem, e querendo a Presidenta preservar aquilo a que se atentava, ela não tinha escolha mesmo. E, neste caso, eu entendo. E minha obrigação segue sendo a de condenar profundamente.

A produção desse material é acompanhada pelo movimento LGBT há muito tempo. Todos sabemos que se depositam enormes expectativas na educação como lócus privilegiado de mudanças de valores e da cultura nas novas gerações. Neste mesmo contexto: há meses o deputado Bolsonaro conseguiu espaço midiático considerável, estando diariamente nas mentes dos militantes; uma parte da imprensa jogou pesado para demonizar o kit; as bancadas religiosas e alguns líderes como Silas Malafaia estavam profundamente irritados com a decisão do STF, então vinham articulando um contra-ataque. É, portanto, neste cenário que o recuo – mal administrado publicamente – da Presidenta ecoou. Não podia ser pior. Internamente, algumas lideranças querem rompimento com o apoio dado ao governo; a ABGLT ainda espera um diálogo, pois têm reunião marcada com o Ministro Gilberto Carvalho; outros, ainda, têm proposto radicalismo total contra o governo. Particularmente, sou favorável a, simultaneamente, endurecer o discurso e seguir a negociação.

Por fim, alguns aspectos pessoais sobre as reações ao fato: sei que desaponto a alguns amigos militantes, mas não coaduno com as teses mais radicais. Penso que toda a indignação é devida, que os textos e manifestos criticando duramente a decisão devem ser feitos. É um momento de disputa discursiva importante. Ainda que eu não avalie muito bem o começo deste governo em linhas gerais, não pretendo avaliar agora um governo todo; muito menos decidir agora um voto que é para 2014, como alguns têm feito – o que é um direito, ressalve-se, eu apenas não pretendo proceder assim. Recolocar o terrível e intragável clima eleitoral de nosso 2º turno agora não me parece nem adequado nem necessário. Só porque votei na Dilma no 2º turno não significa que deva fazer ouvidos moucos ao que considero errado ou “ser governista” como apontam alguns; também não significa que deva instaurar um clima eleitoral num período que não é este.

Embora discorde de vários pontos da análise que o Alexey fez, concordo com um deles: Dilma não é homofóbica no sentido usual do termo – ao contrário da abordagem ampliada que fiz no texto publicado no BV e linkado no começo do artigo. Ainda que, nesse caso, a tese da chantagem pareça-me muito mais plausível do que a de “querer agradar a todos”, creio que o material vá sair. Preocupa-me de que modo e quando. Nesse sentido, sim, podemos aferir em que medida essa situação toda vai afetar esta política pública. Dizer que o material precisa ser refeito ou que estava sob avaliação é puro jogo de cena a meu ver, pois o fato é que o kit estava pronto e na iminência de ser distribuído. O governo apenas detectou, já há alguns meses, que a investida do Bolsonaro estava tomando corpo e, então, resolveu deixar o assunto na geladeira. As bancadas souberam usar isso muito bem politicamente. A decisão de Dilma é – politicamente – explicável, mas não vejo porque não condená-la e endurecer na cobrança. Ainda que seja difícil precisar exatamente o que se passou, supor que bancadas mais do que suspeitas e com interesses nada republicanos (como é o caso das religiosas) possam vir a fazer isso repetidamente é preocupante em muitos sentidos.

Fica de fora desta análise, por fim, um aspecto importante: o posicionamento da militância, que inclui desde as lideranças das associações nacionais até outros ativistas independentes. Em linhas gerais, todos ficaram profundamente irritados. Entretanto, as estratégias de como lidar com isso têm sido variadas, indo da defesa de rompimento oficial com o governo até àqueles (poucos) que acham o fato menor e que não se deve dar muita importância ao ocorrido. Eu e alguns outros estamos num ponto intermediário destes dois extremos. A análise que fica de fora é, a meu ver, estrutural: a militância LGBT brasileira têm peculiaridades (não sei se exclusivas) que refletem o modo como os movimentos sociais no Brasil, principalmente desde o governo Lula, dependem em quase tudo da máquina do Estado. Prometo voltar ao tema um dia desses, pois ele merece atenção específica pelas questões de institucionalização, aparelhamento, (des)autonomia e financiamento que suscita.

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* O título origional é “Can We Please Just Start Admitting That We Do Actually Want To Indoctrinate Kids?“, em que a palavra indoctrinate pode assumir algumas significações levemente diferentes. A julgar pelos comentários feitos ao artigo, muitos ficaram bastante irritados com o uso desta palavra; outros saíram em defesa do autor tentando esclarecer que a ideia de doutrinar não é, necessariamente, impor à força ideias às crianças. A definição mais comum desta palavra, segundo o Cambridge Dictionary é “repetir várias vezes uma ideia ou opinião/crença às pessoas de modo a persuadi-las a aceitá-la”. Preferi deixar a palavra entre aspas na tradução para refletir a controvérsia em torno das nuanças que este vocábulo possui.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 30 de maio de 2011, em homofobia, LGBT, política, reflexões e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

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