Os gays da revista Veja [parte 1]


"A batalha em torno dos adolescentes gays": capa da norte-americana Time, modelo inspirador da brasileira Veja, de outubro de 2005.

Há uma série de assuntos que gostaria de abordar, mas por ora manterei-me no rastro da mídia, como já fiz na última postagem. Este texto é introdutório, e tratarei de algumas questões gerais sobre a pesquisa que fiz para minha monografia em Jornalismo e de outras (também gerais) sobre a revista Veja. Na próxima postagem, discorro mais especificamente sobre os resultados e os detalhes da minha pesquisa.

Resumidamente, minha monografia (abaixo via Scribd – link alternativo aqui) analisou como os homossexuais – e a homossexualidade em geral – foram retratados na revista Veja ao longo deste último ano. Por “retratados” já explico a metodologia: análise de discurso, de vertente francesa. Já quero destacar que, quando falo em homossexuais e homossexualidade, estou utilizando estas expressões como signos também da bissexualidade, da travestilidade e da transexualidade (estas duas últimas, aliás, profundamente ausentes do discurso da revista). Enfim, genericamente, a população LGBT. Ainda não havia escrito sobre o tema por aqui porque, primeiro, precisava estar diposto – e férias nem sempre combinam com disposição para escrever. Segundo porque só entreguei a versão final da monografia no final de dezembro, então antes disso seria impossível divulgá-la. Agora posso torná-la pública, publicizar a pesquisa e discutir seus resultados com os que tiverem interesse.

Obs.: correção observada por uma leitora: na página 49 do trabalho, há uma correção a ser feita: Chaz Salvatore teve sua identidade de gênero masculina reconhecida pela Justiça americana, e não o oposto como aparece na tabela.

A escolha da revista Veja foi um processo consideravelmente relutante (risos). Comecei minhas pesquisas sobre homossexualidade-discurso-revista, durante a graduação, tomando como objeto uma revista segmentada no público gay [a extinta DOM]. Senti-me insatisfeito: embora rica em possibilidades, esta pesquisa era-me muito pouco estimulante, pois queria compreender como se estava significando os gays e a homossexualidade na imprensa, só que dentro de um veículo segmentado no próprio público gay isto parecia um tanto quanto claro em termos genéricos – a abordagem seria “positiva”. Naturalmente os resultados são bem outros quando entramos nos “termos específicos”: a segmentação econômica, por classe, por temática, etc. renderia boas pesquisas.

Com o tempo, aceitei que precisava, de fato, ir àquele que é o semanário mais importante em nosso país. Importante não significa qualificado; nem que se faça bom jornalismo ali. O que não pude dizer “limpidamente” (mas o sentido, maravilhoso como é, possibilita a fluidez dos significados) na monografia por uma questão de linguagem e adequação científicas, posso dizer aqui no blog: Veja faz um jornalismo de péssima qualidade e está comprometida, em linhas gerais, com absolutamente tudo com o que eu não estou. Na minha pesquisa isso fica bastante visível pelo percurso analítico e pelos resultados – e, além disso, cada um pode tirar as próprias conclusões lendo todas as matérias que compuseram meu corpus.

Montagem criativa para possível capa de Veja em 1888.

A história da revista Veja é tão longa quanto complexa, mas temos bons materiais que nos auxiliam a compreender um pouco de sua origem e, principalmente, de suas mutações (palavra apropriada) até o que é hoje: uma capa quase sempre grosseira e abusiva, com um discurso francamente arrogante sobre o que quer que seja. Não pretendo entrar aqui nas questões de mercado editorial e do pretenso “fim” do impresso, mas o quadro atual ainda é o da importância que a publicação tem na agenda pública do país, sendo recorrentemente utilizada pelos políticos em suas falas e pelos professores nas salas de aula. Aliás: por nós em nossas pesquisas, não?

Quando se observa o primeiro editorial da revista (1968), a impressão é de algo grandioso. E assim foi para os padrões brasileiros. Uma boa retomada da origem da revista é feita pela socióloga Maria Celeste Mira em sua tese de doutorado – transformada em livro posteriormente: O leitor e a banca de revistas: a segmento da cultura no século XX, de 2001. Considero a abordagem feita pelo livro interessante porque inscreve o surgimento da revista no contexto político e cultural do país. Noutro rumo, temos o clássico O caso de Veja, escrito pelo jornalista Luís Nassif. Este compêndio de pequenos artigos em formato de cases sobre as mudanças operadas na revista é bastante interessante por nos ajudar a compreender os diversos (sub-)mundos que circundam, permeiam e influem no jornalismo (os tais campos bourdieusianos de que falei na pesquisa).

Confesso que os capítulos recheados de detalhes sobre lobbies econômicos são os mais complexos para mim por ser profundamente ignorante sobre este assunto. Entretanto, há rico material para pensarmos sobre as questões (anti)éticas que o Nassif coloca acerca da derrocada editorial de Veja ao longo das últimas décadas. [nota: lembro que, nos idos de 2005, meu orgulho era ignorar as aulas de matemática no Ensino Médio para debater sobre as ótimas matérias da revista com minha amiga e colega Luana; o tempo tratou de me ensinar que faltavam as aspas em “ótimas”.] Se o material ali pode parecer específico demais, ou mesmo complexo sobre certos aspectos, podemos acrescer a ele alguns exemplos notórios e mais recentes: o caso do antropólogo Viveiros de Castro e suas “declarações” nunca proferidas e transformadas por Veja numa tese antitética ao que ele defende; ou então o caso do filósofo Alexey Dodsworth, transformado em um tarado por sexo virtual (risos). Certamente há muitos outros casos similares, silenciados pela seção [elogioso] Leitor da revista.

Primeira capa de Veja dedicada aos gays: 12 de maio de 1993.

Estar tão vacinado quanto a uma publicação colocou-me, no decorrer da pesquisa, ainda mais diante daquilo que se costuma chamar de “vigilância epistemológica”. Se por um lado eu sabia o que esperar de Veja, simplesmente poderia não encontrar, ipsis litteris no material analisado, minhas hipóteses e expectativas gerais enquanto leitor-analista. Entretanto, o material é bastante farto para que as conclusões que produzi estejam, ao menos globalmente, bem amparadas. Muito provavelmente há questões particulares que se poderia discutir melhor – algumas delas pretendo abordar na próxima postagem, já que também fizeram parte das críticas da minha banca.

Fotografia presente na matéria da edição de 12 de maio de 2010 de Veja: discurso sobre a geração tolerância.

Por fim, saliento que uma das matérias que compõe meu material de pesquisa foi objeto de diversas análises e críticas à época em que foi publicada. Além disto, essa matéria sozinha é responsável por pouco mais da metade (52%) do meu “arquivo de sequências discursivas” (excertos retirados do textos e analisados). Por isto creio que mereça algumas observações: a revista Veja, em 42 anos de existência, dedicou sua capa aos gays e/ou à homossexualidade apenas 4 vezes, todas bastante recentes: em 1993, 2000, 2003 e em 2010. É precisamente a capa (e sua matéria do miolo) de 2010 que foi amplamente analisada aqui na blogosfera (dois exemplos estão aqui e aqui, cujas referências também fiz na monografia). Na minha pesquisa, portanto, essa matéria acabou sendo central em muitos momentos. Um “detalhe” também não pode passar despercebido: a Carta ao Leitor [leia-se: o Editorial] daquela edição também foi dedicada ao tema, e reforça o discurso da revista quanto à relação juventude-homossexualidade no Brasil de hoje. Lendo a monografia, pode-se ver isto bem mais claramente.

Além do mais, a próxima postagem será sobre alguns resultados da pesquisa em si, então a quem tiver interesse em acompanhar a questão, reforço a sugestão de leitura da monografia (linkada no começo do post). Pretendo enfocar também as críticas e observações que me foram feitas durante a defesa, pois elas ajudam a explicar, em boa parte, os avanços que posso realizar no Mestrado, as falhas em que incorri e os problemas estruturais presentes no trabalho. Até breve.

____________

Atualização: Os gays da revista Veja [parte 2] está publicado.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 23 de janeiro de 2011, em jornalismo e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Parabéns pela pesquisa, excelente qualidade. Abraços

  2. Amigo, seu artigo está cheio de clichês.
    A revista Veja está longe de ser uma revista no estilo “neocon”. Na realidade, ela incomoda tanto eles que você passar nos sites do Olavo de Carvalho e no Mídia Sem Máscara, eles implicam tanto com a revista que a chamam de simpatizante da esquerda. A revista Nova Escola (do grupo Abril, o mesmo da Veja) é recheado de argumentos de professores esquerdistas e politicamente corretos.
    Claro, concordo que equívocos ocorreram na reportagem pró-adolescentes gays da Veja. Muitos militantes LGBTs consideraram a reportagem “positiva” demais. Claro, entendo. Para muitos, gay só faz sentido quando o assunto é preconceito – uma vez que isso legitima a ação de ONGs e partidos que estão em busca de $dim-dim$ e que em nada nos representam no mundo real.
    Sim, torço para que um dia aquilo que a revista Veja seja a realidade de jovens no mundo inteiro. Mas com o avanço do fundamentalismo cristão, do aumento das populações islâmicas e a intolerância, acredito que dificilmente isso ocorrerá em breve.

  3. Não acho, de forma alguma, que apontar os desdobramentos dessa face “neocon” da Veja seja um clichê. Principalmente quando fazemos uma leitura histórico-ideológica. É evidente que, aqui no Brasil, o que o grupo Abril faz com suas “ins-pirações” deixa o resultado com um tempero peculiar e isso nem sempre cai no gosto das olavetes e do Mídia Sem Máscara. Até porque esses aí devem estar em algum grau acima de “neocon”, uma coisa meio inominável, maybe… E olha só o discurso acusando a militância organizada de intere$$eira dando as caras outra vez, hein? Clichê onde?

    Bom, fica aqui uma torcida também: que a “Geração Tolerância” jamais seja a realidade do mundo todo. Não por eu ser um ativista interessado no dinheiro do governo (haha!), mas porque essa liberdade de mentirinha é um lixo, um placebo, uma farsa.

    Parabéns pelo texto e obrigado pela menção, querido.

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