Diversidade na escola [entrevista]


O espectro entre o masculino e feminino: diversidade. Foto: reprodução.

Há quase um mês, publiquei matéria traduzida do IBTimes (Los Angeles) sobre o ensino de diversidade de gênero numa escola da cidade de Oakland, no estado da Califórnia (EUA). Na matéria, temos informações sobre a organização Gender Spectrum, que é baseada em Oakland mesmo, e que desenvolveu os materiais sobre diversidade de gênero a partir da natureza. Entrei em contato com a organização para conhecer melhor o trabalho deles dentro deste tema, principalmente porque estávamos com esta discussão no “olho do furação” aqui no Brasil – na “polêmica” do kit anti-homofobia do MEC. Abaixo, então, vocês conferem uma entrevista que fiz com eles.

Como a matéria do IBTimes informa, Gender Spectrum é uma organização que oferece ensino, treinamento e apoio para ajudar a criar um ambiente sensível e inclusivo à diversidade de gênero para todas as crianças e adolescentes utilizando-se de uma abordagem simples e direta”. O site deles informa: “nós apresentamos uma visão global sobre como a sociedade, atualmente, define gênero e como tais definições restritas podem ser danosas àqueles que não se encaixam claramente nestas categorias. Nós ajudamos você, então, a identificar e remover estes obstáculos para que assim todos estejam livres para serem o que são de modo autêntico”.

O site da organização também possui uma seção de perguntas e respostas bem interessante sobre questões ligadas à identidade de gênero e orientação sexual. Por fim: os links na entrevista foram colocados por mim, de modo a complementar (e às vezes clarificar) as explicações. Vocês também podem ler a versão original em inglês aqui.

Queer and Politics — Há quanto tempo Gender Spectrum está trabalhando com questões ligadas à diversidade de gênero e qual o alcance nacional da abordagem de vocês?

Gender Spectrum Nós temos fornecido treinamento para lideranças escolares, professores, pais e funcionários nos últimos cinco anos. Temos trabalhado em escolas de todas os tipos: pré-escola, ensino fundamental e médio e nível superior; escolas públicas, privadas e paroquiais; urbanas, suburbanas e rurais; de escolas pequenas com menos de 30 alunos até colégios de ensino médio com mais de 4.000 alunos. Nossos treinamentos e consultorias com educadores ocorrem por todo o país.

QP — Como vocês desenvolvem materiais didáticos para trabalhar estes temas com crianças? Em que informações, conhecimentos e estudos vocês se baseiam?

GS Nossas abordagens e materiais institucionais são intencionalmente desenvolvidos para não serem “didáticos”. Utilizamos atividades, discussões, apresentações multimídia e instruções diretas para maximizar a participação do estudante. Os materiais são apropriados às faixas etárias e provêm de várias fontes. A Diretora-Fundadora do Gender Spectrum, Stephanie Brill – que é autora de A criança transgênera: um manual para pais e profissionais – auxiliou no desenvolvimento de nosso currículo. Nosso Diretor de Educação, Joel Baum, coordena a criação de conteúdos originais, mas nossos materiais utilizam atividades, materiais, e/ou designs de outras fontes que têm, do mesmo modo, comprometido-se com temas como reprodução, diversidade nas famílias, orientação sexual e raça.

QP — Como Gender Spectrum lida com pais que se opõem a estas abordagens sobre diversidade de gênero?

GS  Nosso programa educacional é desenvolvido para educar sobre inclusão de gênero para todas as crianças. Em vez de focar exclusivamente em questões sobre transexualidade, nossa abordagem é pensada para expandir as concepções dos estudantes sobre o que ser um menino, ou uma menina, ou ambos, ou nem e outro, realmente significa. Nossas lições reconhecem e respeitam todas as expressões de gênero e identidade dos estudantes, tanto sejam elas estereotipadamente “masculinas” ou “femininas” quanto expressões daquelas crianças que se situam fora dessas experiências mais típicas. Nossos materiais estimulam a aceitação, a diversidade e o respeito; eles não são o “material controverso” que alguns pais temem inicialmente. Nosso ponto central é uma mensagem de gentileza e respeito e quando os pais vêm os fatos, eles apoiam muito mais.

QP — Vocês têm algum tipo de relação direta com governantes locais, parlamentares ou trabalham com políticas públicas focadas em diversidade sexual? 

GS — Atualmente estamos trabalhando com duas bolsas de agências de saúde mental do governo. Além disso, somos membros de vários coletivos por “escolas seguras” que trabalham diretamente com políticas públicas locais, estaduais e federais. Recentemente participamos de um estudo do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos que examinou as disparidades na saúde de indivíduos LGBT no país.

QP — Considerando a experiência e o retorno da Gender Spectrum, como os estudantes, professores e dirigentes escolares reagem aos materiais e às abordagens?

GS  Os que participam de nossas atividades consideram o trabalho conosco transformador, pessoal e profissionalmente. O retorno das nossas intervenções com educadores e pais é, de forma consistente, positivo. Muitos nos contam que, com nossas abordagens, há conceitos sobre os quais eles estão refletindo pela primeira vez na vida. Consideramos muito promissor que as reações dos estudantes ao nosso trabalho sejam universalmente positivas e que os conceitos sobre diversidade de gênero e aceitação que parecem ser tão difíceis aos adultos sejam compreendidos sem estresse por crianças de todas as idades.

QP — Um argumento bastante comum contra a diversidade sexual nas escolas é a chamada “influência ou apologia à homossexualidade” que alguns grupos colocam. Como vocês lidam com isso e respondem a essas argumentações?

GS  O trabalho que fazemos não é sobre orientação sexual em si, é sobre identidade e expressão de gênero e a importância da aceitação de todas as pessoas independentemente do senso pessoal que cada um tem de seu gênero. Nós assinalamos a obrigação de todas as escolas em assegurar a segurança e o bem-estar de todos os alunos. Dependendo da região em que fica a escola, gênero pode muito bem ser uma categoria protegida, e o Escritório de Direitos Civis do Departamento de Educação dos EUA, recentemente, lançou uma Carta Caros Colegas [espécie de comunicação oficial nos EUA] declarando enfaticamente que perseguições ou maus-tratos a alunos baseados em expressões de gênero não tradicionais são vedados sob as normas do Título IX [parte da lei que regula a não discriminação por sexo em qualquer programa educacional do país] *

QP — Vocês acreditam que esta abordagem sobre diversidade de gênero ajudará a reduzir a homofobia quando essas crianças crescerem? Existem pesquisas sobre isso? 

GS — Sem dúvida. Pesquisa recente investigando a relação entre vitimização escolar baseada em gênero e subsequente saúde e bem estar na fase adulta jovem concluiu o seguinte: “as expectativas acerca da adequação de gênero são especialmente altas para os meninos; indiscutivelmente, muitas das ofensas a LGBT que eles vivenciam no ambiente escolar estão enraizadas numa cultura entre seus colegas que demanda conformidade ao gênero masculino”.

__________________

Nota: agradeço à Cathy Renna, da Renna Communications, pela intermediação para esta entrevista.

* Seção 1.681 do capítulo 20 do Código de Leis dos EUA: “Nenhuma pessoa nos Estados Unidos deve, com base no seu sexo, ser excluída da participação, ter benefícios negados, ou ser submetida à discriminação em nenhum programa ou atividade educacional que receba assistência financeira Federal“.

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Sobre Luiz Henrique

Ativista, professor e pesquisador. Interessado em direitos humanos, política, mídia e movimento LGBT. Tenho mestrado em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

Publicado em 30 de junho de 2011, em educação, internacional e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

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